Declaração de Angelina Jolie, Enviada Especial do ACNUR, sobre os mais de 4 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos

Enviada Especial do ACNUR, Angelina Jolie, fala na coletiva de imprensa no Centro de Assistência Integrado, em Maicao, na Colômbia, em 8 de junho de 2019. © ACNUR/Andrew McConnell

Em 2002, 2010 e 2012 estive no Equador visitando alguns dos muitos colombianos que fugiram de conflitos.

Eu dizia para as famílias que conheci que esperava um dia poder visitar a Colômbia, quando a paz permitisse que os refugiados retornassem para casa.

Hoje, encontrei refugiados colombianos que retornaram para seu país, mas não pelos motivos que eu esperava.

Mais de 400 mil colombianos, que foram deslocados para a Venezuela, agora foram forçados a retornar por conta da catastrófica situação lá.

Eles estão ao lado dos 1,3 milhão de refugiados venezuelanos que buscaram proteção na Colômbia.

Além disso, 3,3 milhões de venezuelanos estão atravessando a fronteira por curtos períodos para buscar suprimentos e assistência básicos.

O impacto em serviços púbicos aqui na Colômbia é impressionante.

Alguns hospitais da fronteira estão agora fornecendo assistência médica de emergência tanto para venezuelanos quanto colombianos.

Muitas escolas duplicaram o número de alunos em suas salas de aula.

“Essa é uma situação de vida ou morte para milhões de venezuelanos”

Mas a Colômbia ainda mantém sua fronteira aberta, e está fazendo tudo o que pode para um número sem precedentes de pessoas desesperadas.

Colombianos conhecem o deslocamento forçado muito bem.

Esse país experimentou cinquenta anos de guerra.

Seu acordo de paz tem menos de três anos, e é frágil.

É extraordinário que um país enfrentando tantos desafios próprios venha mostrando tanta humanidade e esteja fazendo esses esforços essenciais para salvar vidas. Quero reconhecer a coragem, força e resiliência do povo colombiano.

A situação aqui na Colômbia, no Peru e Equador coloca o debate e a retórica sobre questões de refugiado em muitos países pacíficos, inclusive o meu, em um contexto de humildade.

Apesar do que a retórica política costuma implicar, menos de 1% de todos os refugiados são reassentados em países ocidentais.

A vasta maioria das pessoas forçadas a fugir no mundo está deslocada dentro de suas próprias fronteiras ou cruzou para países vizinhos como a Colômbia.

Olhando em todo o mundo, parece que frequentemente aqueles que menos têm são os que mais doam.

O apelo humanitário do ACNUR e seus parceiros em dezembro do último ano está menos de um quarto financiado – 21% financiado, para ser exata.

Nesse meio tempo, o número de refugiados e migrantes venezuelanos subiu para mais de 4 milhões.

“Frequentemente, aqueles que menos têm são os que mais doam”

Essa é uma situação de vida e morte para milhões de Venezuelanos. Mas o ACNUR recebeu apenas uma fração dos fundos necessários para fazer o mínimo para ajudá-los a sobreviver.

Os países que os recebem, como a Colômbia, estão tentando administrar uma situação incontrolável com recursos insuficientes. Mas nem eles, nem os atores humanitários, como o ACNUR, estão recebendo os fundos de que necessitam para manter o ritmo do fluxo, e ainda assim fazem tudo o que podem.

Isso não acontece apenas na crise da Venezuela. Esta imagem de números crescentes e fundos em declínio é repetida internacionalmente.

Em 20 de junho, é marcado o Dia Mundial do Refugiado. O ACNUR espera outro aumento significativo nos números de pessoas deslocadas ao redor do mundo e uma queda no número de pessoas que conseguem retornar para casa – como a maioria dos refugiados que conheci desejam fazer.

Em vez de nos concentrarmos em como lidar com a lacuna na diplomacia, na segurança e na paz que está levando esse número de pessoas a se deslocar, ouvimos cada vez mais conversas sobre o que governos individuais não estão mais dispostos a fazer: receber refugiados ou requerentes de refúgio, ou contribuir com financiamento para as operações e recursos da ONU.

Com o número de refugiados em todo o mundo crescendo tão rapidamente, é ingênuo, na melhor das hipóteses, apresentar essas políticas como se fossem algum tipo de solução.

Quando a casa do seu vizinho estiver em chamas, você não estará seguro se simplesmente trancar a porta.

“Eu não vou esquecer o que vi aqui, não vou esquecer o povo venezuelano”

Liderança é sobre assumir responsabilidade, como as gerações anteriores a nós assumiram sua responsabilidade de lidar com ameaças a paz e segurança e construir um mundo baseado em normas e ordem. Precisamos desse tipo de liderança novamente, de forma urgente.

No meio tempo, não é possível colocar um valor no suporte que a Colômbia, o Peru e o Equador estão dando ao povo venezuelano, porque isso é a essência do que é ser humano.

A resposta humana é não ignorar. É reconhecer seus companheiros homens e mulheres em seus sofrimentos. É trabalhar em busca de soluções, não importa o quanto seja difícil.

E além de tudo, a resposta humana é não culpar uma vítima de guerra ou violência por suas circunstâncias, ou por seus pedidos de ajuda para suas crianças indefesas.

Hoje, precisamos dessa humanidade mais do que nunca, e do pensamento racional de pessoas que não têm medo de assumir responsabilidade e demonstrar liderança.

Essa será a minha mensagem quando deixar a Colômbia e nos próximos meses, enquanto tento acompanhar o que tenho observado nos últimos dois dias. Eu não vou esquecer o que vi aqui, não vou esquecer o povo venezuelano que conheci aqui. Meu coração está com eles e espero voltar em breve.