Terceira turma de jovens refugiados e migrantes recebe certificado de capacitação para os programas jovem aprendiz e estágio

Concluída a terceira turma, já são 27 jovens formados e preparados para o mercado de trabalho.

Estudantes, professores e parceiros posam para foto após entrega dos diplomas © ACNUR / Alan Azevedo

Na última sexta-feira (07), em Brasília, aconteceu a conclusão do terceiro ciclo de Oficinas de Criatividade para jovens refugiados e migrantes, promovido pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos/Irmãs Scalabrinianas (IMDH) e Centro de Interação Empresa-Escola (CIEE), com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e Fundação AVINA. A cerimônia contou com a participação dos jovens, organizações promotoras, pais e responsáveis, representante de empresa contratante e convidados.

A capacitação visa a inserção de jovens refugiados e migrantes no mercado de trabalho através dos programas de Estágio e de Jovem Aprendiz. Esta última turma foi composta por dezesseis jovens entre 14 e 24 anos, de oito nacionalidades: venezuelanos, haitianos, congoleses, togoleses, ganeses, sírios e angolanos.

O angolano Adelino Bambi se sente esperançoso com as oportunidades que surgirão após a formação nas oficinas. Para ele, que chegou ao Brasil há dois anos e teve que retomar os estudos secundários no EJA (Educação de Jovens e Adultos), a oportunidade de trabalhar representa tanto uma fonte de remuneração quanto de aprendizados que impactarão seu futuro. “Para mim, as oficinas ampliam as oportunidades de trabalho, pois me ensinaram maneiras de me portar e me apresentar que são distintas de Angola, mas também me ajudaram a pensar em novas formas de organizar meu futuro daqui para a frente, e isso é muito importante para a gente que chega de outro país”, diz.

Adelino Bambi já trabalhou como modelo e agora busca outras oportunidades © ACNUR / Alan Azevedo

Com a entrega de certificados aos 16 participantes e após o momento de confraternização, foi anunciado que quatro vagas já estão disponíveis para estes jovens. Segundo Ranyelle Braz, supervisora de Assistência Social do CIEE, três novas empresas foram sensibilizadas para a contratação desse público e a perspectiva é positiva. “Pessoas e culturas diferentes agregam valores essenciais para as empresas e muitas apostam na diversidade para atrair o público. Por isso, a contratação de jovens refugiados e migrantes é fundamental. Desta maneira, a nossa expectativa, a partir do diálogo que estamos desenvolvendo, é que consigamos ampliar o percentual dos 70% de contratação das turmas anteriores”, explica.

Os jovens que participaram das oficinas juntamente com brasileiros em situação de vulnerabilidade formam um grupo prioritário na política de indicação elaborada pelo CIEE. Sobretudo, considera-se que os jovens migrantes são também um apoio importante para a integração de suas famílias na sociedade brasileira.

O haitiano Herold Norceide (19), que foi contratado após a conclusão da primeira turma, conta que as oficinas estimularam os outros irmãos a irem em busca da capacitação e de oportunidades laborais. “Após a minha contratação, o meu irmão Andress também foi em busca das oficinas, na segunda turma, e agora, eu e ele estamos como Jovens Aprendizes na LATAM”, diz contente.

A primeira turma capacitou sete jovens e ocorreu entre janeiro e fevereiro de 2018. A segunda teve treze participantes e foi realizada em novembro e dezembro de 2018. Destes 13 jovens, três foram contratados pela LATAM, dois pela Caixa Econômica Federal e um pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Turma reunida na sala de aula, antes da formatura © ACNUR / Alan Azevedo

 

Um dos representantes da companhia aérea LATAM-Brasília, presente no encerramento da 3° edição da oficina, considera que a inserção de jovens migrantes na empresa aprimora o atendimento aos clientes e o desenvolvimento da empresa. “A diversidade dentro da nossa companhia é nosso propósito e um grande diferencial competitivo. Muitas vezes, pensamos que ao trazer um migrante ou refugiado para trabalhar com a empresa estamos fazendo somente um papel social, mas não, trazer uma pessoa com a cultura, com ideias e idiomas diferentes é de extrema riqueza para que a companhia tenha a sustentabilidade em seu negócio”, comenta.

O IMDH e as entidades parceiras celebram com grande satisfação este projeto de inclusão de jovens migrantes e refugiados. Para Ir. Rosita Milesi, diretora do IMDH, o projeto proporciona uma oportunidade promissora para a integração social e laboral de jovens migrantes e refugiados. “Além de poderem dar continuidade aos estudos, conseguem conciliar inserção laboral e preparo educacional, e ainda, apoiar as famílias com algum ingresso no conjunto da renda familiar. Os depoimentos dos jovens são sempre muito positivos e animadores, e nos estimulam a seguir com esse projeto, eficaz e muito promissor”, enfatiza.

Segundo Vanessa Tarantini, representante do ACNUR, a ideia é expandir o projeto. “Também estamos tendo os cursos em Boa Vista e Manaus e queremos levar para São Paulo. Essa iniciativa é muito importante para dar mais oportunidades a tantos refugiados e migrantes que vivem no Brasil”, diz ela.

Depoimentos dos formandos

Sebastien Hyppolite, de 18 anos, veio do Haiti e chegou ao Brasil há quatro anos. “Quando cheguei, fui bem recebido pelos brasileiros. Mas tive muita dificuldade de aprender português. Depois me acostumei com a língua e agora, depois de terminar o Ensino Médio aqui, vou entrar para a faculdade. Quero fazer arquitetura ou pedagogia, para ser professor de matemática”.

Sebastien Hyppolite diz que está há tanto tempo no Brasil que está se esquecendo da língua francesa, a segunda língua oficial do Haiti © ACNUR / Alan Azevedo

O haitiano se mostra muito agradecido com o curso. “Recebi orientação para ser um profissional melhor, aprendi vários conteúdos sobre o mercado de trabalho. Valeu muito a pena fazer o curso. Aprendi sobre postura no trabalho, como montar um currículo bom, trabalhar em equipe. Agora quero achar um bom emprego e pensar no meu futuro”, diz ele.

Seu colega e compatriota Yvenson Valentin, de 18 anos, está no Brasil há cinco anos e está estudando análise de desenvolvimento de sistemas. “Foi muito bom receber o diploma, me sinto muito feliz. Aprendi muitas coisas que eu não aprendi na escola. O certificado é importante para entrar no mercado de trabalho. Eu quero ficar no Brasil e ter um futuro aqui”.

Outro formando da terceira turma foi o congolês Ominamure Doe, de 40 anos, já não se inclui no “jovem aprendiz”, mas sim como estagiário. “Cheguei aqui em 2014 e fui trabalhar como técnico de ar condicionado. Agora estou na Universidade de Brasília, fazendo o 1º semestre de faculdade de Letras. Essa oficina é muito importante, porque eu quero trabalhar e estudar ao mesmo tempo, e como estagiário, isso é possível. Esse certificado do CIEE é muito importante porque ele me dá mais chance no mercado de trabalho”.