Angelina Jolie pede fim às injustiças que levaram quase um milhão de rohingyas ao exílio em Bangladesh

Ao visitar o maior assentamento de refugiados do mundo, a Enviada Especial do ACNUR ouviu depoimentos de refugiados rohingya e pediu pela expansão do acesso à educação para as crianças rohingya.

Angelina Jolie conhece Jorina, uma órfã rohingya de 18 anos que foi forçada a fugir de Mianmar para o campo de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh, algumas semanas antes. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

Angelina Jolie, Enviada Especial do ACNUR, ouviu nesta semana depoimentos de refugiados rohingya que suportaram anos de perseguição e discriminação em Mianmar e sobreviveram  uma jornada desesperada através da fronteira.


Ao falar no campo de refugiados de Kutupalong na terça-feira, Jolie disse, “Eu sou grata que aqui em Bangladesh, refugiados rohingyas têm a sua existência reconhecida, e estão sendo apoiados pelo governo e pelo ACNUR com documentação e prova de sua identidade – em alguns casos pela primeira vez em suas vidas.”

A visita marcou a 64a missão de Jolie com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) desde 2001, e sua primeira missão em Bangladesh. Ela se encontrou com rohingyas deslocados em Mianmar em 20015 e na Índia em 2006. Décadas de injustiça levaram quase 1 milhão de rohingyas a fugirem de suas casas em Mianmar e buscar refúgio em Bangladesh – maioria deles nos últimos 18 meses.

“Eu não conseguia dormir com segurança uma única noite… Finalmente, decidi fugir.”

Na terça-feira, em um centro de trânsito perto da fronteira, Jolie se encontrou com Jorina, uma jovem que chegou com amigos, uma delas grávida, algumas semanas antes. Com apenas 18 anos, Jorina falou de uma impressionante série de infortúnios. Como rohingya, ela nasceu apátrida. Duas tragédias subsequentes – a morte de sua mãe muitos anos atrás e o assassinato de seu pai em dezembro – fizeram dela uma órfã. Agora ela é uma refugiada, também.

“Perdi meus pais. O que mais eu poderia fazer?”, disse ela. “Eu não conseguia dormir com segurança uma única noite… Finalmente, decidi fugir.”

Jorina também tinha boas notícias para compartilhar. Menos de 24 horas antes, ela encontrou sua irmã mais velha, que havia chegado a Bangladesh há alguns meses. Além disso, ela ajudou sua amiga Nurkayda a dar à luz a uma menina saudável em um hospital próximo.

“Nós nunca teríamos acesso a esses tipos de serviço e atendimento em Mianmar”, disse Jorina. “O que sofremos, não podemos permitir que nossos filhos passem pela mesma situação.”

Um conjunto de sandálias deixadas do lado de fora da sala de aula por alunos em um centro de aprendizado informal no campo de refugiados de Kutupalong. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

 

Mais tarde no mesmo dia, Jolie se encontrou com crianças rohingyas em um centro de aprendizado feito de bambu. A casa, de dois andares, fica, entre as densamente povoadas colinas do campo de refugiados de Kutupalong. Desde o último fluxo, que começou em agosto de 2017, sua população aumentou para mais de 620 mil pessoas, mais do que qualquer outro campo de refugiados do mundo. A maioria das crianças presentes nunca tinham posto os pés em uma sala de aula antes de virem para Bangladesh. De volta para casa, seus pais disseram a Jolie, que a educação está fora de alcance para a maioria do rohingya, frequentemente proibida, cobrada ou desencorajada com ameaças físicas.

A maioria das crianças presentes nunca tinham posto os pés em uma sala de aula antes de virem para Bangladesh.

Até mesmo este local, um centro informal de ensino construído em dois andares para fazer um uso eficiente do espaço limitado do campo, não oferece o tipo de educação que eles precisam: um currículo estruturado que leve a qualificações reconhecidas e que permita que as crianças moldem seus próprios futuros, e, quando as condições permitirem, reconstruam suas comunidades em Mianmar. O ACNUR está trabalhando para expandir o acesso à educação e melhorar a qualidade dos materiais de ensino e aprendizagem dentro do campo.

No campo de refugiados de Chakmarkul, em Bangladesh, Angelina Jolie, enviada especial do ACNUR, conversa com mulheres rohingya que sobreviveram à violência sexual em Mianmar. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

Jolie começou sua visita na segunda-feira, passando a tarde em Chakmarkul, um campo consideravelmente menor que abriga cerca de 12 mil refugiados. Em um centro comunitário, ela passou um tempo com um grupo de mulheres refugiadas que sobreviveram à violência sexual e outras violências de gênero, inclusive estupros coletivos.

“Quando estamos juntas, nós conversamos sobre nossa dor”, uma das mulheres disse. “Compartilhamos nossos pensamentos e tentamos consolar, cuidar umas das outras. Mas à noite a dor volta, e ficamos apavoradas. É uma grande dor que sempre nos assombra.”

“À noite a dor volta, e ficamos apavoradas. É uma grande dor que sempre nos assombra.”

O apoio psicossocial pode ajudar muito as sobreviventes, mas a violência que essas mulheres sofreram não é sua única fonte de sofrimento. A falta de cidadania também é uma fonte de trauma.

Questionada sobre retornar à Mianmar, uma mulher disse a Jolie, “Você teria que atirar em mim onde eu estiver antes de eu voltar sem meus direitos”.

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Enquanto a vida no campo continua, Minara, uma jovem rohingya de Mianmar, faz uma pausa no final da tarde sob a luz do sol no campo de refugiados de Kutapalong, em Bangladesh. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

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Jovens rohingyas jogam uma partida de futebol em uma clareira no campo de refugiados de Chakmarkul, em Cox’s Bazar, em Bangladesh. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

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Refugiados rohingya trabalham para construir terraços em uma encosta no campo de Chakmarkul para evitar deslizamentos e proteger a estrada e os abrigos abaixo das enchentes. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

 

Subindo uma das muitas colinas íngremes de Chakmarkul, Jolie também se sentou com Hosne, uma jovem viúva com dois meninos pequenos. Hosne começou a frequentar a escola em Mianmar aos sete anos, mas ela saiu depois de um mês devido a repetidas ameaças de estupro em seu caminho para a aula.

“Quando eu estava no ventre da minha mãe – essa foi a última vez que fiquei em paz”, disse Hosne, agora com 23 anos. “Não sei o que fizemos de errado para merecer isso.”

Ela diz ainda: “Eu não tive nenhuma experiência em que eu senti que eu sou uma cidadã ou tenha liberdade. Todo o tempo, nós apenas sofremos discriminação; eles nos tratam como gado. Se eu tivesse uma galinha, teria que pagar impostos. Se quiséssemos educação, você teria que pagar impostos. Não podemos nos mudar de um lugar para o outro.”

“Mesmo no tempo de nossos avós, a perseguição já estava acontecendo.”

Jolie também parou para conhecer oito jovens irmãos, de 3 a 22 anos, que estão de luro pela morte de seu pai, que sofrera um derrame fatal apenas três dias antes. Sua mãe, disseram eles, havia sido presa em Mianmar há mais de um ano e desde então eles não tiveram mais notícias dela.

“Sem pais é muito difícil sustentar meus irmãos, porque eu também sou jovem”, disse o mais velho, Mujibur, que agora é o homem da casa. Ele e sua esposa já estavam sobrecarregados criando a pequena filha no exílio, mas agora eles estão cuidando de uma família de 10 pessoas.

Mesmo assim, acrescentou ele, por enquanto eles estão melhores do que em casa, onde as condições tem sido difíceis. “Não podíamos nos mover livremente. Nós não podíamos orar juntos. Não podíamos nos encontrar em grupos de mais de três ou quatro pessoas. Nós não tínhamos permissão para ter acesso à educação. Se fazíamos alguma dessas coisas, éramos presos. Mesmo no tempos de nossos avós, a perseguição já estava acontecendo.”

Murshida, 33, escanea suas impressões digitais como parte do processo de registro conjunto no campo de refugiados de Kutupalong, enquanto seu marido e seus cinco filhos esperam sua vez. © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

Em Kutupalong, Jolie visitou um centro de registro em conjunto do governo de Bangladesh e do ACNUR, onde refugiados rohingya recebem registros biométricos de identidade. Para pessoas apátridas, esse é o reconhecimento mais forte de sua identidade que eles já receberam: um documento que os chama pelo nome, explicita seu direito de permanecer em segurança em Bangladesh, aumenta sua proteção e assistência e afirma seu direito de retornar voluntariamente para casa quando as condições estiverem certas.

Dirigindo-se aos refugiados rohingya no acampamento, a enviada especial Jolie disse, “Eu quero dizer que me sinto honrada e orgulhosa de estar com vocês hoje. Vocês têm todo o direito de viver em segurança, de serem livres para praticar sua religião e de coexistir com pessoas de outras religiões e etnias. Vocês têm todo o direito de não serem apátridas, e o modo como vocês foram tratados envergonha a todos nós.”