O que está mantendo Cate Blanchett acordada à noite?

Em entrevista exclusiva, Cate Blanchett fala sobre suas experiências com a Agência da ONU para Refugiados, as pessoas que conheceu durante suas visitas de campo e sobre como ser mãe colaborou e inspirou seu trabalho com refugiados

Cate Blanchett visita Rama, uma menina apátrida de nove anos que vive no Líbano, em maio de 2015. ©ACNUR/Jordi Matas

Atriz, vencedora do Oscar e mãe de quatro crianças, Cate Blanchett é a última convidada desta temporada vencedora de prêmios do podcast Awake at Night, produzido pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O podcast tem como foco indivíduos notáveis que são engajados em ajudar refugiados, e Blanchett, Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, tem se dedicado a causa desde 2014.

Em uma conversa franca e emocional com Melissa Fleming, Chefe de Comunicação Global do ACNUR, Blanchett reflete sobre suas experiências durante as visitas de campo que já realizou com o ACNUR. Ela se lembra de seu tempo na Jordânia, acompanhada por seu filho Iggy, onde conheceu refugiados sírios: “Na Jordânia você tem dois campos de refugiados [Azraq e Za’atari] e um deles é completamente estéril, é quase como uma paisagem lunar. Nós tivemos este almoço extraordinário com uma família extensa que esteve no acampamento por algum tempo. Um dos meninos estava saindo para jogar futebol. Mas havia um menino de 13 anos, muito envolvido, muito alegre, que não saiu”.

Iggy – interessado em jogar futebol com todos os garotos da família – estava curioso para saber por que o garoto alegre não se juntava a eles: “Expliquei que ele tinha uma ferida no pé; que ele tinha estilhaços no tornozelo quando foi baleado em sua jornada para lá. A cor sumiu do rosto de Iggy e você podia vê-lo tentando juntar as peças”.

Jovens refugiados sírios jogam futebol no campo de Azraq, na Jordânia. ©ACNUR/Jordi Matas

Lá, no árido e quente deserto jordaniano, pode ter sido o momento em que seu filho Iggy compreendeu o que significa ser um refugiado: “Acredito que, se você dissesse para ele de forma abstrata ou se tivesse lido em um artigo no jornal, ele teria pensado no menino em uma cama de hospital, incrivelmente depressivo, mas você podia ver que esse menino ainda estava cheio de esperança”.

Quando perguntada sobre como ser uma mãe a ajudou com seu papel como Embaixadora da Boa-Vontade, Blanchett disse: “Simplesmente por ser mãe, você cria uma conexão imediata e empática com a experiência das mães refugiadas e o que elas precisam fazer, os extremos que precisam chegar para tentar normalizar suas experiências, tão frágil quanto é para seus filhos”.

Cate Blachett se encontra com jovem refugiada rohingya em um centro de aprendizado temporário no assentamento de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh em março de 2018. ©ACNUR/Hector Perez

Como uma Embaixadora da Boa-Vontade do ACNUR, Blanchett ajuda a conscientizar e humanizar a questão do deslocamento forçado e da apatridia. Ela viajou com o ACNUR para conhecer refugiados no Líbano, Jordânia e Bangladesh, aprendendo em primeira mão sobre a experiência de pessoas em fugir de conflitos e perseguições, ou sobre os desafios da apatridia, e então transformando essas experiência em uma poderosa defesa e narrativa humana. Ela transformou estes testemunhos em filme e drama, e também em poderosos discursos em eventos de angariação de fundos, bem como em reuniões de alto nível, como no Conselho de Segurança da ONU e Davos.

O podcast Awake at Night tem como foco pessoas notáveis que se dedicam às causas humanitárias e que fornecem uma visão única e íntima sobre o seu trabalho. Eles revelam o que os impulsiona, o que aprenderam com as pessoas a quem ajudam e os desafios e esperanças que os mantêm acordados à noite.

Cate Blanchett com Alaa, 21, uma jovem refugiada síria no Líbano que está estudando para se tornar uma professora. ©ACNUR/Jordi Matas

Então, o que mantém Cate Blanchett acordada à noite? Quando perguntada sobre essa questão, ela descreve vividamente quando conheceu uma mulher síria, uma arquiteta, em um centro comunitário de refugiados no Líbano. A mulher, mãe de três filhos, disse às pessoas reunidas no centro que estava embarcando na semana seguinte com seus filhos para tentar chegar à Europa: “A sala ficou em silêncio e todos disseram: ‘Você sabe o quanto isso é perigoso.’ E ela disse: ‘Eu não tenho escolha! Meus filhos estão fora da escola. Eu não tenho escolha!’”. Blanchett continua: “Muitas vezes, para as pessoas que embarcam em barcos, não é o primeiro ponto de trauma. Eles experimentaram a fome. Eles foram baleados. Eles viajaram quilômetros sem ajuda médica. Seus filhos estão em péssimo estado de espírito, já traumatizados, quando entram no barco”.

“Eles estão fazendo isso porque estão pensando profundamente sobre o futuro de seus filhos. São as pessoas que estão se afogando e sendo levadas para as praias”.

“Pense. Pense nisso, enquanto você adormece”.

O trabalho de Blanchett com os refugiados também a expôs à imensa resiliência e coragem dos refugiados, apesar de suas difíceis circunstâncias. Isso a lembra de outro encontro: “Quando estávamos em Azraq, encontrei um jovem professor que tinha um filho de um mês de idade. Estava incrivelmente quente. Estávamos no deserto e eles fizeram a sua tenda. Ele me levou para um pátio, onde ele tinha plantado uma pequena árvore para sua filha. Ele andava por um longo tempo todos os dias para obter água suficiente para alimentar essa árvore. Apenas o amor que ele estava dando para essa árvore. Ele queria que crescesse e sabia que ele provavelmente estaria naquele campo por algum tempo. Ele estava falando sobre como essa árvore iria crescer e que iria sombrear sua filha. E isso me fez querer chorar. Eu pensei que era como a imagem essencial de esperança que um pai tem para sua filha. Ele queria que ela brincasse debaixo daquela árvore.

Awake at Night está disponível no Apple Podcasts, Spotify, Google Podcasts e Acast. Para mais informações, visite: unhcr.org/awakeatnight.