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Em meio às ruínas, iraquianos deslocados retornam com esperança ao oeste de Mosul

Apesar do fim da batalha pelo controle da segunda maior cidade do Iraque, a reconstrução da cidade e da vida de seus habitantes está apenas começando.

MOSUL, Iraque, 16 de agosto de 2017 – A iraquiana Um Ahmed e dezesseis membros de sua família vivem amontoados nas ruínas de seu lar, um sobrado em Al-Resala, bairro no Oeste de Mosul. Apesar da destruição, ela se sente sortuda por sua casa ainda estar de pé, enquanto tantas outras foram ao chão.

Em março, no início do conflito pelo domínio da segunda maior cidade do Iraque, Um Ahmed, de 35 anos, viveu dez dias aterrorizantes confinada em no porão de sua casa com familiares e outras 40 pessoas. Úmido e abafado, o cômodo só tinha uma pequena janela para ventilação, e ficou contaminado com o cheiro de pessoas amontoadas e medo, ela lembra.

Durante uma trégua do conflito, ela se deslocou com seu marido Shehab, 42, e seus filhos para um campo de refugiados do governo em Jadaa, a 50 quilômetros da cidade. Horas depois, um míssil atingiu sua casa.

O calor e a poeira do campo foram difíceis de lidar, especialmente para Shehab, que tem problemas cardíacos e sofre de epilepsia. No dia 10 de julho, um dia após o governo iraquiano declarar o fim do conflito, a família retornou para sua casa para avaliar os danos sofridos durante os quatro meses no campo.

“Voltamos para Mosul porque foi muito difícil para meu marido ficar em uma tenda com tantos problemas de saúde”, explicou Um Ahmed. “Também tínhamos medo de perder nossa casa”.

Ao voltarem, se depararam com uma cena de completa destruição, com a frente da casa reduzida em ruínas. Após abrir caminho em meio aos destroços, encontraram seus pertences, diferente de muitos de seus vizinhos. Os escombros impediram a entrada de saqueadores. “Quando algo ruim se transforma em algo bom”, Shehab afirma, com um sorriso amarelo.

Apesar da felicidade de estar em casa, a vida continua difícil para a família, já que cada dia é uma luta na obtenção do essencial para sobreviver. Eletricidade é cara, e normalmente está disponível apenas oito horas por dia. Água potável é entregue por um caminhão e armazenada em tanques, enquanto água para limpeza é coletada em uma fonte em um barril, que é empurrado até em casa. Um Ahmed e sua irmã produzem vestidos para conseguir o suficiente para sobreviver.

Até agora, 79 mil pessoas retornaram à região oeste de uma Mosul em ruínas, de acordo com dados do governo, o equivalente a 10% do total de pessoas forçadas a se deslocar da cidade. Em contrapartida, cerca de 90% dos que saíram do leste da cidade retornaram, já que a região sofreu danos consideravelmente menores.

O ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) tem aumentado as ações de assistência às famílias iraquianas em Mosul, incluindo aquelas que retornaram recentemente. O relatório de operação da agência demonstra que a população que retorna a Mosul necessita de todos os tipos de auxílio, apesar da questão de moradia permanecer a mais urgente e grave, especialmente no oeste.

“Famílias que retornaram também encontram desafios no acesso a serviços básicos – como à água, eletricidade e combustível, que podem ser difíceis de encontrar e caros em áreas da cidade”, afirmou Andrej Mahecic, porta-voz do ACNUR.

Desde o fim das operações militares no Oeste de Mosul, o ACNUR e seus parceiros têm distribuído kits de abrigo a mais de 3.241 famílias nas áreas leste e oeste da cidade.

Mahecic afirmou que os pacotes incluem kits de isolamento térmico, o que garante que famílias como a de Um Ahmed faça pequenos reparos em construções parcialmente danificadas ou inacabadas, para que possam viver nelas. O plano é distribuir, até o final do ano, kits para até 36 mil famílias.

O ACNUR também garante diversos direitos por meio do programa de assistência financeira às famílias iraquianas mais vulneráveis, que recebem a quantia de USD 400,00 (486.000 dinares iraquianos) usando o sistema de transferência de dinheiro. Algumas das famílias mais vulneráveis recebem a quantia por até três meses, ajudando eles a pagar o aluguel e atender necessidades básicas como comida e serviços.

Enquanto a vida retorna aos poucos à velha cidade, Um Ahmed e Shehab sabem que serão muitos anos até as coisas se normalizarem. “O futuro está nas mãos de Alá, mas não deveríamos nunca perder as esperanças”, ele diz. A fadiga dos últimos anos está nos traços do seu rosto. “Não são os anos que nos envelheceram, e sim as coisas que vimos”.