Mulher warao compartilha seus conhecimentos em oficina de artesanato indígena em São Paulo

Sesc Belenzinho realizou a oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti”, com participação de mulheres indígenas das etnias Warao e Macuxi que vieram de Pacaraima, Roraima, para São Paulo.

Maricela, indígena Warao que atualmente é solicitante de refúgio no Brasil, expõe seu artesanato durante a realização de uma oficina realizada pelo Sesc, em São Paulo. © ACNUR/Miguel Pachioni.

Antes mesmo do primeiro dia de aula, as vagas já estavam esgotadas para a oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti”, realizado pelo Sesc-SP, na unidade do Belenzinho, região central de São Paulo. A grande procura reflete o interesse da população paulistana em aprender técnicas de trançado e pintura de duas etnias indígenas, Warao e Macuxi.

São muitas as diferenças sociais, culturais e regionais entre as duas etnias. Os Macuxi habitam a região de fronteira entre o Brasil e a Guiana, ocupando áreas de campo e de serras no extremo norte do estado de Roraima e o norte do distrito guianense de Rupununi. Já os Warao são provenientes do Delta do Orinoco, nordeste da Venezuela e desde 2016 passaram a viver na cidade fronteiriça de Pacaraima/RR, como resultado da delicada situação da Venezuela. Em comum, as etnias utilizam as fibras do Buruti, uma palmeira amazônica, como forma de produção de artesanatos e geração de renda.

“Nossa comunidade já estava estabelecida em Pacaraima e com a chegada dos Warao, que se caracteriza como uma migração forçada pelas dificuldades que eles enfrentam na Venezuela, entendemos que seria preciso os integrar em nossa rede. Esse é um importante passo para promover sua autossuficiência, sendo o artesanato um caminho possível”, disse a macuxi Marineide, de 49 anos.

Maricela é uma das atuais seis artesãs Warao que integra esta troca de saberes entre ambas etnias. A proposta, idealizada por Marineide, é de buscar fortalecer o trabalho e a comercialização conjunta dos variados artesanatos que são produzidos, como cestarias, bolsas, miçangas, colares e outros produtos feitos à mão.

“Estou muito feliz de estar aqui em São Paulo para mostrar um pouco de como o nosso trabalho é feito. É muito bom também saber do interesse das pessoas daqui, que valorizam nossos saberes. Solicitei refúgio no Brasil e é difícil ter que recomeçar a vida, sem perspectivas de quando poderemos voltar para o nosso país com segurança. Espero que, por meio do artesanato, consigamos nos manter”, disse a artesã.

A artesã indígena Maricela instrui as participantes da oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti” em São Paulo, compartilhando seus conhecimentos sobre o traçado e identidade Warao. © ACNUR/Miguel Pachioni

O abrigo Janokoida (que em Warao significa “casa grande”), localizado em Pacaraima, abriga cerca de 420 indígenas Warao e busca os integrar à sociedade urbana. Gerido pela organização não governamental Fraternidade, parceira do ACNUR, além do abrigamento busca-se garantir os direitos básicos dessa população e, da mesma forma, propiciar meios para que suas culturas e tradições sejam preservadas.

“Em Janokoida, onde estão registradas 40 mulheres indígenas artesãs, distribuímos alimentos uma vez por semana para que nos demais dias elas possam prepar sua própria comida, conforme sua tradição. Esta prática possibilita que não se tornem dependentes da ajuda humanitária, propiciando também a manutenção dos vínculos culturais e hábitos sociais”, afirma Rafael Levy, chefe do escritório do ACNUR na cidade fronteiriça.

Como facilitador do processo de adaptação dos Warao, a administração do abrigo promove ações socioeducativas, incentiva a prática de esportes e oferece aulas de português, história, educação cidadã, além de orientações sobre higiene e saúde. Apesar das importantes iniciativas de integração, o grande dilema para fortalecer a troca de saberes entre as diferentes comunidades indígenas é o custo de transporte entre o abrigo Janokoida e a comunidade Macuxi

“Contamos com a solidariedade de pessoas que, por vezes, realizam o transporte das mulheres do abrigo Janokoida para a nossa comunidade. Nossa ideia era de realizar uma atividade todo final de semana, mas por conta dessa dificuldade, os encontros só acontecem a cada quinze dias, dependendo da disponibilidade de caronas”, afirma Marineide.

Ao saber desta dificuldade no norte do país, a aposentada Eunice, que participou da oficina de artesanato do Sesc-SP, reforça o potencial desta troca de saberes para que as identidades das etnias sejam preservadas e novos conhecimentos sejam compartilhados.

“Sou aprendiz de artesã e nunca havia tido contado com essa arte de cestarias. É impressionante o cuidado dos traçados, a forma sustentável como são utilizados os materiais naturais, o conhecimento por trás de cada gesto. E o produto final, é mesmo lindo”, afirma Eunice.

A oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti” terminou na última sexta-feira, dia 25, quando a cidade de São Paulo comemorou 465 anos. Um bolo comemorativo desta data e pelos artesanatos que foram feitos ao longo da oficina simbolizou o agradecimento da turma às mulheres indígenas. Estas, por sua vez, regressarão à Pacaraima com o sentimento de que seus saberes são muito valorizados na maior cidade da América do Sul – e seguramente os serão em qualquer cidade que sejam apresentados.

O ACNUR atua de forma articulada para integrar em seu plano de trabalho os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), incorporando a Agenda 2030 para promover sociedades pacíficas, justas e inclusivas, livres do medo e da violência. O descritivo dessa matéria se relaciona diretamente com o Objetivo #5 – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.