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Empresas argentinas dão oportunidades para refugiados

O acesso a um trabalho digno é um dos principais meios de integração para os refugiados e os solicitantes de refúgio. Algumas empresas argentinas são um exemplo de seguir nesse sentido.

BUENOS AIRES, Argentina, 15 de maio de 2017 - O trabalho é um dos principais meios de integração e é a chave para desenvolver uma vida social nas comunidades de acolhida. Além disso, o acesso ao mercado de trabalho comporta uma série de dificuldades específicas para solicitantes de refúgio e refugiados, como por exemplo o uso do idioma estrangeiro, as consequências das experiências traumáticas vividas no país de origem, a falta de uma rede de contatos no país de acolhida, as escassas competências acadêmicas e profissionais, assim como dificuldades ligadas à documentação, entre outras.

Por esta razão, merece ser contada a história de Irina, uma refugiada ucraniana, e Rita Medina, diretora da “The Nails Bar”, empresa de estética, que apoia o programa de integração local da ADRA, uma agência social parceira do ACNUR na Argentina. Rita comenta que assistir o vídeo "Refugees Welcome" no TED, a deixou decidida a lançar uma oficina de capacitação profissional para solicitantes de refúgio e refugiados, "Por serem resilientes e por que precisam, eles irão valorizar o trabalho. Por terem se esforçado tanto para sair de onde estavam, eles têm algo no qual vale a pena apostar".

Fomentar a autossuficiência é essencial porque permite os refugiados a viverem com dignidade e criar um futuro para eles e para as suas famílias. A questão do acesso a trabalho também foi abordada na Declaração de Nova York de 2016 (assinada durante a Assembleia Geral das Nações Unidas), que incentiva os governos a considerarem a possibilidade de abrir seus mercados de trabalho aos refugiados. 

Rita Medina, diretora do “The Nails Bar” fala sobre a sua experiência: “isso te enriquece, você acaba percebendo que você tem um grande impacto e isso é bom. Todos saem ganhando”. © ACNUR/ A.Kim

O trabalho adequado não só garante um começo digno, como também facilita o estabelecimento de vínculos sociais, oferece a oportunidade de repensar o futuro e começar a formar parte da comunidade. Em síntese, traz liberdade, segurança, dignidade e esperança. "Ao longo da minha trajetória no ACNUR, ouvi muito mais solicitantes de refúgio e refugiados pedirem um emprego do que pedirem dinheiro. E vi que aqueles que conseguiram um emprego digno e decente se sentem mais integrados e agradecidos pela nova oportunidade que lhes foi dada", afirma Raquel Caracciolo, Oficial de Programa do Escritório Regional do ACNUR para o Sul da América Latina.

Foi então que Irina começou com as aulas na sede da empresa, localizada em Puerto Madero, bairro residencial de Buenos Aires, sem saber que depois abriria uma vaga de manicure, para a qual seria selecionada. "Quando está em outro país, não fala o idioma, é muito difícil. Se surge uma oportunidade para ganhar algo na situação na qual estamos, devemos aproveitá-la. Não é uma questão de pensar se o trabalho te agrada ou não, é uma questão de ter uma oportunidade. Estou muito agradecida por ter este trabalho. Devemos lembrar-nos que há muitas pessoas que querem ajudar ", sustenta Irina, que saiu do seu país e esteve na Bulgária e na Sérvia antes de chegar à Argentina.

Alejandro Torralva, Gerente General da TEC-METAL, menciona que “ouvi a palavra refugiado na televisão alguma vez, mas não tinha a menor ideia de nada. Hoje tenho a possibilidade de decidir se posso ajudar ou não”, e o fez. © ACNUR/ A.Kim

Em Boulogne, Buenos Aires, Alejandro Torralva é Gerente Geral da TEC-METAL, uma empresa familiar dedicada à produção de peças para a indústria automotriz, agropecuária e de petróleo, que foi criada há 56 anos pelo pai e que hoje é gerenciada por Alejandro e os quatro irmãos. O Centro de Apoio ao Refugiado da ADRA auxilia e dá orientação social e de integração local aos solicitantes de refúgio e refugiados. A partir de conversas com o Centro, TEC-METAL abriu as portas para Mario, solicitante de refúgio colombiano. O trabalho dá tranquilidade a Mario: "É como se um peso fosse tirado das minhas costas. Já tenho um trabalho, já posso comer, já posso dormir. Estou muito feliz porque agora sou independente, que é o que buscava”. E repete, "o trabalho é a origem de tudo". 

Mario na sua rotina diária. “O ambiente é muito agradável, me sinto muito contente aqui”. © ACNUR/ A.Kim

Nas palavras da Oficial de Programa do ACNUR, "em ambos casos, houve interesse abertamente manifestado pelas empresas, o que facilitou a tarefa do ACNUR de fazer o contato entre a oferta e a demanda. Os atores dos dois lados foram percorrendo o caminho necessário para moldar a ideia de ajudar os solicitantes de refúgio e os refugiados em ações concretas. As empresas se abriram para algo novo e ofereceram trabalho. As pessoas que se beneficiaram se empenharam para aprender a fazer o trabalho e mantê-lo. Ambos casos refletem muito bem que querer é poder ".

Irina e Mário foram forçados a sair de seus países em busca de proteção e de um lugar seguro para viver, obrigados a reconstruir suas vidas longe de seus lares. Suas histórias felizmente cruzaram com as de Rita e Alejandro. São experiências que acabam sendo lições para a vida, tanto pelo comprometimento das empresas, como pelo esforço por parte dos solicitantes de refúgio e dos refugiados por recomeçar e seguir em frente. “Agora que tenho isso aqui, devo aproveitá-lo. É como uma oportunidade que a vida está me dando”, diz Mario.