Colômbia: Ex criança-soldado supera o passado para construir nova vida

quinta 26. abril 2012 18:00 Tempo: 3 yrs

© ACNUR/ F.Fontanini
Crianças correm felizes em uma vila na Colômbia. Relatório recente estima que cerca de 14.000 crianças estão envolvidas no conflito armado interno na Colômbia.

BOGÓTA, Colômbia, 26 de abril de 2012 (ACNUR) – Elisa* nasceu e cresceu em um ambiente violento, rodeada por grupos armado ilegais. Fazia parte de sua vida ver pessoas com armas ou em situações de ameaça constante. Aos 13 anos, essa violência atingiu diretamente Elisa quando seu pai foi assassinado.

Logo após o episódio, Elisa decidiu se juntar a um grupo armado irregular. Até então, a jovem vinha resistindo sistematicamente às investidas destes grupos, mas a dor e a raiva que sentiu ao perder o pai a levaram a tomar uma atitude extrema. “Não pensei no fato de abandonar minha mãe e meu irmão. Apenas parti, achando que teria um futuro melhor.”, afirmou Elisa.

Uma vez que as crianças são recrutadas, os grupos armados se transformam na única família que eles conhecem. À medida que crescem, as crianças se envolvem na vida de combate, perpetuando uma guerra que dura mais de 40 anos na Colômbia.

Elisa ficou com os guerrilheiros durante um ano e dois meses. Neste tempo, foi responsável por uma séria de tarefas dentro do grupo: limpeza, cozinha e transporte de armas e folha de coca, em embalagens que pesavam até dois quilos.

Foi castigada apenas uma vez, quando se recusou a levar um aquecedor. O castigo foi fazer mais turnos de vigilância e cozinhar durante um mês. Elisa diz que teve sorte e que foi bem tratada, e que não foi estuprada, como outras meninas do grupo.

“O dia a dia do campo era difícil. Eu tinha que acordar muito cedo, às 4h30 da manhã, para buscar madeira, preparar o café da manhã e começar o turno, do dia ou da noite”, relembra Elisa.

Apesar disso, ela nunca pensou em deixar em deixar o acampamento: “Quando você está ali, não vê nenhum outro futuro e tudo o que você pode fazer é continuar”. Elisa conta que apenas em uma situação pensou em deixar o acampamento: pensou que estava grávida. Nesse caso, ela teria que abandonar o grupo ou realizar um aborto - prática forçado pelos guerrilheiros. 

A oportunidade para abandonar o grupo chegou de uma maneira estranha e dolorosa. Durante um combate entre a guerrilha e as forças colombianas, Elisa sofreu um ferimento grave e foi levada pelo Exército a um hospital local. Após quinze dias de internação, ela teve que ser transferida para um hospital distante da região para evitar a perseguição da guerrilha e garantir sua segurança.

O diagnóstico dos médicos foi pouco otimista: tudo indicava que Elisa ficaria paraplégica, ou seja, perderia os movimentos dos membros inferiores, e dali em diante teria que andar com ajuda de cadeira de rodas. “Era difícil passar tantas horas no hospital sem nenhuma perspectiva de melhora, pensando que não poderia mais andar”.

Entretanto, a esperança voltou pouco a pouco a animar a jovem, pequena, simples, mas muito forte. Sete meses após a lesão, Elisa voltou a dar os primeiros sinais de recuperação.

Logo a jovem reencontrou a família, acompanhada por autoridades do governo colombiano, com quem Elisa vive atualmente na companhia de outros jovens que abandonaram as guerrilhas. O governo dá um auxílio de cerce de $300 (cerca de R$ 546) por mês para gastos de manutenção, principalmente com gastos relacionados a educação.

“Estar em uma cidade grande parece um sonho, mas é muito difícil se integrar e ainda tenho muitos amigos a conhecer”. Aos 19 anos, Elisa mudou muito e hoje não consegue se imaginar em um acampamento guerrilheiro. A jovem sonha em ser enfermeira, e já está cursando o primeiro ano da faculdade de Enfermagem.

Ela tem consciência do que fez quando menina, mas à época Elisa acreditava que essa era a única oportunidade que tinha para alcançar uma vida melhor. Sua opinião mudou, mas as lembranças do passado no acampamento vão acompanhá-la para sempre.

Segundo relatório divulgado recentemente pela ONG Tribunal Internacional para Infância Afetada por Guerra, baseada em Londres, cerca de 14 mil crianças estão ligadas a conflitos armados internos na Colômbia. Elas são usadas como informantes, na instalação de minas terrestres, como escravas sexuais e para cultivos ilegais, que são uma fonte importante de financiamento das ações dos grupos ilegais.  

O instituto Bem-Estar da Família, instituição do governo para a proteção e atenção às crianças, reconhece que é difícil confiar nos dados oficiais de projeção sobre o número de crianças e adolescentes que foram recrutados pelas guerrilhas.  Os únicos números oficiais se relacionam ao programa de atenção às crianças ex-soldados, que atendeu aproximadamente 4800 menores desde novembro de 1999.

O ACNUR continua promovendo a criação de redes comunitárias seguras para garantir um ambiente de proteção saudável às crianças e aos adolescentes que vivem em contexto de violência. Em Putumayo, o ACNUR apoia Centros Juvenis e está ajudando a implementar projetos de proteção em instituições educativas de comunidades indígenas.

Com essa iniciativa, 354 estudantes indígenas de 5 a 18 anos foram protegidas só no último ano. As crianças vivem em comunidades instaladas em zona remotas com alta incidência de conflitos armados e risco de recrutamento forçado. Melhorando a infraestrutura das escolas, as crianças têm melhor acesso a alimentos, água e saneamento básico.

O ACNUR implementou recentemente no departamento de Arauca o projeto “Jogo Limpo”. Com isso, o ACNUR pretende reforçar uma estratégia de criação de cultura de paz e promoção da coexistência pacífica.

O projeto é dirigido à construção de valores e habilidades sociais. 434 crianças, familiares e membros da comunidade escolar receberam treinamento e realizaram uma partida de futebol de acordo com as regras apresentadas. Em um paralelo representado pelo esporte, o grupo aprendeu a identificar fatores de risco, de desentendimento na comunidade e aprenderam maneiras de evitar conflitos violentos quando estão em desacordo.

Por Francesca Fontanini en Bogotá, Colombia

Por: ACNUR


Comentarios



Pesquisa de notícias

Título