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Jovem congolesa canta e encanta no The Voice Brasil

Isabel Antônio é uma das talentosas pessoas em situação de refúgio no Brasil. Nascida na República Democrática do Congo, ela descobriu o potencial de sua voz aqui no país e segue confiante para as etapas finais do programa.

BRASÍLIA, 20 de novembro de 2017 (ACNUR) – Forçada a deixar a República Democrática do Congo (RDC) com sua família em 2015 devido à guerra, Isabel Antonio nunca imaginou que seria a primeira solicitante de refúgio no país a fazer parte de um dos maiores shows de talentos musicais do mundo. Atualmente, ela disputa as etapas finais do The Voice Brasil com o apoio de seu técnico Carlinhos Brown.

Quem acompanha o programa, exibido pela Rede Globo, reconhece o potencial de Isabel. Com sua voz doce, ela encantou e conectou a todos com sua história. Na última apresentação, Isabel mais uma vez marcou presença ao cantar “Heal the World”, de Michael Jackson. Segundo ela, essa música representa paz, uma mensagem de um mundo melhor, uma possibilidade de pôr fim aos conflitos, preconceitos e males do planeta. 

Em 2015, Isabel, ao lado de sua irmã mais nova, foi forçada a abandonar seu país de origem, a RDC, por causa da violência, perdendo-se de seus pais na trajetória. Com a ajuda de missionárias que estavam no país, ela e sua irmã chegaram a São Paulo. Os pais foram localizados e finalmente a família esteve completa novamente.

Devido aos conflitos que a RDC enfrenta, Isabel diz querer voltar ao seu país apenas como turista. De acordo com o mais recente relatório do ACNUR, Global Trends 2016, já são mais de 495 mil refugiados congoleses que se concentram apenas na região, em países como Uganda, Ruanda, Tanzânia, Burundi e Quênia,

Foi no Brasil que o potencial e talento musical floresceram. No abrigo em que vivia em São Paulo, Isabel costumava conversar com suas amigas sobre cantores quando então conheceu o coral "Somos Iguais". O coral, apoiado pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, foi idealizado por Daniela Guimarães e é coordenado por ela e pelo diretor musical Ney Marques com o apadrinhamento do maestro João Carlos Martins.

A participação de Isabel no coral foi essencial para que ela fosse aceita no The Voice Brasil. O projeto ficou conhecido em 2016 quando as crianças se apresentaram para o Especial de Natal do Programa Fantástico, também da Rede Globo. Depois disso, cinco crianças foram selecionadas para realizar um teste para o The Voice Brasil e, ao final, Isabel foi a única selecionada. 

Crianças do Coral Somos Iguais, sob direção de Daniela Guimarães (à esquerda) e que conta com a orientação do maestro João Carlos Martins. © Vanessa Spindola.

Com apenas 16 anos, Isabel descobriu que sua voz pode ser uma forma de conscientizar as pessoas sobre a causa do refúgio, demonstrando que refugiados também têm sonhos, necessidades e habilidades como qualquer pessoa. Para ela, a experiência proporcionada pelo coral foi fundamental para atingir o objetivo de avançar no programa e também de se integrar no Brasil.

Cantar para milhões de pessoas é um aprendizado, um momento especial para Isabel mostrar às pessoas refugiadas que caminhos promissores são possíveis, que a possibilidade de concretizar seus sonhos não acabou. Ora com Coral, ora com o The Voice Brasil, Isabel tem chances de ter um futuro melhor. “Com a música, quero transmitir uma mensagem boa, que toque nos corações das pessoas. Quero que vejam que pessoas refugiadas possuem necessidades, como estudar, mas que nem sempre temos oportunidades. Devemos dividir o que temos”, diz Isabel.

Isabel já teve a oportunidade de conhecer um pouco do Brasil e de sua cultura. Já esteve em Brasília, Campinas e Rio de Janeiro com o coral. Ela adora a música baiana e diz que as letras e as batidas a fazem lembrar dos ritmos do Congo. ela adora as músicas da Ivete Sangalo e de Carlinhos Brown, seu técnico no programa. "Ela cantou de primeira e eu fiquei todo arrepiado! Foi isso que me fez virar!", revela Brown.

No começo, sua adaptação à uma nova cultura foi difícil. Isabel enfrentou preconceito e, já como parte do coral, conheceu pessoas que a apoiaram e a fizeram se sentir parte da comunidade. “Nada é por acaso, devido a algumas situações de nossas vidas, nos colocamos no lugar dos outros, vendo que somos iguais e que precisamos de amor, união e respeito para superação”, diz Isabel.

Para Daniela Guimarães, a participação da Isabel no The Voice Brasil é, sobretudo, uma porta que se abre a todas as crianças refugiadas do mundo. “Como idealizadora do Coral, estou muito emocionada com a oportunidade que a Isabel teve. Independentemente do resultado, acho que ela está representando as vozes das crianças do Coral, que de alguma forma busca representar em suas mensagens todas as crianças refugiadas que estão espalhadas pelo mundo”, diz Daniela.

O Coral Somos Iguais é composto por crianças da Angola, da República Democrática do Congo e da Síria. Entre os ensaios de músicas eruditas e clássicas, essas vozes representam vidas e sonhos de milhões de refugiados no mundo. Todos os sábados, cerca de 25 crianças se juntam a Daniela para ensaiarem.

As dificuldades que Isabel encontrou como jovem em condição de refúgio não a impediram de continuar a estudar e de viver. E é no mundo da música que Isabel quer se desenvolver e construir sua carreira profissional enquanto cantora.

“Eu diria que, a partir das músicas que canto, as pessoas possam perceber, ver que somos todos iguais, que temos que dar amor às pessoas que estão na guerra, temos que ajudar. A proposta do Coral é essa união, respeito com todas as pessoas de qualquer região que seja; é fazer a diferença”, diz Isabel.

O ACNUR e seus parceiros seguem torcendo para que a Isabel e outras pessoas refugiadas no Brasil e no mundo tenham a oportunidade de realizar seus sonhos por meio de seus próprios méritos e conhecimentos.

Por Gabriel Dauer, de Brasília.