São Paulo ajuda refugiados a encontrarem seu caminho no Brasil

A maior cidade das Américas não só acolhe refugiados e migrantes, mas também os ajuda a encontrar trabalho e autonomia.

O venezuelano Johnny José Gonzalez posa para uma foto na DOXS Logística no centro de Guarulhos, na área metropolitana de São Paulo ©UNHCR/Gabo Morales.

Johnny José Gonzalez transporta a carreta pelo depósito da Doxs, uma empresa de logística na cidade de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Ele pega uma palete de madeira forrada com caixas de papelão cheias de lâmpadas, bombeando a alça do carrinho para cima e para baixo para levantar a mercadoria apenas o suficiente para que ele possa prendê-la ao palete com um grande rolo de plástico antes de ser carregada em um dos caminhões da empresa.


O venezuelano de 50 anos, que era dono de uma construtora, trabalha como ajudante de depósito há cinco meses, seu primeiro emprego desde que chegou no Brasil, oito meses atrás, com o filho e o genro. Os três homens vieram de Cumaná de ônibus antes de ir a Boa Vista, onde a maioria dos venezuelanos chegam buscando refúgio, comida e trabalho no Brasil.

“A Venezuela estava desmorando”, ele explica. “Não havia trabalho, comida ou medicação. Eu tive que vender tudo que eu tinha – minha casa e meu carro – para poder chegar no Brasil e proteger a minha família. Eu não tive outra escolha”.

O fluxo de refugiados e migrantes que cruzam da Venezuela para o Brasil aumentou exponencialmente nos últimos cinco anos, com 200 mil pessoas que chegaram ao país desde o início de 2017. Destes, mais de 100 mil já se mudaram. Todavia, 98 mil ainda se encontram no país e cerca de 500 pessoas chegam no Brasil todos os dias.

Abrigos em Pacaraima e Boa Vista se encheram rapidamente, levando o governo federal a buscar novas soluções que permitissem que mais venezuelanos fossem ajudados ao cruzar a fronteira, e que oportunidades fossem dadas para aqueles que já estão aqui recomeçarem suas vidas nas cidades de todo o Brasil.

A cidade de São Paulo lidera o processo que já acolheu mais de 3 mil venezuelanos interiorizados em todo o Brasil. Conhecida por sua diversidade, após décadas recebendo refugiados e imigrantes, a megacidade é hoje o lar de 532 venezuelanos que chegaram por meio da parceria do município com o governo federal e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

“Ambos, empresas e refugiados, aproveitaram essa oportunidade para crescer e se desenvolver”

Quando González chegou pela primeira vez em São Paulo, ele recebeu uma cama em um abrigo no bairro de São Mateus, onde o governo municipal havia se preparado para receber pouco mais de 200 venezuelanos. Agora, 164 pessoas estão abrigadas. Este fato deve-se aos programas urbanos projetados para ajudar os recém-chegados a recuperar sua independência, por meio de aulas de idiomas e oportunidades de trabalho, dando a eles o necessário para se mudarem para suas próprias casas e abrindo espaço para outros que queiram recomeçar em São Paulo.

Gonzalez foi contratado pela Doxs depois de se inscrever para o programa Trabalho Novo, que já ajudou cerca de 100 venezuelanos a encontrar trabalho em São Paulo. Ele é um dos 74 que conseguiram sair do abrigo e alugar seu próprio apartamento.

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Gonzalez revisita o Centro Transitório de Acolhimento (CTA) em São Paulo. Antes de se mudar para sua própria casa, morou no CTA em São Mateus por cerca de seis meses. © ACNUR / Gabo Morales

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Gonzalez, ex-proprietário de uma construtora na Venezuela, revisita o Centro Transitório de Acolhimento (CTA) em São Paulo. © ACNUR / Gabo Morales

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Gonzalez fala com os atuais moradores do Centro Transitório de Acolhimento (CTA) em São Paulo, onde morava. © ACNUR / Gabo Morales

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Gonzalez faz aulas de português na escola municipal EMEF José Maria Whitaker, em São Paulo. © ACNUR / Gabo Morales

“Isso mostra que a melhor maneira de ajudar e apoiar alguém em situação de refúgio é dando-lhe emprego para poder desenvolver sua autonomia”, diz Filipe Sabará, secretário de Desenvolvimento e Assistência Social de São Paulo, que coordena o programa Trabalho Novo. “Tivemos um feedback muito bom de empresas que contrataram refugiados da Venezuela. Ambos, empresas e refugiados, aproveitaram essa oportunidade para crescer e se desenvolver”.

São Paulo não está sozinha em seus esforços para ajudar os 25,4 milhões de refugiados do mundo, dos quais cerca de 60% vivem em campos, cidades e áreas urbanas das Américas, Europa, Oriente Médio, África e Ásia.

Uma rede global crescente de cidades está optando por acolher os refugiados e as oportunidades que eles trazem. De Viena a Erbil, essas Cidades de Luz estão dando aos refugiados a oportunidade de aplicar seus talentos e se tornar parte da sociedade.

Prefeitos, autoridades locais, empresas sociais e grupos de cidadãos estão na linha de frente da resposta global dos refugiados, promovendo a coesão social, protegendo e auxiliando as pessoas forçadas a se deslocar em seus meios.

Nos dias 18 e 19 de Dezembro, o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Filippo Grandi, sediou o evento do 11° Diálogo do Alto Comissariado em Genebra, que teve foco no papel das cidades na proteção dos deslocados urbanos.

Entre as barreiras que os refugiados recém-chegados enfrentam em São Paulo está o idioma, que a cidade também está ajudando a superar. O Portas Abertas é um programa que oferece aulas de língua portuguesa para refugiados recém-chegados e migrantes de todas as nacionalidades.

Para Eyad Mohamed Dabour, um refugiado palestino e engenheiro de computação que foi forçado a fugir da Líbia há cinco anos com sua esposa e filhos, essas aulas permitiram que ele se sentisse parte da comunidade e lhe deu as habilidades necessárias para abrir um negócio de paisagismo.

“Sem essas aulas, eu não teria conseguido abrir meu negócio”

“As aulas oferecidas pela cidade são as melhores que eu já tive”, diz Dabour, que trabalhou como professor de informática por 18 anos. “Eles são ensinadas por professores qualificados e as turmas não são muito grandes. Agora posso falar com meus funcionários, meus clientes. Sem essas aulas, eu não teria conseguido abrir meu negócio”.

O engenheiro civil Gonzalez é mais do que qualificado para trabalhar no armazém da empresa. Mas ele espera poder crescer na empresa, algo que a Doxs se orgulha em ajudar seus funcionários, particularmente aqueles que chegam como refugiados. A empresa também emprega dois venezuelanos e haitianos, todos contratados por meio do programa Trabalho Novo.

Mas para Gonzalez, a Doxs não é apenas um lugar para trabalhar. Enquanto seu salário o sustenta no Brasil e lhe permite enviar dinheiro de volta para sua esposa, filhos e netos na Venezuela – que ele espera trazer para São Paulo nos dois primeiros meses de 2019 – ele também o ajudou a se tornar parte de uma comunidade.

Quando ele começou seu trabalho, Gonzalez levava três horas para ir do abrigo em São Mateus para trabalhar em Guarulhos. A viagem era desgastante e Gonzalez já chegava exausto para iniciar seu turno às 8 da manhã. Mas seus colegas tinham uma solução.

Um deles sabia de um apartamento disponível para alugar nas proximidades. González não podia pagá-lo por conta própria, então ele passou a dividir o aluguel com José Alberto Sucre Bello, outro venezuelano que trabalha na Doxs, e seu genro, que trabalha em uma cozinha de hospital. Seu trajeto agora é apenas uma caminhada de 20 minutos.

O venezuelano Johnny José Gonzalez descarrega um caminhão de carga ao lado de seu gerente brasileiro, Everton Freitas, no centro de logística da DOXS em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. © ACNUR / Gabo Morales

Seus colegas não pararam por aí. Eles se uniram para ajudar González e Bello a mobiliar sua nova casa, cada um doando algo: de uma geladeira e um fogão, a colchões e uma mesa e cadeiras. Novos amigos ajudaram também – os sapatos que González está usando foram dados a ele por um vizinho.

“Eu ganhei uma família no Brasil”

“Eu não esperava ser abençoado e receber tanto apoio e afeto”, disse Gonzalez. “Eu ganhei uma família no Brasil.”

Mas os amigos brasileiros de Gonzalez e Bello insistem que ganharam muito mais do que deram ao trabalhar e conviver com os colegas venezuelanos.

“Acho que nós, como empresa, aprendemos mais com eles do que eles com a gente”, diz Everton Freitas, gerente de operações da Doxs, que trabalha em estreita colaboração com Gonzalez e Bello.

“Aprendemos algo novo com eles todos os dias. Eles nos ensinam sobre sua cultura, sobre ser proativo. Eles compartilham muito conosco e nos tornamos melhores por causa deles. ”