Mulheres ajudam refugiados venezuelanos em Roraima

Duas brasileiras que vivem em Boa Vista abraçam a causa dos refugiados venezuelanos, enfrentam desafios e dão exemplo de solidariedade.

Ana Lucíola Franco ao lado de uma das famílias venezuelanas que estão vivendo em situação de rua em Boa Vista, capital de Roraima. ©ACNUR/Reynesson Damasceno.

BRASÍLIA, 08 de março de 2017 – Na cidade de Boa Vista, capital do Estado de Roraima que abriga milhares de venezuelanos forçados a deixar o seu país em busca de proteção, duas brasileiras decidiram fazer a diferença na vida de quem está vivendo em condições de extrema vulnerabilidade.  E basta observar a movimentação na praça Simon Bolívar, onde centenas de pessoas estão acampadas se preparam para receber alimentos e doações arrecadados por estas duas mulheres.

Elas são a advogada Ana Lucíola Franco, de 56 anos, e a médica Eugênia Moura, de 60 anos. Vivem em Boa Vista, realizam trabalhos sociais desde que eram adolescentes e já ajudaram indígenas, haitianos e outras populações vulneráveis que passaram pela capital de Roraima.

Quando começou a aumentar o fluxo de venezuelanos no Estado, no final de 2015, elas decidiram que era hora de focar sua solidariedade para essas pessoas e iniciaram o movimento “SOS Hermanos”. Atualmente, as doações são entregues duas ou três vezes por semana na praça Simon Bolívar e em outras.

O movimento “SOS Hermanos” tem recebido móveis, eletrodomésticos, roupas e alimentos que são distribuídos com a ajuda de outros voluntários para quem está deixando a Venezuela para recomeçar sua vida no Brasil. O movimento atua em outras frentes para promover a integração destas pessoas, inclusive laboral.

As duas amigas formaram uma rede composta por profissionais de diversas áreas que articulam essa inserção. “Um dos nossos principais propósitos é ajuda-los a se inserir no mercado de trabalho”, afirma Ana Lucíola, que destaca que a maioria dos venezuelanos é qualificada profissionalmente e tem muito potencial para contribuir com a economia local.

Em breve, Ana Lucíola e Eugênia inaugurarão um abrigo para cerca de 40 pessoas, em um edifício na zona central de Boa Vista. O abrigo tem cerca de 900 metros quadrados e foi estruturado para receber famílias com crianças, sendo mantido por meio de doações. Segundo Ana Lucíola, o momento não poderia ser mais apropriado já que o período de chuvas se aproxima. “A maioria das pessoas chega com poucas roupas e não está preparada para o frio. Precisamos fazer o que estiver ao nosso alcance para protege-las e tira-las das ruas”, afirma.

Em apoio às idealizadoras do projeto, o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) implementa um projeto para melhorar as instalações, como acesso aos banheiros, aumento do número de quartos e uma cozinha multifuncional. Será criado ainda um espaço especial para que as crianças possam brincar com segurança. O espaço será monitorado pelo ACNUR e pela ONG Fraternidade, e a ideia é que os refugiados possam viver e gerir o local de forma independente.

Segundo Bertrand Blanc, Oficial de Emergências do ACNUR, as conexões estabelecidas entre a sociedade civil, o setor privado e a resposta humanitária são fundamentais para assegurar uma rápida e eficiente integração urbana local de refugiados em Boa Vista. “Essa importante iniciativa oferece alimentos para 500 refugiados por dia, acolhe em sua casa famílias vulneráveis e coloca à disposição abrigos adicionais, permitindo ao ACNUR e aos seus parceiros mitigar condições extremamente difíceis de muitas famílias e crianças”.

Em Boa Vista, Ana Lucíola e outros voluntários entregam marmitas para mulheres venezuelanas em situação de vulnerabilidade. ©ACNUR/Reynesson Damasceno.

 

Entretanto, estes atos de solidariedade nem sempre são bem recebidos pela comunidade local. A advogada afirma que já testemunhou inúmeras cenas de intolerância em relação aos venezuelanos, e que ela e os voluntários também são hostilizados e agredidos verbalmente. Mesmo assim, apesar das hostilidades, ela e sua equipe seguem firmes no propósito humanitário.

Ela afirma que o impacto positivo da assistência oferecida ainda é predominante e pode ser percebido diariamente. Segundo Ana Lucíola, quando as pessoas vencem a resistência inicial e se permitem ter contato com a causa, acabam modificando suas perspectivas. “Toda ação solidária, de uma forma ou de outra, sensibiliza quem está do lado”, afirma, deixando clara a real dimensão e alcance da solidariedade que pode fazer a diferença na vida de cada vez mais pessoas.