Passei pela sua casa na Síria hoje, mas ninguém estava lá

Um homem anda de bicicleta pela área de Juret a-lshayah de Homs em março de 2019. ©ACNUR/Christopher Reardon

Após oito anos de guerra na Síria, eu visitei a casa onde meu amigo Hani Al Mulia crescera. Como muitas áreas de sua cidade natal, sua casa estava em ruínas.


Aquela noite, escrevi uma carta para Hani:

“Querido Hani,

Eu passei pela sua casa hoje, mas ninguém estava lá. Não tinha ninguém em casa. Seus pais não estavam lá para tomar um chá conosco e não havia sinais do seus irmãos ou irmãs. Seus vizinhos também não estavam.

Eu teria batido na porta, mas ela não está mais lá. Não apenas a porta, mas também as dobradiças e a armação que antes a prendia à parede. Os pisos estavam cheios de entulho.

Sinto dizer, mas o lugar estava em ruínas.

Você sabe, é claro, que eu não estou falando sobre a nova casa da sua família no Canadá, a oito fusos horários de distância. Eu me refiro à casa de dois andares onde você cresceu na Síria, aquela que você foi forçado há deixar seis anos e meio, quando se tornou um refugiado.

Estou em Homs, sua cidade natal. Lembro-me de você me contando sobre essa lugar quando te conheci no Líbano, abrigado com outros mil sírios no terreno de algum fazendeiro. A guerra estava acontecendo aqui, e você falou sobre como, antes de você fugir, sua mãe implorava que você não fosse à escola. Ela estava com medo que você fosse baleado ou tivesse sua garganta cortada assim como seu tio, tia e primo. Você me contou sobre os amigos que perdeu, as letras de rap que vocês costumavam escrever juntos, os poemas que costumava escrever. Você estava desesperado para continuar a estudar, e meus colegas e eu sentimos que sua história precisava ser contada.

Agora, eu estou aqui para entrevistar pessoas que estão lentamente retornando de outras partes do país depois de lutar por anos por segurança. A maioria deles está voltando para casa e encontrando ruínas. A épica escala de destruição me lembra do oeste de Mossul [no Iraque], onde encontrei uma situação similar no último verão: pessoas cansadas da guerra, traumatizadas por tudo que tinham enfrentado e ansiosas para recomeçar.

Uma família que encontrei hoje falou sobre sua dificuldade em encontrar um trabalho e abrigo nos últimos anos. Eles retornaram para seu apartamento no distrito de Al-Qusour alguns meses atrás, e ficaram arrasados ao ver que tudo o que deixaram para trás foi saqueado, queimado ou explodido. Detritos enchiam o local do chão ao teto.

Lentamente eles estão reconstruindo. Com a ajuda de meus colegas, Jihad e seus filhos instalaram janelas e portas para manter a família quente e segura. Jihad é um ferreiro e um faz-tudo por vocação e está ansioso para fazer mais. “Eu vou consertar cada uma dessas casas para vocês”, ele disse, gesticulando com suas mãos calejadas para as fachadas desmoronadas, subindo e descendo a rua. “Apenas me dê as ferramentas.”

Depois, ele e seus filhos me levaram até o telhado para ver seus pombos. Abdelmalek, que tem 12 anos, abriu as gaiolas e logo o grupo de 40 pombos estava sobrevoando a paisagem urbana com uma facilidade invejável.

Depois de assistir aos pássaros retornarem aos seus poleiros, eu peguei uma carona até a sua vizinhança e caminhei pela sua rua. Não havia nenhum carro estacionado. Parecia como se todo mundo tivesse feito as malas e saído de férias ao mesmo tempo. Mas eu sei que isso não foi nenhuma férias para nenhum de vocês.

Depois de oito anos de conflitos, metade da sua nação deixou suas casas. Vocês foram deslocados, frequentemente mais de uma vez. Hoje, 5,6 milhões de sírios ainda estão vivendo como refugiados em países vizinhos. Outros milhões continuam deslocados dentro da Síria. É um número relativamente pequeno que, como você, conseguiu uma segunda chance em outra parte do mundo.

Na sua rua, não havia nenhum cachorro ou gato perdido. Nem mesmo pássaros. O único som era o zumbido distante de uma serra cortando metal. Seu bairro, Hani, é uma cidade fantasma.

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A rua em que Heni vivia. ©ACNUR/Christopher Reardon

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A antiga casa de Hani. ©ACNUR/Christopher Reardon

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A porta da frente da antiga casa de Hani. ©ACNUR/Christopher Reardon

Quando cheguei na sua casa, fiquei na entrada e olhei para dentro, como um super-herói com visão de raio-x. Pensei naquele velho quebra-gelo nerd: se você pudesse escolher um superpoder, você preferiria ter a habilidade de ver através das paredes ou de voar? Depois do que eu vi hoje – o arco gracioso dos pombos de Abdelmalek e a visão sombria da sua sala vazia – eu sempre escolherei voar.

As portas do interior da casa também desapareceram, inclusive a do banheiro, com os azulejos azuis e brancos agora expostas para a rua. O teto da cozinha desabou, então eu consegui ver um dos quartos do segundo andar – talvez aquele em você costumava compor suas músicas e escrever suas poesias. Do lado de fora da janela da sua sala de estar, com uma pilha de vidro quebrados aos meus pés, fiquei de pé e olhei para o vazio.

É isso que acontece em uma zona de guerra. Toda vez que a luta se esgota, catadores chegam e pegam o que sobrou. Não apenas eletrodomésticos, móveis, panelas e frigideiras. Eles retiram a iluminação, as tomadas elétricas, os fios. Eles levam as portas e janelas, e as molduras de metal e madeira que as mantém no lugar.

Eles devem queimar a madeira para se aquecer ou utilizar como combustível para cozinhar. O resto eles trocam ou vendem como sucata, que deve ser vendida para ser derretida. Alguns deles, sem dúvida, procuram lucrar com a desgraça de outras pessoas. Mas a maioria, imagino, estão tão desesperadas quanto aqueles que fogem, apenas fazendo o que podem para sobreviver.

Mesmo nessa situação, Hani, sua casa em Homs está bem melhor do que aquele lugar em que você estava vivendo quando nos conhecemos cinco invernos atrás. Lembra daquele abrigo improvisado no Líbano, envolto em lençóis de plástico, com apenas o fogão a lenha para mantê-lo aquecido? Sua mãe nos serviu chá, e depois nós ficamos do lado de fora e olhamos para a Síria, aquele cume nevado tão perto que poderíamos ter caminhado ali em uma ou duas horas.

Considerei entrar em sua antiga casa, talvez eu pudesse encontrar algo que você deixou para trás? Um item que você valorizava antes ou um objeto do dia a dia que poderia te trazer lembranças. Então me lembrei como você fez questão de pegar as coisas mais importante antes de fugir: seu certificado escolar, que garantiu que você continuasse a estudar no exílio.

No final, eu não fui além da porta. Fiz treinamentos de segurança o suficiente para saber que poderia haver danos estruturais ou explosivos ali dentro, como o almofariz que meus colegas e eu encontramos algumas horas antes. Ou talvez eu simplesmente pisasse em um prego enferrujado. Mas, principalmente, parecia errado, como passar pelos destroços depois de um terrível acidente.

Hani e seu irmão Ashraf brincam do lado de foram de seu abrigo no Vale do Bekaa, no Líbano, em março de 2017. ©ACNUR/ Andrew McConnell

É aquela época do ano de novo, quando a mídia nos lembra que o conflito na Síria começou em 15 de março de 2011, mas nós dois sabemos que guerras raramente começam ou terminam com tanta precisão. Também sabemos que essa data tem outro significado para a sua família: é o dia em que seu irmão mais novo nasceu. É incrível a rapidez e o quão divagar esses oito anos passaram. Quanta dor eles trouxeram à sua família, e também um pouco de alegria.

Hani, por favor deseje um feliz aniversário a Ashraf por mim. E antes que ele sopre as velinhas, lembre-o de fazer um desejo. O maior desejo que ele pode imaginar. Faça um para você também.”

 

Christopher Reardon é o chefe de conteúdo multimídia da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Ele e seu time acompanham a história de Hani desde 2013.

Hani conversa com a apresentadora Anna Maria Tiremonti, nos estúdios CBC, em Toronto. Chris participou da entrevista por telefone, na Genebra.