Marcado pela guerra da Síria, menino de 7 anos encontra novo caminho

Mohammad nasceu sete anos atrás, no início do conflito da Síria. Ele perdeu sua casa e muito mais até que uma escola especializada no Líbano lhe ofereceu esperança.

Mohammad, jovem refugiado sírio, frequenta uma escola nos arredores de Beirute, no Líbano. © ACNUR/Diego Ibarra Sánchez

Mohammad tinha apenas dois meses de idade quando a guerra começou na Síria. A princípio, a vida continuava a mesma no vilarejo tranquilo nos redores das antigas ruínas de Palmyra, onde vivia sua família. Mas, em pouco tempo, o conflito afetaria profundamente suas vidas.

Mohammad não conhece nada além do conflito em casa e do exílio no Líbano, onde ele e sua família agora vivem como refugiados. A história do garoto é apenas uma entre as milhões de pessoas afetadas pela guerra na Síria, que completa sete anos este mês.

O ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, estima que existem mais de um milhão de crianças refugiadas sírias, como Mohammad, que nunca conheceram seu país em paz, e que tiveram suas primeiras lembranças marcadas pela guerra e pelo exílio.

Hussein, o pai de Mohammad, tem 41 anos e passou grande parte dos primeiros anos da vida de seu filho no Líbano, trabalhando no ramo da construção para sustentar a família, enquanto deixava sua esposa Aisha tomando conta da casa. “Naquela época, nosso vilarejo era pacífico e ainda podíamos sonhar com uma vida melhor para nossos filhos”, disse.

Mohammad foi diagnosticado com deficiência auditiva quando tinha pouco mais que um ano de idade e começou a usar um aparelho auditivo, visitando um especialista em Damasco para consultas a cada três meses. Pouco depois, em 2013, o conflito que até então tinha devastado outras partes da Síria gradualmente começou a afetar suas vidas.

“Grupos armados iam e vinham – nenhum de nós sabia quem estava lutando contra quem”, afirmou Hussein. “No começo, você ainda podia se locomover. Eventualmente as pessoas pararam de viajar depois do anoitecer, e depois de um tempo tornou-se impossível se locomover a qualquer momento. As pessoas estavam com muito medo de deixar o vilarejo, seja qual fosse o motivo”.

“A casa desmoronou ao nosso redor. Peguei meus filhos e tentei tirá-los de lá”.

Foi devido a esse movimento restrito que Hussein ficou preso no Líbano em uma noite de agosto de 2014, quando a guerra finalmente chegou à sua casa e mudou a vida do jovem Mohammad para sempre. Por volta das duas da manhã, Aisha, de 32 anos, ficou assustada com o som ensurdecedor dos bombardeios.

“A casa desmoronou ao nosso redor. Peguei meus filhos e tentei tirá-los de lá”, lembrou Aisha. “Quando estávamos saindo, vi meus vizinhos tirando cadáveres de suas casas”. Eles procuraram abrigo em fazendas próximas.

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Mohammad, um jovem refugiado sírio da antiga cidade de Palmyra, brinca com colegas de turma durante o intervalo no Instituto Pai Andeweg para Surdos (FAID, em inglês) nos arredores de Beirute, no Líbano. © ACNUR/Diego Ibarra Sánchez

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Mohammad espera na fila durante o intervalo da escola onde estuda. © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

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Mohammad assiste à aula no Instituto Pai Andeweg para Surdos (FAID, em inglês) perto de Beirute, no Líbano. © ACNUR/Diego Ibarra Sánchez

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Mohammad assiste à aula no Instituto Pai Andeweg para Surdos (FAID, em inglês) perto de Beirute, no Líbano. © ACNUR/Diego Ibarra Sánchez

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Pela janela, Mohammad contempla a paisagem nos arredores de Beirute, no Líbano. © ACNUR/Diego Ibarra Sánchez

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Mohammad brinca com seus colegas de classe no Instituto Pai Andeweg para Surdos (FAID, em inglês) nos arredores de Beirute, no Líbano. © ACNUR/Diego Ibarra Sánchez

 

Devido ao pânico e à confusão, foi somente ao amanhecer que Aisha notou sangue em suas roupas, e percebeu que era de Mohammad. A ferida causada pelos estilhaços em sua mão esquerda não parecia séria no início, mas dois dias depois, quando finalmente conseguiram chegar a um hospital, os médicos foram forçados a amputar a mão do garoto por causa do dano causado aos nervos.

Depois disso, as coisas não melhoraram. Em 2015, grupos armados assumiram o controle da área ao redor do vilarejo onde viviam e impediram as pessoas de sair. Mohammad não conseguiu visitar o especialista em Damasco e sua audição rapidamente se deteriorou. Sem escolha, no início de 2016, Aisha pagou contrabandistas para que ela e seus quatro filhos pudessem sair do território controlado por extremistas a fim de se juntarem à Hussein no Líbano.

A viagem levou dois meses no total e a família passou por Raqqa, Alepo e Damasco, até finalmente chegar na cidade de Beirute, no Líbano. Em vários pontos, Aisha foi forçada a pedir água a desconhecidos, montar em burros e caminhar por horas com suas quatro crianças pequenas. “Corri muitos riscos por ser uma mulher sozinha, mas tive força”, afirmou. “Tirei forças das pessoas que encontramos no caminho e que haviam superado coisas piores”.

Finalmente reunido com sua família, a primeira prioridade de Hussein foi encontrar ajuda especial para a deficiência auditiva de Mohammad. Uma dica o levou ao Instituto Pai Andeweg para Surdos, uma escola especializada situada nas colinas com vista para Beirute.

“Mohammad é um estudante muito inteligente. Ele sempre quer provar que é como todos os outros”.

A escola tem 50 estudantes libaneses e 20 crianças refugiadas sírias que a frequentam gratuitamente. Além das aulas em árabe e inglês, a escola oferece aparelhos auditivos e acesso a fonoaudiólogos, psicólogos e assistentes sociais.

Depois de ter passado por situações muito difíceis, Mohammad está finalmente prosperando graças à escola. Todas as manhãs, ele penteia o cabelo em frente ao espelho antes de fazer o trajeto de meia hora para chegar à escola. A primeira coisa que faz quando volta para casa é a lição. Na escola, ele quer responder todas as perguntas, entusiasmado para ser o melhor.

“Mohammad é um estudante muito inteligente”, afirma uma de suas professoras, Sabine. “Mesmo não tendo uma mão, ele sempre quer provar que é como todos os outros, que ele pode fazer tudo”.

Hussein reflete sobre o fato de a guerra da Síria ter a mesma idade que seu filho. “Os últimos sete anos nos levaram cem anos para trás. Nos fizeram envelhecer”, disse. “Eu não me preocupo com o futuro de Mohammad. Estou fazendo o meu melhor para que ele seja feliz. De alguma forma, as coisas sempre dão certo para ele”.

Sua mãe, Aisha, resume a atitude que ela diz que definirá o futuro de Mohammad, apesar de tudo o que aconteceu em seu passado. “Sua determinação sempre foi maior que suas deficiências”.