Margarita sonha ver a sua obra traduzida para português

Ela fugiu da violência homofóbica

Margarita Sharapova, escritora russa, 53 anos: “Comecei  a escrever desde muito cedo. Aos 10 anos percebi que me apaixonava por mulheres. Isso atormentava-me muito, pensava que só eu era assim. Não tinha ninguém com quem falar sobre os meus dolorosos problemas interiores. E assim, aos 10 anos, comecei a escrever. Mas isso era um segredo meu. Comecei a viver num mundo paralelo, ao qual ninguém tinha acesso.

Na adolescência ficava muito triste porque todas as minhas amigas se apaixonavam por rapazes e só falavam deles. Eu encontrei consolo no campo das artes: escrita, pintura, teatro. Comecei a trabalhar num circo onde tive a minha primeira relação íntima, mas a minha família soube e condenou-me veementemente. Depois, encontraram no sótão os meus diários, textos que escrevia desde a infância, e ficaram horrorizados. Acharam que eram textos subversivos, anticomunistas, perversos e me prenderam.

“Estive presa 3 meses e fui frequentemente interrogada durante longas horas e espancada. Tudo o que escrevi foi destruído. Graças aos esforços dos meus pais fui declarada doente mental a precisar de tratamento psiquiátrico. Transferiram-me para um hospital onde fui submetida a tratamentos monstruosos: choques elétricos, drogas, etc. Comecei a fingir que o tratamento estava dando certo, a dizer que gostava da política da URSS, que a minha preferência sexual era por homens. Recebi alta do hospital psiquiátrico após seis meses de tortura. Tinha 19 anos.

 

Desde então, nunca mais estive com familiares, exceto com os meus pais e tentávamos esquecer a minha desgraça. Eu fingia corrigir-me e até tive um casamento fictício com um gay. Na URSS havia uma lei que proibia a homossexualidade com pena de prisão e, por isso, a vida da comunidade LGBTI era muito clandestina”.

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Na Praia da Nazaré, 129 kms a norte de Lisboa, numa atividade sociocultural do CPR. © CPR Abril 2014

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No “Pride Arco-iris”, um evento da associação ILGA Portugal. © MS junho 2014

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Margarita em Sintra, uma vila perto de Lisboa, Património Histórico da Humanidade. © MS 2014

Naquele tempo eu não tinha autorização para estudar na universidade ou publicar os meus livros. No início dos anos 90 tudo mudou, o sistema passou a ser outro, as pessoas alegraram-se com a liberdade. Finalmente pude estudar na Universidade de Cinema, em Moscovo, e publicar os meus textos.

A liberdade começou a ser sufocada quando Putin chegou ao poder. Todos os meus livros voltaram a ser proibidos. Qualquer um dos meus contos, histórias, novelas, sobre qualquer assunto, passaram a ser rejeitados pelos editores. Nos créditos dos filmes onde eu era argumentista, retiraram o meu nome.

Uma vez fui atacada perto de um clube gay por um grupo de neonazis que me quebrou o nariz. Um dia, depois de um Festival de Cinema LGBTI, a minha companheira foi espancada pela polícia e pouco depois morreu.

Cheguei a Portugal quase morta interiormente. Mas muito lentamente renasci. Eu não entendo a língua, mas a fala das pessoas soa-me como o canto dos pássaros, parece música. Às vezes choro, grito, berro perante o mar e ele partilha a minha dor e saudade. Na fase inicial da minha chegada recebi apoio do Conselho Português para os Refugiados (CPR), no seu Centro de Acolhimento da Bobadela (CAR). Se não fosse essa ajuda, acho que teria saltado da Ponte Vasco da Gama, porque sentia que a minha vida tinha acabado. Agora estou envolvida nas aulas de expressão dramática no CAR e faço parte do grupo de teatro RefugiActo, mas não tenho amigos íntimos, não tenho alguém com quem possa falar de coração para coração. O meu maior amigo é o oceano Atlântico.
Eu quero muito encontrar um tradutor literário para os meus livros. Este é o meu maior sonho. Estou aprendendo português, mas até dominar a língua e fazer tradução literária vai demorar muitos anos, e já não tenho esse tempo todo por causa da minha idade. Estou a escrever um romance sobre refugiados e também escrevo histórias sobre a vida dos portugueses.

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As pessoas compreendidas na sigla LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero e Intersexo) podem ser elegíveis para o estatuto de refugiado com base em perseguição devida à ‘pertença a um grupo social particular’ quando as autoridades do seu país de origem não são capazes de lhes garantir proteção ou não as queiram proteger.