Crianças deslocadas contam do sofrimento em Kasai, República Democrática do Congo

O ACNUR estima que 1,4 milhão de pessoas foram deslocadas em razão de conflitos na região que costumava ser pacífica.

KAMONIA, República Democrática do Congo, 12 de setembro de 2017 – Felix*, 12 anos, senta e em silêncio e observa o acampamento onde está morando. Ele e outras quatro crianças foram acolhidos por pais adotivos, após fugirem do conflito em Kasai, região na República Democrática do Congo (RDC).

"Perdi meus pais quando nossa aldeia foi atacada por homens armados", conta. "Nós saímos correndo em direções diferentes".

Felix cruzou a fronteira entre a RDC e Angola, em busca desesperada pelos pais. "Procurei por eles em todos os lugares onde havia refugiados, mas não os encontrei", diz ele. "Agora, eu voltei aqui. Não sei se eles ainda estão vivos".

Marie*, 13 anos, também perdeu seus pais. Ela fugiu para uma cidade vizinha com os quatro irmãos e irmãs, após presenciar o assassinato de seus pais.

"Eu agora sou o chefe da família", ela diz, enquanto observa seu irmão de dois anos, o mais novo da família.

Marie vive com seus irmãos em uma casa abandonada pelo dono, que fugiu para Angola. Eles não têm ninguém para cuidar deles, exceto alguns vizinhos simpáticos que juntaram comida para eles.

Felix e Marie estão entre as centenas de crianças que foram separadas de seus pais ou testemunharam terríveis assassinatos. Crianças como elas são acolhidas em abrigos por organizações humanitárias locais, mas não existe nenhum sistema de apoio psicossocial.

O conflito em Kasai começou há mais de um ano, quando a tensão local se intensificou a um conflito generalizado que afetou nove das 26 províncias da RDC. O ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, estima que 1,4 milhão de pessoas tenham sido deslocadas como resultado da violência na região anteriormente pacífica.

A missão da equipe do ACNUR na semana passada para Kamonia, na fronteira com Angola, mostrou a extensão da violência e destruição na área central do conflito.

Aldeias inteiras foram queimadas e a prestação de serviços humanitários básicos foi interrompida porque o acesso às áreas onde as pessoas necessitam de assistência e proteção foi bloqueado. Instalações de saúde, escolas e outros edifícios públicos foram destruídos.

Crianças como Felix e Marie estão particularmente em risco, assim como os idosos, as pessoas com deficiências e os doentes. O ACNUR fez um apelo às autoridades para permitir que as agências humanitárias tenham mais acesso às pessoas que precisam de assistência.

O ACNUR está enviando mais funcionários e abriu mais escritórios em Kasai para impulsionar operações humanitárias e pediu maior segurança na área. Isso permitirá que os refugiados e os deslocados internos possam, finalmente, voltar para casa.

*Nomes foram alterados por motivos de proteção.

Por Andreas Kirchhof e Markku Aikomus em Angola.