“Acredito que por meio do nosso trabalho podemos fazer a diferença na vida de muitas pessoas”

Thais Severo trabalha há 6 anos para o ACNUR e já atuou no Brasil e Paquistão. Hoje, ela é responsável pelo registro de pessoas vulneráveis no campo de refugiados de Kutupalong, o maior do mundo, em Bangladesh.

O ACNUR tem mais de 11 mil funcionários, a maioria trabalhando em campo. Thais Severo trabalha há 6 anos para o ACNUR e já atuou no Brasil e Paquistão. Hoje, ela é responsável pelo registro de pessoas vulneráveis no campo de refugiados de Kutupalong, o maior do mundo, em Bangladesh. Neste Dia Mundial Humanitário, ela compartilha conosco as alegrias e dores do seu trabalho dos sonhos.


 

Thais no campo de Kutupalong, em Bangladesh, o maior campo de refugiados do mundo. © ACNUR / ACNUR

Me envolvi com o tema do refúgio, enquanto era estudante de intercâmbio na Bélgica. O casal que me acolheu tinha trabalhado na República Democrática do Congo (RDC). Em 1998, quando começou o conflito na RDC, milhares de pessoas foram obrigadas a deixar o país. Muitas receberam refúgio na Bélgica, já que o país era um antiga colônia belga. A minha família  ainda trabalhava voluntariamente para refugiados e adotou um jovem de 17 anos que havia perdido seus pais durante a guerra. Eu também tinha 17 anos na época e aprendi com ele sobre o passado do seu país. Descobri que muitos jovens da nossa idade foram obrigados a deixar seu país e estavam morando em campos de refugiados em países vizinhos. A história dele me marcou muito. Ali eu soube que queria me envolver com a ajuda humanitária. Quando me formei decidi aplicar para o ACNUR, pois acredito na missão da agência. Acredito que por meio do nosso trabalho podemos fazer a diferença na vida de muitas pessoas.

“O ACNUR foi meu primeiro emprego e enquanto eu puder quero continuar a fazer esse trabalho. Todos os dias sou grata por poder fazer o que faço. Para mim, estar no campo junto com os refugiados e conhecer suas histórias, entender suas dificuldades, me motiva a fazer um trabalho melhor”.

Quando estava em Quetta, no Paquistão, enfretavámos muitos desafios com as comunidades locais quando se tratava de participação e empoderamento das mulheres nas esferas sociais e políticas. Em março de 2017, para comemorar o Dia Internacional da Mulher, decidimos fazer um evento esportivo para inclusão de jovens refugiadas e da comunidade local. Enfrentamos diversas barreiras para que aceitassem a ação e também para garantir a segurança daquelas mulheres. Quando finalmente apresentamos a ideia nas escolas, fomos surpreendidas pela empolgação das alunas. No dia do evento ficou evidente a alegria das participantes.

Eu me senti muito realizada e feliz de estar rodeada por mulheres tão fortes. Esse foi um dos dias em que pensei: é por momentos como esse que eu decidi trabalhar com o ACNUR”.

Mas não são apenas momentos felizes que guardo comigo. O início da emergência da etnia rohingya em Bangladesh, em setembro de 2017, foi particularmente desafiador. Mais de 600 mil pessoas começaram a chegar, fugindo da violência brutal em Mianmar. As demandas eram imensas e o tempo de resposta tinha que ser imediato. Eu era responsável por identificar e acompanhar os casos de pessoas vulneráveis no campo e garantir que os nossos parceiros e a equipe de proteção recebessem essa informação. As famílias ainda estavam chegando no campo carregando os poucos pertences que conseguiram trazer de Mianmar, acompanhados de criancas pequenas, alguns recém nascidos, e idosos que eram carregados pelos familiares.

“De todos os casos vulneráveis, como o de crianças que se perderam dos seus pais ao cruzar a fronteira e de mulheres que perderam seus maridos por causa da violência em Mianmar, o mais difícil foi testemunhar a chegada de pessoas, inclusive crianças, com feridas recentes de bala”.

Em uma das visitas que fiz, fui informada pelos pais que seu filho de apenas 20 anos havia cruzado a fronteira na noite anterior, mas foi baleado ao tentar deixar seu vilarejo. Ele conseguiu chegar ao campo, mas não resistiu aos ferimentos. O corpo ainda estava dentro da tenda enquanto fazíamos a entrevista. Eu pude sentir a dor daquela familia e essa memória continua comigo até hoje. É um lembrete para trabalhar cada vez mais por um mundo que seja mais humanitário, onde ninguém seja obrigado a vivenciar esse tipo de violência e onde as pessoas possam viver em segurança. 

Seja um doador do ACNUR e nos ajude a proteger ainda mais famílias vulneráveis!