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Escola em região conflituosa na Colômbia incentiva que jovens se tornem líderes

A escola de liderança juvenil apoiada pelo ACNUR busca construir um futuro seguro no departamento de Chocó, uma região remota marcada por décadas de conflito.

RIOSUCIO, Colômbia, 10 de abril de 2017 – Yurany Bañol lembra vividamente das batalhas que arrasaram a casa de sua família em Chocó, na Colômbia.

“Estávamos no meio, com o exército em um lado e as pessoas que haviam tomado os terrenos do outro”, disse Bañol, lembrando dos disparos entre forças militares e oportunistas que tomaram o controle das granjas deixadas por pessoas que fugiam da violência. “Quem sabe quantos mortos estão enterrados ao longo desse caminho”.

A história de Bañol, de 24 anos, não é um fato isolado na região, localizada ao longo do Rio Atrato. Os residentes sofreram por gerações enquanto paramilitares, guerrilhas e forças do governo lutavam pelo controle. Os assassinatos seletivos dos que iam contra os grupos armados eram comuns, assim como os deslocamentos massivos, os recrutamentos forçados e os abusos sexuais, traumatizando uma geração por vez.

Assim como diversos outros jovens da região, perto da isolada e difícil fronteira da Colômbia com o Panamá, Bañol queria algo diferente para o seu futuro.

“Uma vez que você vive essa experiência, você não quer que mais ninguém passe por isso”, disse Bañol. Sua família continua lutando nos tribunais para reestabelecer os direitos sobre a terra, permitindo voltar para casa.

Ela e outros 139 moradores jovens da área têm encontrado apoio para essa vontade de mudança por meio de um programa inédito apoiado pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados – a Escola Interétnica de Liderança Juvenil.

A escola, que tem quatro anos de existência, acolhe estudantes afro-colombianos, mestiços e indígenas entre 14 e 29 anos, e reúne periodicamente jovens e cerca de 60 líderes comunitários da região para classes e discussões de como criar um futuro melhor.

Muitos estudantes, inclusive os que vivem no centro local Riosucio, têm oportunidades limitadas para passar do ensino secundário.  A maioria trabalha com a família na agricultura ou na pesca, mas o programa ensina habilidades para a elaboração de políticas, junto com ferramentas de oratória e liderança. Esse ano um grupo de 20 estudantes apresentará propostas de políticas aos conselhos municipais locais sobre vários temas, desde saúde e educação até programas esportivos e de segurança.

“Antes havia um número muito maior de jovens que se uniam a grupos armados, e isso vem diminuindo muito porque agora entendem que há uma maneira diferente de enfrentar as necessidades, os problemas e a falta de oportunidades”, disse Yaneth Velasco, Assistente de Proteção Comunitária do ACNUR para a região, que é quem dirige as reuniões da escola.

O projeto é particularmente relevante em Chocó, uma remota província que vem sendo duramente atacada por mais de cinco décadas de guerra civil. O conflito tirou mais de 7,3 milhões de pessoas de dentro das fronteiras de Colômbia e levou mais de 340.000 refugiados a buscar segurança no exterior.

Pode parecer otimista acreditar que uma escola de liderança pode ajudar os jovens a resolver os inúmeros problemas em Chocó. Mas Velasco disse que os “últimos quatro anos mostraram que é possível, e que estamos sendo ambiciosos mas devemos continuar apostando neste processo”. 

Os estudantes precisam de autoconfiança e conhecimento legal para navegar pelo futuro incerto da região. Por meio de um acordo de paz com o governo no ano passado, o grupo rebelde das Forças Armadas Revolucionárias da Colombia (FARC) se retirou da área. Muitos residentes de Chocó apoiaram as conversas de paz e votaram para apoiar o acordo de paz entre as FARC e o governo. No entanto, muitos temem que o vazio de poder deixado pelos rebeldes seja tomado pelas impiedosas gangues criminosas.

Yurany Bañol, de 24 anos, assiste à Escola Interétnica de Liderança Juvenil na região colombiana de Chocó. Sua família foi deslocada várias vezes quando estava crescendo. ©ACNUR/Julia Symmes Cobb

Por causa da falta de presença governamental em grande escala, os grupos armados ilegais, muitos dos quais são antigos paramilitares de direita, já têm começado a se aventurar em territórios anteriormente controlado pelas FARC. Esses grupos levaram mais de 2.200 pessoas a se deslocar de suas casas em Chocó nos primeiros três meses do ano, e têm relatos de mais violência.

“É uma situação que já prevíamos”, disse Velasco. “É muito preocupante e cria muitos riscos para a população”. Porém, muitas comunidades estão querendo organizar uma reunião escolar, acrescenta, porque a presença do ACNUR lhes oferece uma medida de proteção.

Além do objetivo de formar futuros líderes, a escola já está ajudando a aproximar a comunidade composta por diversas etnias, dando aos estudantes a oportunidade de se reunir e formar amizades com outros jovens de sua região que não teriam a oportunidade de se conhecer de outra forma. Enquanto tribos indígenas como Wounaan e Embera vivem perto das populações afro colombianas e sofrem muita violência nas mãos dos mesmos autores, houve pouco contato entre os grupos étnicos.

“Antes da escola interétnica, os indígenas e agro colombianos não se entendiam”, disse Yair Moña, de 19 anos, membro da comunidade de Wounaan.

Sendo o mais velho de dez irmãos, a curta vida de Moña foi marcada pelo deslocamento, algo do qual ele gostaria de proteger as futuras gerações Wounaan.

“Quero ser o líder da minha comunidade e lutar mais para defender a nossa terra”, disse depois da reunião mais recente da escola em Riosucio, enquanto seus companheiros de turma se apressavam para montar embarcações e motos que os levariam de volta a suas comunidades.

O parceiro do ACNUR na escola, o programa Pastoral Social da Igreja Católica, foi fundamental para garantir que os esforços não encontrariam barreiras étnicas

“É o dever da igreja, que ainda tem credibilidade com todos os grupos e é vista como imparcial, de promover esse serviço”, disse o padre Leonidas Moreno, um sacerdote que trabalha na região há 37 anos. “Não se trata de evangelizar, o que queremos é um espírito de união”.

“Não tem sido fácil para os alunos sentir que agora podem falar sem medo”, disse Moreno. “Antes, isso não era possível, quem falava, morria”.

A escola também oferece aos funcionários governamentais um olhar sobre o compromisso bem-sucedido dos jovens nas complicadas circunstancias.

“É uma ideia inovadora, principalmente porque chega à essas áreas de difícil acesso”, disse Diego Fernando Mata, funcionário do Colômbia Jovem, o departamento de assuntos juvenis do governo. Mata chegou a Riosucio para assessorar os estudantes sobre suas propostas políticas.

“Nossa esperança é ter uma política pública para os jovens de Riosucio até o final do ano, construída com os jovens, com o Estado e outros atores, algo que ajudará a gerar oportunidades de emprego, educação, cultura, esporte, saúde”. Incentivou os estudantes a propor mudanças que tragam um impacto significativo nas comunidades, como reduzir os casos de gravidez entre adolescentes e aumentar o número de vagas nas escolas secundárias.

Os estudantes têm muitas ambições – desde tornar-se líderes comunitários e trabalhadores sociais, até advogados e jornalistas. A comunidade de Bañol já pediu que ela se candidatasse para uma posição no Conselho Municipal, mas ela recusou, preferindo fazer mudanças fora dos círculos políticos notoriamente corruptos.

“Tudo o que eu puder fazer pela minha comunidade eu farei, mas fora do ramo político”, disse Bañol, que como muitos dos estudantes maiores já é mãe de uma menina de cinco anos. “Não quero que ela cresça no mesmo ambiente que eu”.