Casal sírio recomeça vida na Argentina

Madj e Lana foram forçados a deixar Damasco devido aos conflitos. Cheios de esperança, eles agora estão recomeçando suas vidas na província de San Luis.

SAN LUIS, Argentina, 20 de abril de 2017 – Em uma ensolarada tarde no meio da semana, a cidade argentina de San Luis remete a um calmo oásis. Majd e Lana, casal de refugiados sírios de Damasco, estão fazendo hora antes de irem para a aula de espanhol. Nem parece que eles chegaram há apenas cinco semanas.

“Já estou me sentindo em casa”, diz Lana sorrindo. “Aqui na Argentina reaprendemos a ser humanos”, acrescentou Majd, dando um trago em seu cigarro.

O casal não teve escolha senão fugir da Síria. Há dois anos, Majd, que é cozinheiro, quase perdeu a vida quando uma bomba atingiu a casa de seus pais na Cidade Antiga de Damasco. Ele e Lana, que é artista plástica, se casaram e compraram um apartamento distante do centro da cidade. Porém, rapidamente o local se tornou a “o bairro mais perigoso de toda a cidade”, lembra-se Majd. “Todos estavam apavorados”.

Em fevereiro de 2017, eles chegaram à província central de San Luis por meio de um programa de vistos humanitários para refugiados sírios oferecido pelo governo da Argentina. A tranquilidade da capital, que também se chama San Luis, contrasta fortemente com as mortes e destruições de Damasco. Com uma população de 200 mil pessoas, suas ruas vibram com diversas atividades durante a manhã. Porém, durante a tarde, diversas lojas fecham enquanto os locais fazem a siesta, o cochilo da vespertino.

A mais de 12 mil quilômetros de casa, o casal está indo bem. Como foram os primeiros refugiados sírios a chegar à província localizada no centro da Argentina, eles viraram celebridades. As pessoas já até os reconhecem pelas ruas. “Às vezes me sinto como um Pokémon”, ri Majd.

 “Aqui na Argentina reaprendemos a ser humanos.”

Criado em 2014, o programa de visto humanitário da Argentina oferece uma alternativa vital para aqueles que foram forçados a fugir devido a guerra na Síria. Ele solicita que cidadãos argentinos, organizações ou instituições atuem como patrocinadores e se comprometam a disponibilizar recursos para oferecer acomodação e assistência financeira aos recém-chegados.

San Luis fez ainda mais. Foi a primeira província que se comprometeu a destinar recursos públicos para apoiar o reassentamento de pelo menos 50 famílias na região, sendo que dessas, 30 serão selecionadas pelo ACNUR, a Agência da ONU para os Refugiados. Aqueles que foram reassentados, têm a oportunidade de receber aulas de espanhol gratuitas, acomodação, educação (incluindo nível universitário), seguro de saúde e transporte público. Além disso, eles recebem dois anos de apoio financeiro para ajudar a se adaptarem em suas novas vidas na Argentina enquanto procuram emprego.

A oportunidade chegou em boa hora para Lana e Madj. Muitos de seus amigos morreram depois de terem sido recrutados pelo exército sírio. Muitos outros morreram em combate. Conforme a violência ia ficando cada vez mais grave, o casal decidiu viajar para a Europa.

Porém, a religião deles – ambos cristãos ortodoxos – tornou a jornada impossível. Durante a rota, tanto por Idlib ou Alepo, eles cruzariam com milícias extremistas que os matariam por causa de suas crenças. Esconder essa realidade não era uma opção, pois Majd tem uma grande tatuagem de cruz em seu antebraço direito.