Ação social e pintura marcam abertura do primeiro centro de referência para refugiados de Manaus

Cidade já recebeu mais de 8.800 solicitações de refúgio desde 2017 e é um dos principais destinos de venezuelanos no país.

Durante toda a manhã do domingo (16), famílias venezuelanas participaram da abertura do projeto CARE, que integra o Centro de Apoio e Referência a Refugiados e Migrantes de Manaus, e puderam se beneficiar de serviços gratuitos de saúde, atendimento odontológico, corte de cabelo, doação de livros e roupas e oficinas de arte. Ao todo, quase 4 toneladas de alimentos foram entregues às famílias por meio da ação realizada pela ADRA Brasil Regional Amazonas em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA), a União Europeia e a Prefeitura de Manaus.

O Centro de referência visa facilitar o acesso a direitos de pessoas de diversas nacionalidades e adaptar os serviços da rede pública local às necessidades específicas da população imigrante e refugiada. Inicialmente serão ofertadas ligações internacionais gratuitas, agendamento para solicitação de refúgio atendimentos jurídicos, assistência social, aulas de português e acesso gratuito à internet. De acordo com Rosimélia Figueiredo, coordenadora do projeto, a ideia é diversificar as parcerias para que haja cada vez mais atendimentos. “Esperamos atender as pessoas com outros serviços. Logo queremos oferecer apoio psicológico e acompanhamento de casos de violência sexual e de gênero”, afirma.

A oportunidade de acessar informações e serviços de uma só vez no centro de referência é bem vista pela população beneficiária, que poderá otimizar tempo. Segundo o chefe do escritório do ACNUR em Manaus, Sebastian Roa, o CARE é uma forma inteligente e prática de resposta ao cenário atual de êxodo em massa de venezuelanos. “O centro de apoio e referência a migrantes e refugiados é um marco histórico na cidade de Manaus. É o primeiro que está sendo aberto na cidade, e tem como objetivo centralizar e diversificar os serviços para os refugiados na cidade. Aqui, os serviços públicos já oferecidos aos brasileiros poderão ser adequar às necessidades dessa população que chega vulnerável”, afirma ele.

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Voluntários ajudaram na distribuição de cestas básicas aos venezuelanos que estiveram na abertura do CARE. © ADRA/Fernando Borges

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Comunidade em ação: manauaras ofereceram atendimento odontológico gratuito na abertura do Centro de referência. © ADRA/Fernando Borges

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Bazar solidário: as famílias receberam doações de roupas, sapatos e livros. © ADRA/Fernando Borges

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Pintura para as crianças também: cores e sorrisos preencheram a manhã de crianças brasileiras e venezuelanas. © ADRA/Fernando Borges

Essa é foi a impressão da jornalista Zuleika Velasquez, que vive em Manaus há 7 meses e foi ao evento com seu companheiro. Segundo ela, ações como essa são fundamentais para sua integração no Brasil. “Para mim, isso significa muito mais do que uma cesta básica de natal. É um apoio moral, um gesto de amizade. É algo que faz toda a diferença para pessoas que, como eu, deixaram suas famílias para trás e precisam de ajuda para continuar”, afirma.

Como muitos dos mais de 3 milhões de venezuelanos que foram forçados a sair de seu país desde 2017, a história de Zuleika revela a importância de uma rede de apoio local para se recuperar da reviravolta que a crise econômica e falta de serviços básicos em seu país causaram em sua vida. Com perseverança, largou para trás sua carreira como jornalista, dois empregos e recomeçou sua vida em Manaus como muitos de seus conterrâneos: vendendo água no Largo de São Sebastião, a praça em frente ao Teatro Amazonas.

“A jornada me deixava exausta, eu sentia muita dor nos meus pés. Em vários momentos eu só conseguia sentar e chorar de dor”, relembra Zuleika. “Mas pelo menos aqui eu consigo alimentar meu filho. Chegou em um ponto em que meus salários não davam para comprar um litro de leite para ele. Com o dinheiro que ganhava, conseguia me alimentar apenas três dias da semana na Venezuela”, conclui.

Arte e Refúgio

Steven Jose participou da oficina e pode resgatar um hobbie que há muito não praticava: a pintura. © ADRA/Fernando Borges

Como parte da ação social, o grafiteiro Raiz Campos realizou oficina de pintura com brasileiros e venezuelanos na elaboração da parte externa do centro. Por meio da apresentação das técnicas de spray e pintura, o artista conduziu os participantes pela ação colaborativa. Um dos participantes, o venezuelano Steven Jose, aproveitou a oficina para resgatar um dos seus hobbies.
“Passar o dia pintando foi diferente e agradável. Já sabia pintar, é um hobbie meu. E essa atividade é importante porque desperta o senso de união e ajuda. Quando cheguei estava tudo branco, agora está quase pronto e muito bonito. Agora sim parece uma parede”, afirma ele, orgulhoso de sua participação.

O artista fez os esboços dos rostos de pessoas de diferentes culturas para celebrar a integração dos povos. Para Raiz, que grafita há 13 anos, a atividade vai além da pintura em si. “Trabalho dentro de uma perspectiva socioeducativa. Durante a atividade, conversamos sobre as pinturas, sobre os povos. E essas ideias são melhores assimiladas pelas pessoas na rua do que se estivéssemos falando a mesma coisa dentro de uma sala, por exemplo”.

Parceiros
Os serviços do Centro de Referência terão o apoio da Defensoria Pública da União (DPU), Télécoms Sans Frontières, Cáritas Arquiodicesana de Manaus, Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (SEMASC), Departamento de Direitos Humanos (DDH), Polícia Federal, entre outros.