Colombiana abre as portas de sua casa para venezuelanos

Em 2003, Angelica Lamos foi recebida na Venezuela quando foi forçada a fugir de rebeldes armados na Colômbia. Agora ela está retribuindo o favor.

Angélica Lamos interage com os venezuelanos que hospeda em sua casa em Cúcuta, Colômbia. © ACNUR/Paul Smith

Angelica Lamos Ballesteros, de 51 anos, foi recebida na Venezuela quando guerrilheiros carregados de armas a forçaram a deixar sua casa no montanhoso departamento de Norte de Santander, na Colômbia. Agora, de volta à Colômbia, ela abriu as portas de sua casa para os venezuelanos no momento em que mais precisam.

“É hora de retribuir”, afirma Lamos em sua casa, localizada em um subúrbio poeirento de Cúcuta, cidade colombiana à oeste do rio Táchira, da Venezuela, país que atualmente enfrenta uma crise própria.

A vida na fronteira de mais de dois mil quilômetros de extensão entre a Venezuela e a Colômbia há muito é repleta de pessoas que são forçadas a fugir da violência.

Lamos, cuja silhueta pequena esconde uma determinação de aço e enorme confiança, recomeçou sua vida na Venezuela há 14 anos, depois de atravessar a fronteira apenas com uma sacola de roupas.

No entanto, depois de viver e criar uma família lá, ela foi forçada a retornar à Colômbia em agosto de 2015, quando a Venezuela ordenou a deportação de colombianos da região fronteiriça. A medida forçou 20 mil colombianos, muitos deslocados pela longa guerra civil colombiana, a deixarem o país.

“As pessoas chegam aqui sem nada, então a prioridade é dar a elas um lugar para ficar”.

“Eu abri as portas da minha casa há dois anos, quando as deportações aconteceram”, diz Lamos. “Eu morei na Venezuela, trabalhei e tive uma vida lá, então sei o que é ter que deixar tudo para trás. As pessoas chegam aqui sem nada, então a prioridade é dar a elas um lugar para ficar”.

A disparada da inflação, a escassez generalizada de alimentos e remédios, a agitação política e a violência estão fazendo com que milhares de venezuelanos deixem o país. Muitos seguem os passos de Lamos e, por terra, atravessam a fronteira até Cúcuta, na esperança de construir uma vida melhor. Em alguns casos, solicitam refúgio.

Agora, de volta à Colômbia, Lamos vive em uma casa de estilo colonial, onde oferece comida, abrigo e solidariedade aos venezuelanos que escapam da crise. Sua casa tem um pátio central onde os moradores socializam e, às vezes, comem juntos. Os quartos são espaçosos, algumas famílias compartilham uma cama.

Mulheres e criança compartilham uma refeição na casa da ex-refugiada Angelica Lamos, em Cúcuta, Colômbia. © ACNUR/Paul Smith

 

“Cerca de dez venezuelanos vivem aqui”, diz, gesticulando de forma animada. “Algumas pessoas ficam um ou três meses até conseguirem recuperar sua autonomia. Nós os ajudamos a entender seus direitos na Colômbia, nós os ajudamos a organizar seus documentos”.

O governo colombiano estima que cerca de 300 mil venezuelanos estão no país andino, onde – apesar da recente introdução de permissões temporárias de trabalho para aqueles que entraram no país legalmente e ultrapassaram o período de seus vistos – há pouca infraestrutura para recebê-los.

Mais de 650 mil venezuelanos também chegam regularmente à Colômbia usando o Cartão de Mobilidade de Fronteira, principalmente para comprar comida e outros itens básicos.

“A Colômbia foi por muito tempo um país que produzia refugiados. Agora precisa se adaptar para ser (um país) que os recebe”.

 “A Colômbia foi por muito tempo um país que produzia refugiados”, disse Jozef Merkx, representante do ACNUR no país. “Agora precisa se adaptar para ser um país que os recebe”, concluiu. Em todo o mundo, há mais de 340 mil refugiados colombianos, além de sete milhões de deslocados internos pelo conflito que assolou o país durante décadas.

Em seu esforço pessoal para receber refugiados, Lamos e sua família também organizam um almoço comunitário mensal gratuito. Ela cobra um aluguel mínimo de US$ 1 por mês para os inquilinos e entende quando às vezes não conseguem pagar. “Nós também os encorajamos a trabalhar, ir de porta em porta e encontrar algo que possam fazer para ocupar seu tempo”.

O venezuelano Oswell Mujica posa para foto do lado de fora do abrigo gerido por Angelica Lamos em Cúcuta, Colômbia. Para pagar seu aluguel, ele vende uma doce bebida fermentada chamada mazato feita por mulheres que também moram no abrigo. © ACNUR/Paul Smith

 

O estudante venezuelano Oswell Mujica, de 19 anos, está entre os que receberam a hospitalidade de Lamos. Ele foi forçado a fugir de Caracas em janeiro de 2017 e chegou em Cúcuta sem nada. “Eu estava procurando emprego, mas não havia nada, o governo abandonou o povo”, diz em voz baixa no pátio central da espaçosa casa de Lamos.

“Quando cheguei em Cúcuta pela primeira vez, tive que dormir nas ruas, mas depois encontrei este lugar”. Ele diz que passou fome nas primeiras semanas na Colômbia. “Quando cheguei, era como na Venezuela”.

Embora muitas pessoas que passam por sua casa estejam fugindo da fome e da violência, alguns dizem que a ameaça de violência política os forçou a partir. Keener González, 21, lembra-se dos protestos que viu em Caracas e da resposta impiedosa contra eles.

“Você não pode falar mal do governo”, disse em frente à casa de Lamos, onde havia participado de uma reunião sobre os direitos dos venezuelanos recém-chegados. “Eles batem em manifestantes, prendem pessoas que tiram fotos… Não posso viver em um país como aquele”.

Para Lamos, a decisão de abrir as portas de sua casa foi simples. “Os venezuelanos estão vivendo um momento muito difícil e isso me machuca. Eu morava lá e fui bem tratada na época, mas agora as autoridades estão se comportando de maneira terrível”, disse. “Somos todos seres humanos e todos temos direitos”.