Venezuelanos acolhidos em São Paulo encontram oportunidades de emprego para reconstruir a vida com dignidade

As habilidades e atributos das pessoas refugiadas e solicitantes da condição de refugiado representam um potencial econômico significativo para cidades receptoras e empresas contratantes.

O venezuelano Yofre, de 35 anos, participa de um encontro promovido pelo ACNUR no CTA São Mateus, para mapear as oportunidades de empregabilidade dessa população. Foto: ACNUR/MiguelPachioni.

São Paulo, 30 de julho de 2018 (ACNUR) – O sonho de obter uma vaga no mercado de trabalho aconteceu em tempo recorde para 81 do total de 287 venezuelanos que chegaram de Boa Vista à São Paulo por meio do processo de interiorização do Governo Federal, iniciado em abril deste ano.

A conquista de um trabalho é resultado do esforço pessoal dos próprios venezuelanos, de serviços oferecidos pelo poder público e pela sociedade civil, assim como da sensibilização do setor privado, como parte dos esforços de integração do crescente número de pessoas venezuelanas que chegam ao Brasil.

Entre os que já conseguiram um trabalho em São Paulo está Johny, de 50 anos, que chegou à cidade com seu filho em maio deste ano, após viver nos abrigos de Boa Vista por três meses. Há um mês ele trabalha como estoquista em uma empresa de logística, após fazer um curso de capacitação profissional e ser encaminhado para uma entrevista de emprego por meio do Programa Trabalho Novo, da Prefeitura de São Paulo.

“A cada dia aprendo mais, compartilho também o conhecimento que tenho e assim vamos contribuindo para a constante melhora dos resultados da empresa”, disse Johny, que na Venezuela trabalhava como técnico de engenharia civil.

Os serviços prestados nos abrigos e casas de acolhida que participam do programa de interiorização incluem a produção de currículos, preparação para entrevistas, mobilização de empresas e cursos de português. Este acompanhamento tem também possibilitado o surgimento de iniciativas de empreendedorismo, como é o caso de Yofre, de 35 anos.

Ele chegou ao Brasil em outubro do ano passado, e em abril de 2018 embarcou num avião da Força Aérea Brasileira (FAB) em direção a São Paulo, no primeiro voo de interiorização. Acolhido no Centro Temporário de Acolhimento (CTA) de São Mateus, uniu-se a outros quatro venezuelanos para prestar serviços gerais, como manutenção elétrica, pintura, encanamento, carpintaria e construção.

“Nos conhecemos aqui no CTA de São Mateus. Juntamos nossas experiências e já estamos prestando uma variedade de serviços. Somos qualificados para realizar trabalhos com qualidade e temos muita força de vontade. Vamos formalizar nosso negócio e buscar novos aprendizados que ampliarão nossa atuação profissional”, afirmou Yofre – que acabara de receber, por telefone, mais um pedido de orçamento de prestação de serviços de pintura.

Alejandro, de 33 anos, chegou no Brasil em fevereiro deste ano e também embarcou para São Paulo no primeiro voo de interiorização. Na bagagem trouxe poucas roupas e muita esperança de um futuro digno. Neste momento, está trabalhando na Coordenação de Pronto Atendimento Social (CPAS) da Prefeitura de São Paulo, como orientador educativo.

“Tenho uma ideia de realizar um projeto social para atender crianças e adolescentes brasileiros em situação de rua para devolver tudo o que o Brasil tem feito por nós. Os brasileiros nos acolheram e quero contribuir para o acolhimento do futuro do país”.

Seminários sobre direito ao trabalho e integração – Para a maioria dos refugiados e solicitantes dessa condição, o acesso ao trabalho é fundamental para sua integração. E para promover mais oportunidades de emprego e viabilizar que outras cidades acolham a população venezuelana que se encontra em Boa Vista, a Casa Civil da Presidência da República, em articulação com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), está promovendo seminários com empresários e agentes públicos em diferentes cidades do Brasil.

O objetivo dessas atividades é, entre outras, esclarecer que os solicitantes da condição de refugiado têm os mesmos direitos para trabalhar no Brasil como qualquer brasileiro e podem fazê-lo de forma regular, pois possuem CPF e carteira de trabalho desde o momento de registro no país.

Os seminários se iniciaram em junho, na cidade de Boa Vista, e já estão acontecendo em outras regiões do país. Na semana passada, uma nova rodada de encontros aconteceu em São José dos Campos (SP) e em São Paulo. Durante os eventos, a Diretora de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), Grácia Fragalá, afirmou que o Brasil tem uma tradição de acolher pessoas de outras nacionalidades e isso fortalece a economia, tornando o mercado interno mais dinâmico.

Encontro com empresários e entes públicos realizado na FIESP, em São Paulo, apresenta dados e casos de sucesso sobre a contratação de pessoas refugiadas e migrantes no Brasil. Foto: ACNUR/MiguelPachioni

 

A diretora da Projeto RH, Eliane Figueiredo, listou alguns dos aspectos positivos para as empresas ao contratar refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes: apresentam bom nível de escolaridade, têm experiência e falam idiomas, valorizam e se dedicam ao trabalho, têm ampla capacidade de adaptação e oxigenam o ambiente de trabalho e da economia em geral com novos pensamentos e culturas.

Os seminários também mobilizaram a comunidade empresarial de Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS) na última semana.

“A lei trabalhista vigente para brasileiros é exatamente a mesma para refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes, inclusive assegurando os mesmos direitos e deveres, sem qualquer distinção”, afirmou o Auditor-Fiscal do Trabalho, Luiz Alberto Matos dos Santos, que tem participado dos seminários.

“O mais importante em um momento como esse é assegurar a diginidade dessas pessoas, e isso se faz por meio do acesso ao mercado de trabalho”, disse a subchefe de articulação e monitoramento da Casa Civil, Natália Marcassa de Souza.

Nos seminários em São Paulo, o analista técnico de Políticas Sociais do Ministério de Trabalho, Felipe Pateo, desmistificou a opinião de que as pessoas refugiadas tiram emprego dos nacionais. “Estatisticamente não há competição, pois a quantidade de refugiados e solicitantes de refúgio no país representa uma parcela muito pequena da população no Brasil. Trata-se, sim, de um tema humanitário em que devemos acolher, até porque os resultados gerados são muito positivos. Os refugiados e migrantes tendem a ser profissionais mais qualificados, com menor índice de rotatividade, falam outros idiomas e recriam o ambiente de trabalho, trazendo o potencial de inovação com sua atuação profissional”.

O processo de interiorização de venezuelanos que estão em Boa Vista completou sua quinta etapa na semana passada, com a transferência de 130 pessoas para Cuiabá, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro no dia 24 de julho. No total, 820 pessoas já foram transferidas da capital de Roraima para estas cidades, além de Manaus (AM), Igarassú, no interior de Pernambuco, e Conde, no interior da Paraíba. O processo é promovido pelo Governo Federal com o apoio do ACNUR, da Agência da ONU para as Migrações (OIM), do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do PNUD.

 

* Por razões de proteção, o sobrenome das pessoas venezuelanas entrevistas foram mantidos sob sigilo.