“Estou realizando meu sonho aqui”

Lucia e sua família vieram para o Brasil, fugindo de perseguição e violência na República Democrática do Congo.

Lucia é uma refugiada da República Democrática do Congo e vive há três anos no Brasil.
© ACNUR / Érico Hiller

Aos 17 anos, Lúcia levava uma vida protegida em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC). Da casa para escola. Da escola para casa. Aos domingos, igreja. Sua rotina e a de seus seis irmãos parecia inabalável.


Seu pai, formado em Finanças, trabalhava como funcionário público. Sua mãe, formada em Relações Públicas, também trabalhava na área. A vida da família congolesa era como a de muitas outras famílias de classe média na RDC e a pobreza era algo distante. A cidade de Lucia era colorida e festiva, afastada da realidade de violência e medo que marcam a vida de grande parte da população do país.

A República Democrática do Congo atualmente é uma das situações humanitárias mais complexas e desafiadoras do mundo. São múltiplos conflitos que afetam várias partes de seu vasto território. Mais de 4,5 milhões pessoas estão deslocadas dentro do próprio país e não podem voltar para suas casas por conta da violência.

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Lucia e sua família estão começando suas vidas em São Paulo. © ACNUR / Érico Hiller

 

Mas um dia tudo mudou. Lucia admite que saiu de seu país sem saber o porquê e apenas depois de chegar no Brasil foi entender o que aconteceu. Fugindo de ameaças de morte e perseguição política, seus pais decidiram que a única alternativa para a família era fugir com a roupa do corpo, em busca de segurança. Na época, ela era nova demais para participar desta impossível decisão.

“Quando cheguei aqui não acreditava que um dia iria falar português. No início eu ainda estava em choque, não conseguia aceitar a nossa situação. Tive que deixar tudo na minha casa.”

Para entender sua própria história, Lucia foi, aos poucos, juntando fragmentos de acontecimentos. Lembrou que uma noite voltando da igreja foram seguidos por um carro e sua mãe ficou nervosa. A casa foi assaltada e revirada e tiveram que contratar seguranças. Em seguida, um telefonema ameaçador e três dias na casa de uma tia sem mais informações. Logo depois, em um dia de semana, ao invés de irem para a escola foram para o aeroporto. Ninguém ficou sabendo de nada. “Nós crianças não éramos envolvidos nos assuntos dos adultos.”

“Quando chegamos o sonho virou pesadelo.”

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Vista do Capão Redondo, em São Paulo. © ACNUR / Érico Hiller

 

Lucia depois descobriu que seu pai havia tentado levar a família para a França e Bélgica. As tentativas de visto foram frustradas, pois só dariam para parte da família de nove pessoas. Foi então que vieram para o Brasil. Seu pai já conhecia o país e sabia que havia uma política de visto humanitário favorável. Ao chegarem, seus pais não conseguiram emprego. E então a vida foi muito difícil por dois anos:

“Quando chegamos o sonho virou pesadelo. Quando você sai de um país, você deixa a sua vida que você achava boa e acha que vai ser mais feliz porque vai encontrar coisas melhores que a sua antiga vida. Por mais de um ano, nós dependíamos da ajuda das pessoas para comer e nos vestir. Nos ajudaram muito. Mas um dia a ajuda acabou.”

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Lucia assiste TV na sala de casa, em São Paulo, em um dos seus raros momentos de folga. © ACNUR / Érico Hiller

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Lucia com a mãe e a irmã na cozinha de casa. Nunca falta "fufu" e folha de mandioca nas refeições. © ACNUR / Érico Hiller

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"Fufu", versão congolesa do angu. © ACNUR / Érico Hiller

 

Hoje ela mora com a família no térreo de uma casa de três quartos no Capão Redondo. No fogão, a mãe mistura farinha de mandioca e farinha de milho preparando o tradicional “fufu”, versão congolesa do nosso angu. O cheiro de folha de mandioca refogada toma conta da casa. Ela vem de longe: a mãe sai do Capão Redondo e vai até o Braz, no centro de São Paulo, para comprar as folhas, trazidas por famílias congolesas do Rio de Janeiro. Não existe nada como o gosto de casa.

“O meu pai sente muita falta. Ele ainda tem a esperança de um dia poder voltar.”

Na sala, seu pai assiste a um canal de notícias da RDC online e o francês dos jornalistas ecoa para os vizinhos. É difícil desapegar de velhos costumes. Isso também se refletiu quando Lucia e sua irmã começaram a trabalhar para sustentar a família. Na RDC, culturalmente é papel do homem prover para a casa. Na maioria das vezes, as mulheres não têm voz.

“No início meu pai não aceitou essa situação, ele ficou doente e minha mãe não falava muito, apenas tentava nos motivar. Isso me determinou a arrumar um emprego. Se todos estavam no chão, eu tinha que fazer alguma coisa. Ficamos quase dois anos nessa situação.”

Mas encontrar emprego não foi fácil. A situação da família sensibilizou parceiros do ACNUR, que ajudavam sempre que possível. Um dia ela e sua irmã foram convidadas para participar do Empoderando Refugiadas, um projeto de empregabilidade apoiado pelo ACNUR. Isso mudou a vida de toda a família.

“Eu não tinha esperança, mas resolveram nos ajudar. Ficavam com pena da gente, nove pessoas em uma casa e ninguém trabalhava. Não desisti. Me encaminharam para um curso de atendimento e depois fui contratada. Minha irmã também.”

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Lucia estudando em seu quarto. © ACNUR / Érico Hiller

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Lucia tem que pegar 4 conduções para chegar na faculdade. © ACNUR / Érico Hiller

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Lucia na sala de aula da Faculdade Anhanguera, onde cursa pós em Psicologia Organizacional. © ACNUR / Érico Hiller

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Lucia na sala de aula da Faculdade Anhanguera, onde cursa pós em Psicologia Organizacional. © ACNUR / Érico Hiller

 

Lucia trabalha como caixa em uma loja de departamento. Ela é formada em Recursos Humanos e faz uma pós em Psicologia Organizacional. Para sustentar a família, enfrenta uma jornada cansativa de trabalho e aulas. São três conduções apenas para chegar no trabalho.

“Hoje em dia tudo mudou. Sou mais madura e tento fazer o melhor para a minha família. Quero que meus pais vejam que eles não perderam nada. Meu pai gastou tudo o que tinha para virmos para o Brasil.”

Apesar de terem chegado aqui em 2015, os nove ainda aguardam ansiosamente o status de refugiados. Com isso, as suas irmãs poderão acessar a universidade com mais facilidade através de vagas destinadas para refugiados. A expectativa é que não terão tanta dificuldade em encontrar emprego para finalmente seguir em frente com suas vidas.

“Estou realizando meu sonho aqui. Não acredito que eu realizaria lá. Minha vida lá já estava planejada pelos meus pais.”

No Brasil, o ACNUR apoia cursos de português, revalidação de diploma, documentação e abrigo através de parceiros locais. Atuamos para que as famílias se integrem e tenham a chance de viver em melhores condições.

Seja um doador do ACNUR e ajude refugiadas como Lucia a reconstruírem suas vidas. E seus sonhos.