Pressão por terra e água aumenta com chegada de mais refugiados ao Sudão do Sul

segunda 04. junho 2012 10:00 Tempo: 2 yrs

© ACNUR/P.Rulashe
Dungaz Tatalla e sua família andaram por cerca de um mês, comendo folhas para sobreviver durante a jornada. Eles estão em Rum, um centro de trânsito no leste do Sudão do Sul.

MABAN, Sudão do Sul, 4 de junho de 2012 (ACNUR) – O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, António Guterres, alertou hoje para o agravamento da situação humanitária em Alto Nilo, no Sudão do Sul, onde o ACNUR – a agência da ONU para refugiados – está lidando com um aumento substancial de pessoas vindas do Nilo Azul, no vizinho Sudão.

Nas últimas três semanas, cerca de 35 mil pessoas chegaram em Alto Nilo, somando-se à população refugiada já existente de aproximadamente 70 mil. Os influxos continuam.

“É uma mudança dramática que pressiona um cenário humanitário que já estava difícil”, disse Guterres. “Não só houve um aumento brusco do número de refugiados de uma hora para outra como a maioria das pessoas chega em péssimas condições. Algumas delas comeram apenas três folhas para sobreviver ao longo do caminho”.

“Apesar da chuva, esta área não tem água potável suficiente. Isto, aliado à insegurança, torna mais urgente transferir os refugiados para locais seguros”, completou.

O ACNUR e seus parceiros no leste do Sudão do Sul correm para mover milhares de sudaneses da fronteira para locais adequados que tenham oferta de água.

Líderes comunitários disseram ao ACNUR que existe muita escassez de alimentos e aproximadamente 20 mil refugiados fugindo do conflito no estado Nilo Azul, no Sudão. Eles se reuniram na região fronteiriça de Elfoj no estado do Alto Nilo, no Sudão do Sul. Outros 40 mil podem estar a caminho.

Dungaz Tatalla, 56, e sua família andaram por 27 dias fugindo da vila Gabanid, no Nilo Azul. A mãe dele, de 73 anos, ficou com inchaço nos pés e não faz uma refeição adequada há dias.

"Saímos de Gabanid por causa do bombardeio”, disse Tatalla, puxando um animal de carga usado para transportar sua mãe idosa e exausta. “Nossas casas foram incediadas. Pessoas estavam sendo assassinadas. Não tínhamos mais porque ficar, toda a vila estava fugindo”.

O conflito entre as Forças Armadas Sudanesas e o Movimento Popular para a Libertação do Sudão-Norte no Nilo Azul impede que as pessoas plantem e tenham acesso a alimentos.

"Estamos comendo frutos do lalob (um tipo de árvore) e cozinhando suas folhas. Alimentar-se disso com o estômago vazio não faz bem, mas não temos escolha”, disse Tatalla. O lalob dá uma fruta amarga, que a população local diz que pode usar no tratamento de doenças como malária e febre tifóide. “Fugimos por causa dos bombardeios, mas nosso problema agora é a fome. Precisamos comer”.

Muitos recém-chegados foram levados bastante debilitados a hospitais. O ACNUR também se apressa em tirar os refugiados das fronteiras antes que as chuvas sazonais tornem as estradas intrasitáveis.

"Precisamos de mais caminhões e ônibus para tirar os recém-chegados da fronteira o mais rápido possível. Precisamos garantir que eles recebam assistência básica, como água, alimentos e encaminhamentos de saúde, assim que chegarem a locais mais seguros”, disse Fred Cussigh, chefe do escritório de campo do ACNUR em Maban, no estado do Alto Nilo.

Muitos dos recém-chegados foram realocados em um centro de trânsito chamado Rum, a 30 quilômetros de Elfoj, onde o ACNUR e o Programa Mundial de Alimentos já distribuem porções emergenciais de comida (que duram por 10 dias) para 20.000 refugiados.

A água é transportada de acordo com a demanda do sistema de tratamento de água da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF). A MSF mantém diariamente uma clínica móvel em Rum para um primeiro atendimento. Os refugiados que necessitam de cuidados médicos são transportados para a clínica no campo de Jamam.

Desde 19 de maio, alguns milhares de refugiados foram transferidos para o novo campo Yusuf Batil, instalado pelo ACNUR. Cerca de 1000 são realocados por vez, três vezes por semana, de acordo com a capacidade de abrigo e fornecimento de água no campo. As primeiras chuvas estão deixando as estradas lamacentas, dificultando a mobilidade de pessoas. Alguns grupos estão deixando sozinhos as fronteiras para se juntar às pessoas de suas comunidades que já estão nos campos de Doro e Jamam.

O atual fluxo de refugiados está pressionando os escassos recursos na remota área do Sudão do Sul. Mais de 37.000 refugiados já vivem lá, “Doro não tem mais espaço, qualquer tentativa de aumentar a população de refugiados pode levar a problemas de saúde, higiene e relações entre culturas no campo”, disse Cussigh do ACNUR.

Apesas dos esforços para encontrar água, o campo de Jamam ainda sofre com escassez. O ACNUR está levando 15.000 refugiados de Jamam para Doro e Yusuf Batil para tentar diminuir a lotação e a pressão sob os recursos em Jamam.

Entre os refugiados movidos para Yusuf Batil estava Som Komdan, de 80 anos, que quase morreu de disenteria durante a fuga depois de beber água contaminada. Ele tem os tornozelos inchados por causa da longa caminhada. "Sou grato ao ACNUR e a meu filho que me forçoua continuar a viagem”, disse com um sorriso desdentado, rodeado por três sacos onde guarda seus pertences.

Como todos os recém-chegados, ele recebeu comida e suprimentos, como baldes de plásticos, cantil e colchão. Ele pede mais, "agora que tenho onde dormir em paz, quem sabe o ACNUR me dê dentes para que eu possa me alimentar nesta idade?”

Mais de 138 mil sudaneses do Nilo Azul e Kordo do Sul refugiaram-se no Sudão do Sul desde junho do ano passado.

Por Pumla Rulashe em Maban, Sudão do Sul

Por: ACNUR


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