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Eritreus menores de idade reencontram a mãe após odisséia de oito anos

Kedija, 15 anos, e Yonas, 12, sobreviveram a sequestro, detenções e uma travessia marítma fracassada antes de finalmente se reecontrarem com a mãe na Suíça.

Kedija, 15 anos, e Yonas, 12 anos, sobreviveram a sequestros, detenções e uma travessia marítima fracassada antes de voltarem para a mãe na Suíça.

30 Jan 2019

Em março de 2018, enquanto eles estavam esquecidos em um centro de detenção na cidade líbia de Misrata, a épica tentativa de Kedija* e seu irmão Yonas de se reunirem com a mãe na Suíça depois de oito anos de separação tinha tudo para dar errado.


Até aquele momento, os irmãos da Eritréia – de apenas 15 e 12 anos – foram forçados a fugir de sua terra natal, sobreviveram sozinhos em um campo de refugiados etíope, foram capturados por sequestradores e finalmente chegaram a bordo de um navio que atravessava o Mediterrâneo para a Europa, apenas para serem interceptados e devolvidos à Líbia.

Mas graças à obstinação de sua mãe, Semira, a intervenção de governos e agências humanitárias – e uma grande porção de sorte-, hoje as crianças estão na Suíça, nos braços de sua mãe mais uma vez.

“Eu nunca perdi a esperança de me reunir com meus filhos novamente.”

“Apesar de termos ficado separados por mais de oito anos, nunca perdi a esperança de me reunir novamente com meus filhos”, disse Semira, apertando-os com força, como se ainda pudessem desaparecer, com lágrimas de alegria e alívio percorrendo seu rosto sorridente.

Para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), tudo começou com uma ligação para a equipe da Líbia do Serviço Social Internacional – uma ONG suíça especializada em questões de proteção infantil –, a quem Semira contatou para obter ajuda.

Sabendo apenas que as crianças estavam sendo mantidas em algum lugar do país, e com apenas seus nomes e uma foto desatualizada para identificá-las, o pessoal do ACNUR e de ONGs parceiras começaram a vasculhar todos os centros de detenção a que eles tinham acesso.

Mas com uma estimativa de 3,8 mil refugiados e solicitantes de refúgio sendo mantidos em dezenas de centros de detenção oficiais em todo o país, e outros sendo capturados por grupos armados e traficantes de seres humanos, as chances de encontrá-los eram escassas.

Quando o assistente sênior de proteção do ACNUR, Noor Elshin, se deparou com duas crianças magras e pálidas no centro de detenção Karareem, em Misrata, elas pareciam tão diferentes dos rostos felizes e saudáveis da foto que a equipe recebeu, que foi um choque saber que eles tinham realmente encontrado Kedija e Yonas.

“Isso é como encontrar uma agulha no palheiro”, Noor disse. “Apesar de vê-los na minha frente, eu ainda não podia acreditar que nós realmente os encontramos.” Pouco depois, Semira recebeu a ligação pela qual ela estava orando – seus filhos foram encontrados.

A odisséia da família começou em 2010, quando Semira foi forçada a fugir da perseguição na Eritréia. Em vez de arrastar seus filhos para o desconhecido, ela tomou a difícil decisão de deixá-los com os avós enquanto procurava um refúgio seguro para a família.

Depois de cinco anos de relativa estabilidade, em 2015 Kedija e Yonas também foram forçados a fugir da insegurança em Eritréia e cruzar a fronteira para a Etiópia. Semira perdeu contato com eles por vários meses enquanto seu irmão, que também estava na Etiópia, procurava desesperadamente por sua sobrinha e sobrinho.

Ele eventualmente encontrou-os vivendo sozinhos em um campo de refugiados próximo à fronteira da Etiópia com a Eritréia e prometeu fazer tudo o que pudesse para reuni-los com sua mãe, que agora estava morando na Suíça.

Em meados de 2017, as crianças e seu tio partiram em sua perigosa e incerta jornada para encontrar com Semira. O trio enfrentou altas temperaturas, sede e fome enquanto pediam caronas em caminhões e ônibus pela Etiópia e pelo Sudão, esforçando-se para chegar à costa sul do mar Mediterrâneo.

No entanto, os acontecimentos tomaram um rumo sombrio na fronteira do Sudão com a Líbia, onde o grupo foi violentamente sequestrado por contrabandistas, que descobriram que a mãe das crianças viviam na Suíça e exigiram resgate para libertá-los.

Membros da equipe do ACNUR defenderam a libertação de dois jovens eritreus do centro de detenção de Karareem, perto de Misrata, para reuni-los com a mãe na Suíça. © ACNUR/Sufyan Ararah

Quando Semira foi incapaz de atender às demandas financeiras dos criminosos, Kedija e Yonas foram separados de seu tio antes de serem vendidos de um contrabandista para outro, aterrorizados e ficarem mais vulneráveis do que nunca.

Então, um dia, várias semanas depois de sua provação, os irmãos foram inesperadamente libertados e deixados vagando perdidos e sozinhos no vasto deserto da Líbia. Milagrosamente, eles foram descobertos e acolhidos por um grupo de companheiros eritreus, que também planejavam embarcar para a Europa e prometeram levá-los com eles.

Quando o barco foi interceptado e as crianças devolvidas para a Líbia e detidas, eles puderam ligar para sua mãe, que nessa época estava frenética de preocupação. “Passei dias e noites rezando por eles, apesar de todos ao meu redor perderem as esperanças, até o dia em que ouvi a voz da minha filha pela primeira vez em vários meses”, lembrou Semira.

“De repente, oito anos de preocupação e saudade desapareceram.”

Depois que o ACNUR rastreou as crianças, o governo suíço concordou em conceder-lhes vistos humanitários para se juntarem à mãe. O ACNUR trabalhou com as autoridades da Líbia e da Tunísia para organizar a documentação necessária para a libertação e transporte de Kedija e Yonas para a Suíça através da Tunísia.

Na manhã que a equipe do ACNUR entrou no centro de detenção para levar as crianças em sua última viagem de volta para a mãe, a história delas era bem conhecida entre todos. Eles deixaram o centro com os cantos e torcidas alegres de seus companheiros eritreus.

Menos de 24 horas depois, após um pernoite em Túnis, onde a embaixada suíça lhes forneceu os documentos de viagem, Kedija e Yonas aterrisaram na Suíça, onde uma ansiosa e animada Semira esperava por eles.

Captando a primeira imagem de seus filhos cansados e desorientados no portão de desembarque do aeroporto, oito anos de preocupação e saudade desapareceram enquanto ela corria até eles e se enterrava em seus abraços em êxtase; seguros, felizes e reunidos, finalmente.

 

*Todos os nomes foram alterados para fins de proteção

 

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