Família síria volta para casa e encontra cidade destruída pela guerra

Após oito anos de conflito, refugiados retornam aos poucos para regiões da Síria onde se sentem seguros; para muitos deles, o retorno é difícil e repleto de desafios.

O Alto Comissário para Refugiados, Filippo Grandi, encontra com retornada síria Zahilda, 35, e sua família no seu lar em Souran, na Síria. © ACNUR/Andrew McConnell

A vida como refugiada nunca foi fácil para Zahida, de 35 anos. Mãe de cinco filhos, ela cuida sozinha das crianças desde que seu marido desapareceu há alguns anos na guerra da Síria. Segundo ela, no Líbano, onde vivia após fugir de casa, as ofertas de trabalho eram escassas e o valor do aluguel, muito alto. No entanto, ao voltar para sua terra natal, Zahida se deparou com novas dificuldades.

“A destruição era indescritível. Inicialmente eu não reconheci minha cidade”, disse ela. Sua casa, em Souran, foi reduzida a escombros. Nem as janelas e portas existiam mais. “Não tinha água ou energia elétrica. Parecia que estávamos na idade da pedra. Mas de pouco em pouco, melhoramos as coisas.”

Zahida compartilhou sua história nesta quarta-feira (6) com Filippo Grandi, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, que visitou a Síria para identificar quais são as necessidades humanitárias que dos habitantes da região.

“A decisão de voltar é difícil. E precisamos respeitar que nem todos os refugiados e deslocados internos irão tomar rapidamente essa decisão”, disse Grandi. “Mas, para aqueles que decidirem retornar voluntariamente, vamos oferecer ajuda – pelo menos no que diz respeito às suas necessidades básicas e sua reintegração à comunidade”.

Em Souran, a menos de vinte quilômetros da cidade de Hama, o Alto Comissário se encontrou com diversas famílias que resolveram retornar de maneira voluntária após inúmeras mudanças que duraram anos. Grandi conversou também com um recém-formado grupo de mulheres, além de ter visitado a escola primária que abriu em outubro e uma padaria inaugurada em janeiro deste ano. Todas as iniciativas contaram com o apoio da agência da ONU para Refugiados (ACNUR), e seus parceiros.

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Filippo Grandi conversa com crianças na escola Al-Shuhada em Souran, na Síria. © ACNUR/Andrew McConnell

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Filippo Grandi experimenta pães frescos na padaria de Souran, na Síria. © ACNUR/Andrew McConnell

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Filippo Grandi se encontra com Abdelkarim e sua família em sua casa em Souran, na Síria. © ACNUR/Andrew McConnell

Mais de um milhão de sírios voltaram para casa

Antes do conflito, Souran era a casa de mais de 47 mil pessoas, entre elas fazendeiros, mercadores e trabalhadores. Quando grupos armados tomaram a região em agosto de 2016, a cidade ficou vazia do dia para a noite. Alguns moradores procuraram refúgio na Turquia e no Líbano, enquanto o restante das pessoas fugiu para Hama e outras cidades da Síria.

Abdelkarim está entre aqueles que foram para Hama, onde frequentes aumentos de aluguel forçaram sua família a se mover de lugar em lugar por mais de um ano. Ao retornar para Souran, ele encontrou sua casa repleta de entulho e sem nada de valor. “Não tinha portas, nem torneiras”, contou ele. “Até mesmo os pregos foram retirados”.

Com ratos e insetos atrapalhando o sono da família, Abdelkarim trabalha na recuperação da casa. Ele ergueu as paredes e com ajuda do ACNUR, instalou portas e janelas que garantem maior segurança.

Ao todo, cerca de 33 mil pessoas retornaram à Souran. A maioria são sírios que fugiram para outras áreas dentro do país. Pelo menos um terço dos antigos residentes da cidade estão vivendo em outros lugares.

Em 2018, estima-se que 1,4 milhão de sírios que foram deslocados internamente voltaram para casa, trocando uns desafios por outros. Mesmo assim, eles são a minoria. Após oito anos de violência e destruição, milhões permanecem deslocados internamente, com outros 5,6 milhões de refugiados ainda morando em países vizinhos e mais de um milhão de sírios espalhados por outras partes do mundo.

Reconstruindo a esperança

Zahida contou a Grandi que sua volta à Souran foi porque sua vida de refugiada estava impactando muito a vida dos filhos. Aos 14 anos, seu filho largou a escola para ajudar a sustentar a família trabalhando em uma barbearia. No entanto, o dinheiro ganho não foi suficiente para pagar a escola de suas irmãs, que estavam ficando atrasadas nos ensinos.

A casa da família de Zahida que ficava localizada em uma bela esquina da cidade, existe hoje apenas em ruínas. Um escada de concreto balança em meio aos destroços como um pêndulo, sustentado por alguns vergalhões. “Quando vi essa cena, foi um dos momentos mais tristes da minha vida”, explicou ela.

Agora a filha mais velha de Zahida frequenta aulas de recuperação escolar no novo centro comunitário, enquanto os três filhos mais novos estão na escola primária, que reabriu em novembro com a ajuda do ACNUR. Esta é uma das cinco escolas servindo a comunidade.

Quinze centros de ensino fecharam, principalmente por conta de danos estruturais. Como muitas crianças perderam meses e até anos de escola, as salas de aulas lotadas servem estudantes com diferença de idade entre dois e três anos.

Grandi também visitou a única padaria de Souran, que foi inaugurada em janeiro com o apoio do ACNUR. Anteriormente, a cidade tinha que comprar pão de um distribuidor a quilômetros de distância. Agora, o novo estabelecimento gerou 45 empregos e abaixou o preço do pão em 75%. A padaria então contratou um segundo turno de funcionários e utiliza 10 toneladas de farinha por dia, ajudando a alimentar mais de 12 mil pessoas.

O Alto Comissário conheceu um grupo local de mulheres que ajudou muitos residentes de Souran a voltarem para casa e reconquistarem o senso de comunidade e pertencimento. “Nós queríamos voltar para nossas casas, para nossa terra”, disse uma das mulheres. “Queremos recuperar nossa dignidade. Fora de nosso país, não é a mesma coisa”.

Zahida completa: “Estamos começando do zero. Esperamos ter força o suficiente para reconstruir nossas vidas, mas ainda vamos precisar da ajuda de outros”.

A política do ACNUR é ajudar pessoas deslocadas tanto dentro da Sìria como fora de suas fronteiras, e trabalha para assegurar que sírios que desejem retornar voluntariamente para seu país de origem recebam o apoio humanitário que tanto precisam.