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Criadores de escargot dinamizam projeto de geração de renda para refugiados

Papa Tokpa Sadia, 45 anos, é todo sorrisos ao pegar um escargot e explicar como extraí-lo de sua concha para preparar uma refeição.

Campo de refugiados de Saclepea, Libéria, 14 de maio de 2012 (ACNUR) – Papa Tokpa Sadia, 45 anos, é todo sorrisos ao pegar um escargot e explicar como extraí-lo de sua concha para preparar uma refeição. “Carne de caramujo é deliciosa e nutritiva”, disse o marfinense, que está aprendendo como criar e colher os saborosos moluscos.

Sadia é um dos 30 refugiados da Costa do Marfim, 20 deles mulheres, estudando para se tornar criadoras de escargot dentro de um programa de geração de renda do ACNUR lançado no ano passado no campo de refugiados Saclepea, no nordeste da Libéria. É um negócio com grande potencial comercial, de acordo com muitos especialistas.

Os estudantes estão entusiasmados com as novas técnicas que estão aprendendo e com o fato de que o produto é potencial gerador de renda – os moluscos são uma iguaria popular tanto na Libéria quanto na Costa do Marfim. Muitos dos alunos refugiados disseram que costumavam coletar este alimento nas florestas para consumo próprio e para vender.

Alguns afirmaram que comer moluscos é excelente para a saúde e que podem prevenir de diversas doenças porque são ricos em nutrientes, com bastante proteína e ferro, com baixo nível de gordura e porque contém aminoácidos.

Os refugiados estão sendo treinados, graças a fundos de apoio do ACNUR, pelo Programa de Assistência às Vítimas de Guerra, uma organização não-governamental liberiana cujo diretor executivo, Dismas Cupson, aprendeu sobre a criação de moluscos quando era refugiado em Gana. Ele disse que muitas pessoas consumiram este alimento em desespero durante as guerras civis liberianas (1989-2003), um tempo em que as trocas comerciais estavam congeladas e as pessoas comiam aquilo que podiam encontrar.

Forçado a consumir comidas estranhas, como carne de caramujo, para sobreviver, as pessoas começaram a adquirir gosto por isso. “O índice de consumo cresceu tremendamente durante e após a Guerra civil”, disse Cupson.

Os estudantes naquela que se acredita ser a única fazenda de caramujos da Libéria aprendem o básico sobre como reproduzir e criar saudavelmente essas saborosas criaturas livres, incluindo o uso de soja orgânica.

Mensor Marie costumava comer moluscos na Costa do Marfim. “Quando éramos pequenos, costumávamos ir para a floresta em busca de caramujos. Era muito divertido”, disse a estudante de meia-idade, que estava encantada por estar no curso. “O que estamos reproduzindo aqui é chamado achatina achatina," ela disse ao ACNUR.

A achatina achatina, comumente conhecida como o caramujo gigante de Gana, é nativa do Oeste da África. Algumas pessoas em países daquela região as criam como bichos de estimação por conta de seu tamanho e marcas distintivas, mas aqui eles são uma valiosa fonte de proteína, especialmente para habitantes das florestas.

Marie disse que é fácil cuidar de caramujos. “Damos coisas a eles como cascas de batata, folhas de mandioca, mamão e resíduos de óleo de palma”, ela explicou.

Cupson, por sua vez, afirmou que as autoridades da saúde liberianas e organizações de ajuda especializadas em nutrição recomendaram que as pessoas comam caramujos e isso tem ajudado a abastecer a demanda, que “atualmente ultrapassa a oferta”.

Ele disse que uma embalagem com 50 kg de caramujos selvagens é vendida por 8.000 dólares liberianos (US$125) durante as estações de chuva, mas durante a estação seca estão disponíveis apenas caramujos importados da Costa do Marfim por 14.000 dólares liberianos (US$200) a embalagem com 50 kg.

Cupson afirma que a fazenda de caramujos em Saclepea, que abriga cerca de 1.300 refugiados na Libéria há mais de um ano após uma breve guerra civil, é a única na Libéria. E, embora seja uma operação modesta, com pouco mais de 3.500 caramujos criados até a maturidade, o que leva três anos, o projeto está ajudando a preparar pessoas para se tornarem auto suficientes.

Os 30 aprendizes, quando qualificados e de volta aos lares, poderão começar seus próprios negócios. Não surpreendentemente, muitos outros refugiados, assim como membros da comunidade local, expressaram interesse no projeto.

A agência da ONU para refugiados está atualmente avaliando o impacto deste e outros projetos geradores de renda que visem beneficiar refugiados e suas comunidades hospedeiras. Uma possibilidade é a de estender o projeto para outras áreas.

Andrew Mbogori, chefe do sub-escritório do ACNUR em Saclepea, disse que o experimento de criação de caramujos certamente fez a diferença. “O projeto é único”, ele concluiu.

Por Sulaiman Momodu no campo de refugiados Saclepea, Libéria