Os 7 anos do conflito da Síria: “uma tragédia humana”

As condições enfrentadas pelos civis dentro da Síria são piores do que nunca e 69% da população vive em extrema pobreza.

Voltando da escola, crianças caminham pelas ruas devastadas de Alepo em novembro de 2017. © ACNUR/Susan Schulman

BEIRUTE, 09 de março de 2018 – “O contínuo sofrimento dos civis sírios marca um grande fracasso político e um novo ponto crítico no longo conflito na Síria, que infelizmente, chega ao seu sétimo aniversário este mês”, afirmou Filippo Grandi, o Alto Comissário da ONU para Refugiados, nesta sexta-feira.

“Esta guerra de sete anos tem deixado um enorme rastro de tragédia. Para o bem das pessoas ainda vivas, é hora de acabar com este conflito devastador. Não há vencedores claros nesta busca sem sentido por uma solução militar. Mas os perdedores são fáceis de ver – eles são o povo da Síria”, acrescentou.

Os sete anos de guerra já custaram centenas de milhares de vidas, já levaram 6,1 milhões de pessoas a deixarem suas casas na Síria e já forçaram 5,6 milhões de refugiados a buscar segurança nos países vizinhos da região.

As condições enfrentadas pelos civis dentro da Síria são piores do que nunca, com 69% da população vivendo em extrema pobreza. O número de famílias que gastam mais de metade de sua renda anual em alimentos aumentou para 90%, enquanto os preços dos alimentos são, em média, oito vezes mais altos do que os níveis anteriores à crise. Cerca de 5,6 milhões de pessoas enfrentam péssimas condições de vida em termos de segurança, necessidades e direitos básicos, e carecem de ajuda humanitária urgente.

O ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, e seus parceiros humanitários estão se esforçando para ajudar as pessoas que precisam de ajuda no interior do país, mas o acesso a populações em áreas cercadas e de difícil acesso continua insuficiente. O comboio humanitário que, no dia 5 de março, levou ajuda às pessoas de Duma, em Ghouta Oriental, foi um passo importante. No entanto, os bombardeios em curso forçaram os caminhões a sair antes que metade dos alimentos destinados aos refugiados pudessem ser descarregados e as tentativas de retorno não foram bem-sucedidas.

O ACNUR e outros atores humanitários permanecem prontos e ansiosos para oferecer assistência a centenas de milhares de pessoas que carecem de ajuda e que estão presas em Ghouta Oriental e em outras partes bloqueadas do país.

“Mesmo durante guerra, existem regras que todos os lados devem respeitar. Na Síria, até mesmo a opção de fugir das áreas de conflito para locais mais seguros em outras partes do país está diminuindo. O acesso humanitário aos que precisam de ajuda deve ser garantido. É preciso assegurar o direito de buscar refúgio e a infraestrutura, como hospitais e escolas, deve ser protegida a todo custo”, disse Grandi.

Entretanto, a situação perigosa dentro das fronteiras da Síria destrói a esperança de milhões de refugiados sírios que vivem na Turquia, no Líbano, na Jordânia, no Egito e no Iraque, e que sonham em voltar para casa quando for seguro.

“Com conflitos ainda violentos em partes da Síria, os refugiados estão muito assustados para retornar”, afirmou Grandi. O ACNUR está se preparando para ajudar nos retornos, mas a segurança precisa melhorar consideravelmente antes que eles possam de fato acontecer.

Enquanto isso, as condições para milhões de sírios no exílio estão se deteriorando e a grande maioria vive abaixo da linha da pobreza. Mais de três quartos dos refugiados nas áreas urbanas da Jordânia e do Líbano são incapazes de suprir suas necessidades básicas de alimentação, moradia, saúde e educação.

A porcentagem de crianças refugiadas na escola aumentou nos últimos anos, no entanto, de 1,7 milhão de refugiados sírios em idade escolar, 43% ainda não frequentam a escola. Os sistemas nacionais de educação pública nos países de acolhimento estão criando segundos turnos para acomodar estudantes sírios e precisam de mais apoio.

“Embora o foco esteja na devastação dentro da Síria, não devemos esquecer do impacto nas comunidades de acolhimento nos países vizinhos e do efeito que tantos anos de exílio têm sobre os refugiados”, destacou Grandi. “Enquanto não houver uma solução política para o conflito, a comunidade internacional deve intensificar seu investimento nos países de acolhimento”.

O Alto Comissário salientou que a próxima conferência internacional sobre Apoio ao Futuro da Síria e da Região, que acontecerá em Bruxelas nos dias 24 e 25 de abril, deve resultar em promessas firmes de apoio financeiro e de desenvolvimento.

Ao longo dos anos, o apoio dos doadores tem sido generoso, mas é necessário mais. Em dezembro do ano passado, as agências da ONU e cerca de 270 ONGs lançaram o Plano Regional de Refugiados e Resiliência de 2018 (3RP), um plano de US$ 4,4 bilhões destinado a apoiar tanto os refugiados quanto os membros das comunidades que os acolhem. No entanto, a lacuna entre as necessidades existentes e os recursos disponíveis permanece grande. Em 2017, a resposta internacional recebeu apenas metade do financiamento necessário.

No momento, o Alto Comissário está no Líbano, onde passou três dias se reunindo com funcionários do governo e com alguns dos quase um milhão de refugiados sírios registrados que vivem no país. Ele elogiou a generosidade do país em acolher quase o mesmo número de sírios que todo o continente europeu combinado, mas fez um alerta em relação ao apoio internacional inadequado que está aumentando a vulnerabilidade entre os refugiados e as comunidades locais onde vivem.

 

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