Amistoso entre Flamengo e Iranduba promove solidariedade a refugiados venezuelanos acolhidos em Manaus

O ator e ex-jogador Bruno Cabrerizo defendeu o time Lendas do Flamengo e espalhou solidariedade: “Admiro cada um de vocês e desejo que a vida aqui no Brasil seja cada vez melhor.” © ACNUR/César Nogueira

“Foi um dia inesquecível!”, disse Keyla ao sair do gramado da Arena da Amazônia instantes antes do início da partida entre Lendas do Flamengo e Amigos do Iranduba na última terça-feira, 30 de abril. O amistoso, que aconteceu durante a primeira edição do evento “Duelos na Arena”, contou com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) para promover, por meio do futebol, a solidariedade e acolhida à população venezuelana que vive atualmente em Manaus.

Após entrar em campo com seu novo time do coração, o Flamengo, a jovem venezuelana de 18 anos não conseguia esconder o sorriso de contentamento: o sonho de conhecer ídolos do futebol acabara de se tornar realidade.

Ela, que era atacante de um time semiprofissional de futebol feminino na Venezuela, veio para o jogo vestida com a camiseta do Flamengo e animada por retomar o contato com o esporte que lhe traz tanta alegria. Há 7 meses no Brasil, Keyla afirma que desde que conheceu o futebol nacional não torce mais para o Barcelona. “Nunca imaginei que estaria perto de jogadores tão experientes”, afirma.

Ela foi uma dos 5 jovens venezuelanos abrigados em Manaus que entrou em campo acompanhando os jogadores da nova e velha guarda do Flamengo e do Iranduba, time tradicional da cidade. O amistoso, que terminou com a vitória das Lendas do Flamengo por 9 a 2, aconteceu logo após a partida da sétima rodada do Campeonato Brasileiro feminino, no qual o Iranduba venceu por 3 a 2 o São Francisco.

Em um ato simbólico, Keyla entrou carregando a bandeira da Venezuela consigo para representar os outros 30 conterrâneos que assistiam na arquibancada. “É muito emocionante ver que somos bem recebidos aqui no Brasil”, afirmou a jovem, emocionada.

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“Nunca achei que estaria tão perto de jogadores tão talentosos”, afirma a jovem Keyla. © ACNUR/César Nogueira

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Venezuelanos abrigados em Manaus torcem pelo Flamengo no Duelos da Arena. © ACNUR/César Nogueira

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A torcida se organizou de verde e amarelo para homenagear o futebol brasileiro. © ACNUR/César Nogueira

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Crianças venezuelanas acompanharam a entrada dos jogadores do Lendas do Flamengo na Arena da Amazônia. © ACNUR/César Nogueira

Além de Keyla, outros venezuelanos que vivem atualmente no abrigo Oasis e Casa do Migrante Joao Batista Scalabrini acompanharam as partidas com bastante entusiasmo. Apesar dos chutes, ninguém acertou o “bolão” de palpites do resultado do amistoso. O Flamengo era favorito em todos os possíveis placares: 4×1, 8×7, 3×0, 5×2… Mas ninguém esperava pelo placar final de 9×2.

A goleada ficou dividida entre jogadores consagrados do time, como Athirson, Thiago Coimbra, Sávio Maurinho, Felipe Adão e Aloísio Chulapa. Também representando o Flamengo, entrou em campo o ator Bruno Cabrerizo, que atualmente interpreta o vilão Hussein Zarif na novela “Órfãos da Terra”, da Rede Globo. Ele, que também é ex-jogador profissional, foi convidado pelo pequeno Luis José para ser seu par na entrada em campo. Ao final, deixou uma mensagem para os hermanos: “Admiro cada um de vocês e desejo que a vida aqui no Brasil seja cada vez melhor.”

Como forma de apoiar o trabalho de organizações que abrigam e acolhem pessoas refugiadas em situação de vulnerabilidade, o Duelos na Arena ofereceu a entrada solidária, na qual os torcedores puderam doar alimentos que serão repassados a abrigos geridos pela Pastoral do Migrante de Manaus. A família de Blamon e Sheyla, por exemplo, aproveitou a paixão pelo esporte para demonstrar solidariedade e apoio aos refugiados e migrantes venezuelanos que vivem atualmente na capital. Mesmo com os ingressos garantidos, o casal e os 4 filhos fizeram questão de doar 6 kg de alimentos não perecíveis na entrada do estádio.

“Sabemos da necessidade que estão passando, e isso mexe com a gente. É importante termos solidariedade e promover a união, ao invés da separação. Doamos de coração”, afirma Blamon.

Para o futuro no Brasil, Keyla deseja concluir os estudos em geologia, mas afirma que o futebol sempre será sua grande paixão. Depois da partida, admitiu que ainda sente vontade de tentar jogar profissionalmente. “Quem sabe?”, diz, “a minha vida está recomeçando”.

Contexto

O ACNUR atua no norte do Brasil, oferecendo serviços de registro e informação, abrigamento e proteção para famílias venezuelanas em situação de vulnerabilidade, apoiando o Governo Federal na resposta emergencial. Muitas vezes, a ajuda prestada salva vidas. Atualmente, cerca de 6 mil venezuelanos moram nos abrigos apoiados pelo ACNUR, outras agências da ONU e organizações da sociedade civil. Lá, têm acesso a alimentação, água potável, atendimento psicossocial e espaços seguros para crianças.

Desde 2016, mais de 3,4 milhões de mulheres, homens e crianças foram forçados a sair do país. De acordo com dados da Polícia Federal, 14 mil solicitações de refúgio foram feitas em Manaus até o final de 2018.