Oficina de artesanato empodera e fortalece vínculos de mulheres refugiadas em Brasília

A última quarta-feira foi marcada pelo encerramento de um ciclo de aprendizados que está ajudando refugiadas de diferentes nacionalidades a se integrarem no Brasil.

Brasília, 21 de julho de 2016 (ACNUR) – A última quarta-feira foi marcada pelo encerramento de um ciclo de aprendizados que está ajudando refugiadas de diferentes nacionalidades a se integrarem no Brasil. Dentro da fábrica da Confraria, renomada marca de bolsas do mercado brasileiro e do exterior, seis refugiadas do Afeganistão, Colômbia, Síria e Sudão do Sul estiveram juntas ao longo de quatro módulos de aprendizado sobre como fazer adereços de retalhos de couro derivados do processo de fabricação das bolsas.

Para além da produção artesanal de elementos que são incorporados à linha de produção das bolsas, o convívio entre as mulheres refugiadas possibilitou momentos de sociabilidade entre elas, evidenciando a superação das dificuldades geradas pelos diferentes contextos que vivenciaram, envolvendo conflitos armados, perseguições e violência de gênero.

“Na primeira aula interagimos pouco devido à dificuldade da língua, mas já a partir da segunda estávamos compartilhando nossas histórias pessoais. Isso fez com que a cada aula tivéssemos mais conhecimento e intimidade entre nós, além do conhecimento das técnicas de artesanato”, disse a refugiada sudanesa Eiman Haroon, que chegou no Brasil em 2015.

Esta oficina de aprendizado em trabalhos manuais com mulheres refugiadas foi resultado de uma iniciativa que envolveu a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), o Instituto UniCEUB de Cidadania (IUC) e a empresa Confraria. A proposta desta parceria foi possibilitar um atendimento mais qualificado às mulheres refugiadas que residem no Distrito Federal, ouvindo suas necessidades específicas ao mesmo tempo em que novas possibilidades de emprego e renda lhes são passadas.

A professora e artesã Roze Mendes se surpreendeu com os resultados deste grupo de mulheres refugiadas não somente pela força de vontade em aprender, mas principalmente pelas habilidades ao relacionar sua bagagem cultural à nova proposta. A ideia inicial de trabalhar um único modelo de flor deu lugar a uma variedade de adereços que empolgou também a estilista e empresária Ana Paula de Ávila e Silva, proprietária da marca Confraria.

“O tempo em que estas mulheres refugiadas estiveram com a gente mostrou que, mesmo há pouco tempo vivendo no país, elas podem se sentir úteis e valorizadas por aquilo que aprendem e realizam. Elas são muito dedicadas e me surpreenderam. Já para a próxima coleção de inverno de 2017 vou utilizar nas alças de algumas bolsas os traçados que algumas fizeram com as tiras de couro, um traçado originalmente de tranças de cabelo”.

Para a refugiada Maria Mathide, participante da oficina, vive no Brasil há dois anos com seu marido e filho de oito anos. Ela era cuidadora de idosos na Colômbia, mas teve que deixar o país devido à violência e explicou as razões que a motivaram a comparecer em todos os módulos do curso realizado em Brasília. “Todo esse aprendizado facilitou que pudéssemos conhecer outras colegas refugiadas, aprender novas habilidades profissionais e produzir para gerar renda. Acima de tudo, o curso nos permitiu sonhar novamente, relacionando que um retalho de couro pode se tornar uma bonita flor”.

A diretora do IMDH, Irmã Rosita Milesi, ressaltou a importância dos laços entre os parceiros envolvidos para que as mulheres, de fato, não tenham suas histórias restritas às suas vidas cotidianas dentro do lar que residem. “Fiquei muito feliz com os resultados e isso mostra bem os diferentes caminhos que mulheres refugiadas podem trilhar para sua autossuficiência”. Como consequência deste processo, a valorização da autoestima também tem um papel fundamental porque, de acordo com Carolina Smid, chefe da unidade de Programa do ACNUR no Brasil, “as mulheres fazem parte dos grupos mais vulneráveis dentre os refugiados, por estarem expostas a diferentes tipos de violência de gênero e projetos como este reforçam suas qualidades e trajetórias, criando espaços seguro para as mulheres”.

O ACNUR e seus parceiros darão sequência nos próximos meses, envolvendo outras refugiadas que estão frequentemente reduzidas ao ambiente doméstico, sem que frequentem atividades comuns do dia a dia fora de suas casas. Com isso, facilita-se que as mulheres refugiadas tenham suas necessidades específicas consideradas, tornando-as visíveis diante aos demais refugiados – de acordo com o Ministério da Justiça / CONARE, cerca de 30% dos 8.863 mil refugiados que vivem no Brasil são mulheres.

Por Miguel Pachioni, de Brasília