Refugiada do Mali recusa casamento forçado para ir à escola

Fatimata, 12 anos, escapou por pouco depois de resistir a um casamento arranjado, mas seu caso reflete um problema mais amplo entre os refugiados malineses na Mauritânia.

Sentada na tenda onde mora, no campo de refugiados de Mbera, na Mauritânia, Fatimata, de 12 anos, concentra-se enquanto desenha uma flor em seu caderno escolar.

Atrás dela estão empilhados os colchões e cobertores que seriam seu dote, se ela não tivesse resistido à tentativa da família de forçá-la a se casar com um primo, pastor de gado em sua terra natal, o Mali.

“Foi só no dia em que meu tio do Mali veio para cá que entendi que meus pais tinham arranjado um casamento para mim”, disse ela. “Ninguém me perguntou se eu queria me casar. Eu estava com tanto medo que fugi.”

“Agora eu sei que eles estavam falando sobre isso há muito tempo antes de permitir que meu tio viesse aqui e me levasse como noiva para seu filho, um primo que vive em Mali e trabalha com o gado”, acrescentou ela. “Eu não o conheço e não sei sua idade, mas sei que ele é muito mais velho que eu.”

O campo de refugiados de Mbera é a casa de Fatimata desde os seis anos de idade. Ele está localizado em um lugar árido do sudeste da Mauritânia, perto da fronteira com o Mali. Após a violência que começou no norte do Mali em 2012, o campo é um lar temporário para mais de 56 mil refugiados malineses, principalmente pastores de gado árabes e tuaregues que perderam seus meios de subsistência por causa do conflito.

A insegurança generalizada no norte do Mali continua a provocar novos deslocamentos. Desde janeiro de 2018, mais de 4.700 pessoas recém-chegadas foram registradas no campo de Mbera, e os refugiados relatam sofrer ameaças, extorsão e execuções sumárias por grupos armados, além das condições de vida exaustivas em suas áreas de origem.

A pobreza e a vulnerabilidade dentro do campo de refugiados de Mbera contribuíram para o fenômeno de casamentos precoces e forçados. Em 2017, 97 casos foram registrados pelo ACNUR, Agência da ONU para Refugiados. Entretanto, o número real é, provavelmente, muito maior. O ACNUR, juntamente com parceiros, incluindo a UNICEF e a ONG italiana Intersos, criaram uma rede de segurança infantil para proteger as crianças que moram no campo.

 “Meu tio me amarrou com uma corda para ter certeza que eu não escaparia novamente.”

Pouco depois de Fatimata fugir, ela foi encontrada e levada de volta para a tenda de seus pais. “Meu tio me amarrou com uma corda para ter certeza que eu não escaparia novamente, mas consegui me libertar e fugir mais uma vez para a casa da minha prima, do outro lado do campo”, disse ela.

Ela esperou amanhecer antes de ir à escola mais próxima e procurar ajuda.

“Quando encontrei Fatimata, ela estava angustiada e com contusões nos braços e no pescoço por causa da corda”, disse a refugiada Halima Sidiwa, indicada pela Intersos como ponto focal da comunidade para ajudar crianças em risco, oferecendo-lhes um lugar seguro para ficar enquanto seus casos são resolvidos.

Fatimata passou cinco dias na casa de Halima, recusando-se a voltar para os pais até o tio ir embora. “Ela estava apavorada e chorava porque queria voltar para a escola”, contou a Assistente Sênior de Proteção do ACNUR, Houleymata Diawara, que, juntamente com outros profissionais de proteção, discutiu o caso com líderes comunitários antes de se encontrar com a família da menina.

As conversas com a família não foram fáceis, mas entre os contrários ao casamento estava a mãe de Fatimata, Walet. “Eu não estava feliz com a ideia de dar a minha filha em uma idade tão jovem e expressei minha tristeza, mas eles não me ouviram”, disse ela.

“Quando meu pai ouviu o que estava acontecendo, ele me avisou para não interferir entre meu marido e seu irmão mais velho e deixá-los fazer o que deviam”, acrescentou ela. “Em nossa cultura, o irmão mais novo deve respeitar as decisões tomadas por um irmão mais velho. Ele já havia decidido que iria levar minha filha, então eu não fiz nada”.

 “Agora que o casamento foi cancelado, eu não tenho mais medo.”

Após um longo processo, a equipe de proteção e os líderes da comunidade conseguiram persuadir a família a cancelar o casamento e permitir que Fatimata continuasse estudando.

“Agora que o casamento foi cancelado, eu não tenho mais medo”, disse uma Fatimata, alegre. “Ouvi dizer que encontraram outra esposa para o meu primo e estou feliz de poder ir à escola”.

O representante do ACNUR na Mauritânia, Nabil Othman, disse que a agência e seus parceiros continuarão se envolvendo com as comunidades para aumentar a conscientização sobre o assunto e tentar prevenir outros casos de casamento precoce e forçado.

Um sistema confiável de referência e proteção é crucial para apoiar o empoderamento das crianças, disse ele. “A documentação também é uma ferramenta de proteção infantil muito importante, que nos permite intervir em casos de casamentos precoces e forçados”, acrescentou Othman.

Recentemente, a Mauritânia começou a distribuir certidões de nascimento a todos os refugiados malineses nascidos no campo. Assim, a data de nascimento desempenha um papel fundamental na proteção das crianças, permitindo que as autoridades identifiquem casos de casamentos precoces e forçados e outras formas de abuso antes de recolher provas contra os agressores.