“Fico extremamente feliz quando vejo o impacto positivo imensurável do ACNUR na vida das pessoas deslocadas”

Hugo Reichenberger trabalha há 10 anos no ACNUR e hoje atua na Ucrânia, onde há mais de 1,5 milhões de deslocados internos.

Hugo Reichenberger trabalha há 10 anos no ACNUR e já atuou em oito países. Hoje, ele é oficial de Relações Externas no escritório do ACNUR na Ucrânia, onde há mais de 1,5 milhões de deslocados internos. Muitos deles vivem no meio da guerra e ouvem diariamente sons de morteiros, bombas e tiros. O ACNUR tem mais de 11 mil funcionários, a maioria trabalhando em campo.


“Me apaixonei pelo trabalho de direitos humanos e como ele pode transformar e empoderar pessoas que mais precisam.”

Quando era pequeno, minha família se mudou do Brasil, pois meu pai iniciou uma carreira internacional. Foi assim que vivi minha infância e adolescência na Ásia, Oceania e Europa, mas sempre retornando ao Brasil, principalmente para estudar e trabalhar. Desde pequeno eu sonhava em ser diplomata. Mas fiquei confuso quando em 2004 surgiu a oportunidade de atuar numa ONG de proteção aos direitos das crianças e adolescentes. Assim me apaixonei pelo trabalho de direitos humanos e como ele pode transformar e empoderar pessoas que mais precisam.

“Por muito tempo tive dúvida entre ser diplomata e trabalhar com questões sociais e direitos humanos, até que descobri a atuação humanitária da ONU pelo mundo.”

Mas sempre estive próximo da causa do refúgio. Aos sete anos de idade me lembro quando minha família e eu fomos evacuados de Manila, capital das Filipinas, sob o som de tiros e bombas durante um golpe militar, quando vivíamos lá. Aos 10 anos, na Suíça, falando português na escola com meus irmãos, éramos confundidos com refugiados da Iugoslávia pelos coleguinhas suíços – o país recebeu grande número de refugiados desta guerra. Acabei fazendo grandes amizades com os refugiados na escola, aprendendo muito com as histórias que eles contaram. Essas experiências me aproximaram muito da causa do ACNUR, a causa dos refugiados.

Hugo atuando na realocação de refugiados do Mali em Burkina Faso, em 2013. O ACNUR organizou a realocação de mais de 2600 refugiados para um campo de refugiados, onde eles poderiam estar longe do conflito e encontrar segurança. © ACNUR / B. Sokol

Ao longo desses dez anos com o ACNUR, já atuei no Brasil, na Argélia, em Burkina Faso, na República Centro Africana, no Chade, em Mianmar, na sede em Genebra e agora vivo na Ucrânia, onde trabalho com Relações Externas. O meu trabalho consiste em levar embaixadas e visitas diplomáticas para visitar o leste da Ucrânia e arrecadar recursos para o ACNUR junto aos Governos e missões diplomáticas. O ACNUR recebe financiamentos tantos de pessoas físicas como de Governos. Graças a este apoio é possível continuar seu trabalho de proteção e ajuda humanitária no leste da Ucrânia. Aqui na Ucrânia, há mais de 1,5 milhões de deslocados internos. Muitos deles vivem no meio da guerra e ouvem diariamente sons de morteiros, bombas e tiros.

“Fico extremamente feliz quando vejo o impacto positivo imensurável do ACNUR na vida das pessoas deslocadas.”

A parte mais gratificante do meu trabalho atual com o ACNUR é poder facilitar o contato entre diplomatas – que tem poder de influenciar políticas internacionais – com pessoas que estão vivendo diariamente os efeitos devastadores e terríveis da guerra no leste da Ucrânia. Este contato entre esses dois “mundos” é extremamente importante, pois leva esperança para as pessoas que estão sofrendo os efeitos da guerra. Fico extremamente feliz quando vejo o impacto positivo imensurável do ACNUR na vida das pessoas deslocadas. No ACNUR tive muitos desses “momentos” memoráveis.

“Me lembro até hoje do alívio no olhar dessas pessoas, a maioria mulheres e crianças, quando chegamos para levá-los para um lugar mais seguro.”

Em 2012, participei de uma operação de realocação de refugiados do Mali que estavam presos na fronteira do país com Burkina Faso. Viajamos por mais de 200 km no deserto até o norte com caminhões para transportar grupos de  500 pessoas até um campo de refugiados. No campo, o ACNUR providenciava abrigo, água, assistência e comida e também resgatava outros refugiados que estavam próximos ao conflito. Me lembro até hoje do alívio no olhar dessas pessoas, a maioria mulheres e crianças, quando chegamos para levá-los para um lugar mais seguro.

Outro momento inesquecível foi no Chade, onde trabalhei com reassentamento nos campos de refugiados dos Darfuris que fugiram do Sudão. O reassentamento é uma espécie de “migração humanitária” facilitada por países desenvolvidos como os Estados Unidos, países Nórdicos Europeus, e até o Brasil. As famílias são cuidadosamente selecionadas pela ONU junto com os países que recebem esses refugiados. A minha alegria era ter a oportunidade de presenciar a partida de várias famílias dos campos no meio do deserto para serem reassentadas em países desenvolvidos. As partidas eram sempre extremamente emocionantes.

Outra coisa que sempre muito me emocionou no meu trabalho com o ACNUR é a forma como sempre fui tão bem recebido pelas comunidades de deslocados com qual eu trabalhei, pelo fato de ser brasileiro. Na República Centro Africana, eu era bem recebido tanto pelos deslocados muçulmanos, quanto pelos deslocados cristãos, ambos os lados apaixonados por nosso futebol e admiradores de nosso país multirracial e tolerante.

Vimos de perto o efeito de discursos e práticas de ódio, discriminação e racismo, e como isso pode afetar a vida de milhares de pessoas de um dia para o outro.”

Mas nem sempre é fácil. No dia 25 de agosto de 2017 vivi a situação mais difícil da minha vida profissional. Eu trabalhava na fronteira de Mianmar e Bangladesh, do lado do Mianmar. Neste dia, iniciou-se um conflito e perseguição aos rohingya que rapidamente escalou-se ao nosso redor. Hoje, são mais de 730 mil refugiados rohingya que fugiram para Bangladesh. Vimos de perto o efeito de discursos e práticas de ódio, discriminação e racismo, e como isso pode afetar a vida de milhares de pessoas de um dia para o outro.

 

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