“Ver a fome, mesmo com tanto desenvolvimento no mundo, mexe comigo”

Eloá Prado é Assistente de Proteção do ACNUR em Pacaraima, Roraima. Ela compartilhou momentos marcantes de sua experiência conosco.

Eloa Prado durante um atendimento no centro de recepção de Pacaraima, Roraima. © ACNUR/ Victor Moriyama

Eloá Prado, 33, trabalha há dez meses como Assistente de Proteção da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Pacaraima, na fronteira entre Brasil e Venezuela. Ao longo desses meses, ela já viveu momentos intensos diante da situação da Venezuela. Aqui, ela compartilha alguns momentos marcantes de sua experiência com o trabalho do ACNUR que salva vidas.


 

“Ao longo desses 10 meses de operação tenho uma coletânea de histórias marcantes. Foram nascimentos, restauração de laços familiares, empoderamento e superação, além de confrontação com a miséria humana. Ver uma mãe que não conseguia amamentar seu filho porque estava desnutrida me abalou. Ver a fome, mesmo com tanto desenvolvimento no mundo, mexe comigo.”

 

Eloa Prado durante um atendimento no centro de recepção de Pacaraima, Roraima. © ACNUR/ Victor Moriyama

 

Por que você se tornou uma trabalhadora humanitária?

Deixei uma carreira de mais de oito anos de advocacia e somei as minhas experiências para responder às necessidades e inseguranças humanas, não importam onde estejam. Foi quando trabalhei como voluntária com pessoas que tiveram que deixar suas casas que vi que conhecimento salva vidas. Eu me senti útil e motivada para buscar entender quem eram e o porquê das pessoas estarem movimento. Foi assim que fui estudar ajuda humanitária e cooperação internacional.

 

Por que esse trabalho é tão importante para você?

Minha função é garantir que as pessoas que cruzam a fronteira, se assim o desejam, tenham direito à acesso ao procedimento do refúgio, assim como sejam reconhecidas como sujeitos de direito para que tenham acesso à proteção e assistência.

 

Qual é a parte mais gratificante do seu trabalho?

A parte mais gratificante é dar dignidade para as pessoas. Me sinto recompensada diariamente quando recebo um sorriso, um abraço, um agradecimento, de crianças e adultos. Isso faz tudo valer a pena.

 

E a mais desafiadora?

 O mais desafiador é assegurar que o alcance da resposta humanitária seja feito com base nas necessidades. Isso significa ter que lidar com “nãos” para os nossos assistidos, quando essas pessoas já estão em situação de vulnerabilidade. Isso é um desafio cotidiano, porque você está lidando com vidas, no entanto, algumas mais vulneráveis do que outras.

 

Você pode nos contar um pouco sobre o impacto que a crise na Venezuela tem na vida de milhões de pessoas e como você presencia isso diariamente?

A crise na Venezuela atingiu a vida das pessoas no nível mais básico. O nível se insegurança humana comprometeu direitos sociais básicos, como alimentação, saúde, educação e segurança pública. As pessoas chegam frágeis, física e mentamente, e carentes dos serviços mais básicos de assistência. Desnutrição e desidratação são situações comuns de se ver. 

 

Qual o apoio fundamental oferecido pelo ACNUR nessa emergência?

Informação é a primeira resposta. Asseguramos que as pessoas possam participar ativamente do processo para se documentar. Garantimos acesso imediato e indistinto a itens básicos de sobrevivência como água potável, comida, abrigo e atenção médica, além de individualmente poder reconhecer alguma necessidade física ou legal de proteção específica. Nessa emergência, o ACNUR também tem o papel de criar condições para a coexistência pacífica entre ambas as comunidades, a que chega e a que acolhe.

 

Qual foi o seu melhor dia de trabalho?

O melhor dia foi também o mais estressante! Identificamos um grande número de famílias que estavam no alojamento temporário em Pacaraima e que seriam interiorizadas para um abrigo do ACNUR em Boa Vista. Ver tantas pessoas serem transferidas, compartilhar com elas a renovação de sua esperança, fez meu cansaço se converter em alegria.

 

Qual foi o seu pior dia?

Meu pior dia, em termos de estresse e exigência física, foi quando o ódio e mensagens de xenofobia se espalharam pela cidade de Pacaraima e escalou a tensão do fatídico dia 18 de agosto de 2018. O medo dos venezuelanos foi palpável. No entanto, graças à atuação de uma equipe coesa e de atores colaborativos conseguimos assegurar proteção imediata àqueles que precisaram. No final, o pior dia foi, contraditoriamente, o melhor por ter permitido conhecer nossas potencialidades.

 

Situação da Venezuela

Mais de 3,4 milhões de venezuelanos deixaram seu país desde 2014. O fluxo de pessoas aumentou em 2017 e, especialmente, em 2018. Este é o maior êxodo na história recente da América Latina, e as pessoas continuam a deixar a Venezuela devido à violência, insegurança, ameaças e falta de alimentos, medicamentos e serviços essenciais. A maioria são família com crianças, mulheres grávidas, idosos e pessoas com deficiência.

O ACNUR está respondendo as crescentes demandas enquanto o número de refugiados continua a aumentar. Nós trabalhamos para garantir que as pessoas mais vulneráveis estejam protegidas com abrigo, atendimento de saúde e documentação que os permitirá acesso a serviços, para que eles não vivam em situações precárias, expostos e em risco.

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