Tamanho do texto A A A

Pessoas de lugar nenhum: exposição fotográfica no Reino Unido dá visibilidade a apátridas

Fotos de Greg Constantine, exibidas pelo ACNUR na Saatchi Gallery em Londres, demonstram como pessoas apátridas podem se tornar marginalizadas e fragilizadas.

REINO UNIDO, 04 de dezembro de 2017 – Para as pessoas apátridas, que somam cerca de 10 milhões em todo o mundo, a existência quotidiana pode significar medo, discriminação e exclusão.

Nacionalidade é um direito humano universal. Entretanto, as pessoas apátridas são privadas desse direito como consequência de circunstâncias que estão, muito frequentemente, além de seu controle, como por exemplo quando ou onde nascem, ou mesmo seu gênero.

Para dar destaque à situação daqueles que vivem em um limbo devido à condição de apatridia no Reino Unido, o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), está patrocinando uma exibição fotografias tiradas pelo fotógrafo documental Greg Constantine. A exposição inédita Nowhere People of UK (pessoas de lugar nenhum no Reino Unido, tradução livre) acontecerá na Saatchi Gallery de Londres de 27 de novembro a 30 de dezembro.

 Constantine vem dedicando a maior parte de sua carreira registrando pessoas apátridas ao redor do mundo, dos rohingya em Mianmar até os Bidoon no Kuwait. Em seu último projeto, Constantine direcionou suas lentes ao Reino Unido, registrando a vida de estrangeiros que, devido à falta de nacionalidade, estão presos em ciclos de depressão e privações que os deixam ás margens da sociedade.

No Reino Unido, assim como em muitos outros países, os apátridas vivem nas sombras. Não é claro quantas pessoas se enquadram nessa categoria. Enquanto muitos apátridas podem ter conseguido regularizar suas situações por meio do processo de refúgio, apenas 64 deles foram efetivamente reconhecidos como apátridas por meio de um procedimento específico do governo sobre apatridia, que foi estabelecido em 2013. Esse baixo número evidencia que mais precisa ser feito para identificar e proteger os apátridas que vivem no Reino Unido.

O Reino Unido é signatário de duas importantes convenções sobre apatridia e é um dos poucos países a introduzir mecanismos para o reconhecimento de apátridas. Entretanto, como tão poucas pessoas são reconhecidas como apátridas, suas vidas continuam permeadas por restrições. Eles não podem trabalhar ou ter acesso à educação, e vivem com medo de serem detidos ou deportados.

As fotos de Constantine oferecem oportunidades raras de visualizar a reclusa vida dessas pessoas. As fotografias em preto e branco revelam, com intensidade, vidas precárias que se escondem sob as sombras.   

Este homem foi forçado a fugir da instabilidade política no Zimbábue há dez anos. A embaixada do Zimbábue se recusa a reconhecê-lo, e todos os seus pedidos de refúgio foram rejeitados. Ele está preso no Reino Unido. © ACNUR / Greg Constantine.

Uma das pessoas fotografadas é Peter, que foi forçado a fugir do Zimbábue há 10 anos devido à instabilidade política. Ao chegar no Reino Unido, a solicitação de refúgio de Peter foi rejeitada e ele passou cerca de 20 meses em um centro de detenção para migrantes, já que a embaixada do Zimbabwe se recusou a reconhece-lo como cidadão.

“Aqueles que não têm cidadania vivem em um limbo, pois ninguém acredita neles”, ele diz. “As autoridades não querem acreditar neles porque dizem ‘como você pode afirmar que é alguém que não tem provas de onde vem?’. Você simplesmente não tem a quem recorrer”, ele acrescentou.

A exibição Nowhere People of UK é lançada em um momento em que a atenção do mundo se voltou recentemente às minorias apátridas.

O progresso no enfrentamento à apatridia é diferente em algumas partes do mundo. As ações necessárias para resolver as extensas e prolongadas situações de apatridia tem sido insuficientes, e o aumento do deslocamento forçado tem trazido novos riscos de apatridia. Desde agosto deste ano, por exemplo, os rohingya foram forçados a fugir de atos de violência e perseguição em Mianmar: Mais de 600 mil pessoas estão atualmente vivendo em Bangladesh.

Mais de 75% dos apátridas do mundo pertencem a grupos minoritários como os rohingya, os romanis na Europa, e os pemba no Quênia. Um recente relatório do ACNUR evidenciou como a discriminação, falta de documentação, pobreza e medo definem as vidas de minorias apátridas em todo o mundo.

Esta mulher de 27 anos é curda e nasceu na Síria. Quando sua família chegou no Reino Unido, suas solicitações de refúgio foram rejeitadas. A família foi detida e ameaçada de deportação. Depois que uma campanha pública foi lançada, eles finalmente receberam permissão para ficar no Reino Unido. © ACNUR / Greg Constantine.

Ao mesmo tempo, o Alto Comissário para Refugiados, Filippo Grandi, recentemente percebeu progressos no enfrentamento à apatridia em todo o mundo. “Mais de 60 mil pessoas conseguiram uma nacionalidade ou confirmaram a sua em 2016”, disse Grandi, “Reformas políticas foram aprovadas no Brasil, Equador, Quênia, Madagascar e Tailândia”.

O ACNUR tem feito campanha para dar mais visibilidade às pessoas apátridas por meio da campanha #IBelong, que tem o objetivo de erradicar a apatridia até 2024, e encoraja governantes a resolver atuais situações graves de apatridia e a garantir que nenhuma criança nasça apátrida.

O Representante do ACNUR no Reino Unido, Gonzalo Vargas, disse: O Reino Unido foi um dos primeiros países a estabelecer um procedimento para identificar pessoas apátridas. Essa é uma importante conquista. Entretanto, é evidente que mais precisa ser feito no Reino Unido e outros lugares para garantir que pessoas apátridas recebam a proteção que tanto necessitam”.

Outra pessoa fotografada por Constantine para a exibição é Maya, 27 anos, uma das milhares de crianças curdas na Síria que não teve seu nascimento registrado pelas autoridades. A família dela foi detida no Reino Unido depois que sua solicitação de refúgio foi recusada, mas Maya conseguiu nacionalidade britânica. “Ser apátrida não é uma escolha”, disse Maya. “Você nasce assim... é algo que alguém maior, um governo, uma autoridade te priva... eu definitivamente me sentia invisível”.