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Após deixar Mianmar, o povo rohingya precisa urgentemente de abrigo

Estima-se que 123 mil refugiados tenham chegado em Bangladesh desde a erupção da onda de violência no norte do estado de Rakhine no mês passado. Doações para ajudar os rohingyas podem ser feitas aqui

CAMPO DE KUTUPALONG, Bangladesh, 05 de setembro de 2017 – De pés descalços e correndo para salvar sua vida, a rohingya Dilara, de 20 anos, conseguiu chegar à Bangladesh recentemente com seu filho mais novo no colo. Sua família foi devastada devido ao conflito em Mianmar.

“Meu marido foi baleado na aldeia. Escapei com meu filho e meus parentes” diz Dilara, enquanto caminhava, com os pés cheios de lama, para o campo de refugiados de Kutupalong, na sexta-feira (1). “Nós caminhamos por três dias, nos escondendo quando era preciso. A montanha estava molhada e escorregadia, eu caía o tempo todo”.

Cerca de 123 mil mulheres, crianças e homens como Dilara e seu filho chegaram em Bangladesh após dias caminhando, forçados a fugir da violência em Rakhine, ao norte de Mianmar. Muitos estão famintos, em condições físicas precárias e precisam de ajuda para salvar suas vidas.

Nos últimos dias, um grande grupo de rohingyas cruzou as áreas de Ukhiya e Teknaf, no sudeste de Bangladesh, regiões fronteiriças de Mianmar. Muitos foram vistos percorrendo

vastos campos de arroz e se dirigindo às aldeias mais próximas, carregando o que puderam salvar de suas casas.

Dilara perdeu de vista seus parentes durante a travessia e seguiu outros viajantes em direção ao campo. “Não sei onde estou... apenas sabia que teria que correr para salvar a minha vida”, disse ela, carregando sua criança de 18 meses e nada mais.

Sem ter qualquer lugar para onde ir, muitos dos recém-chegados em Bangladesh estão sendo direcionados aos campos de refugiados construídos na década de 1990.

Os recém-chegados estão espalhados em diversos pontos na região sudeste de Bangladesh. A estimativa é de que mais de 30.000 rohingyas tenham procurado abrigo nos campos de refugiado de Kutupalong e Nayapara, e estão sendo instalados em edifícios comuns, como escolas e centros comunitários. Entretanto, muitos outros estão vivendo em acomodações improvisadas e vilas locais.

“Isso é uma verdadeira crise”, diz Mohammad Abul Kalam, Comissário de Repatriação e Assistência para Refugiados em Cox’s Bazar, Bangladesh. "O número de pessoas mais do que duplicou nos campos. O acampamento de Kutupalong está além de sua capacidade. Famílias inteiras chegaram, cada espaço disponível está ocupado. Não tenho certeza de quanto tempo podemos aguentar isso".

As novas pessoas que chegam encontram dificuldade para encontrar espaço no superlotado campo de refugiados de Kutupalong. © UNHCR/Vivian Tan.

Não se sabe quantas pessoas ainda estão presas na fronteira. No dia 04 de setembro, o ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, distribuiu algumas roupas, lonas de plástico e outros itens de assistência por meio de uma ONG parceira. Contudo, mesmo essas instalações estão atingindo o seu limite.

“Essas pessoas estão famintas, com sede e doentes após sua terrível experiência. Eles merecem pelo menos um teto sobre suas cabeças”, diz Shubhash Wostey, Chefe do ACNUR em Cox’s Bazar. “À medida que milhares de pessoas chegam todos os dias, precisamos de abrigos de emergência e mais terrenos para construir espaços de acolhimento”.

Outras necessidades urgentes incluem alimentos – alguns não se alimentam há dias, sobrevivendo apenas com a água da chuva e águas subterrâneas durante a viagem – e tratamento médico.

Agências como o Programa Mundial de Alimentos e Ação Contra a Fome, doaram biscoitos de alto valor energético e refeições quentes para os recém-chegados. Refugiados voluntários arrumaram cozinhas comunitárias para atender às crescentes necessidades.

Khaleda, 26 anos, é uma refugiada voluntária. Ela administra uma cozinha comunitária fora de sua cabana no campo de Kutupalong, servindo arroz, lentilhas, batatas e, às vezes, peixe para cerca de quatrocentos recém-chegados todos os dias.

“Eles chegaram sem nada”, diz o professor de inglês que nasceu no refúgio. “Eles precisam de tudo. Quero ajudá-los e estou fazendo o meu máximo”.

O ACNUR está trabalhando ao lado das autoridades locais e dos voluntários refugiados para identificar os recém-chegados vulneráveis, como crianças desacompanhadas – incluindo aqueles que precisam de atenção médica, encaminhando-os para os serviços de saúde dentro do campo.

Os casos mais graves são levados para os hospitais locais. Antes do atual grande fluxo de pessoas chegando à Bangladesh, o país já acolhia quase 34 mil refugiados rohingyas, registrados em campos de Kutupalong e Nayapara, bem como numerosas centenas de milhares de rohingyas não-registrados que viviam em lugares improvisados e nas aldeias locais.

O ACNUR continua defendendo que os recém-chegados e os rohingyas sem documentação que chegam em Bangladesh devam ser registrados, visando direcionar a assistência para aqueles que mais precisam. Você também pode ajudar, doações podem ser feitas aqui.