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Cursos profissionalizantes capacitam jovens venezuelanos para o mercado de trabalho no norte do Brasil

Promovidas pelo CIEE, ACNUR e SJMR e apoiadas pela União Europeia, oficinas aconteceram em Boa Vista e Manaus, com aulas sobre preparação de CVs, entrevistas de trabalho e postura profissional.

Por Allana Ferreira, de Boa Vista  |  5 Jul 2019

Carol Correa, 17 anos, recebendo seu certificado da Assistente Senior de Soluções Duradouras do ACNUR, Marília Cintra Correa. ©ACNUR/Allana Ferreira.

Mesa posta, microfones ligados, pais ansiosos com os celulares nas mãos e prontos para registrarem o momento mais esperado do dia. Após um mês de aulas, seus filhos estavam concluindo cursos profissionalizantes para ajudá-los a ingressa no mercado de trabalho brasileiro. Todos os alunos e alunas, assim como seus pais, são oriundos da Venezuela e chegaram ao Brasil em busca de assistência e proteção.

E numa cerimônia simples, a primeira turma de capacitação para jovens refugiados e migrantes venezuelanos da capital roraimense recebeu seus certificados de conclusão de curso. Ao todo, 20 alunos participaram das atividades em Boa Vista.

 

As Oficinas de Orientação para o Mundo do Trabalho são uma iniciativa do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o Serviço Jesuíta a Migrante e Refugiados (SJMR), que identificou e selecionou todos os participantes. O projeto também recebe o apoio financeiro da União Europeia por meio de seu Instrumento para a Estabilidade e a Paz (IcSP, sigla em inglês), que tem ajudado a fortalecer a resposta aos venezuelanos na região norte do Brasil, promovendo a convivência pacífica e a integração dessas pessoas.

Em Manaus, as oficinas contaram com a participação de 24 jovens venezuelanos. Na capital amazonense, além da parceria com o CIEE, ACNUR e SJMR, o projeto também contou com o apoio da Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas) e outras instituições.

Entre os temas ensinados durante o curso estão explicações sobre etapas dos processos seletivos no Brasil, dicas para entrevistas de emprego e de comportamento no ambiente de trabalho, preparação de currículos e dinâmicas de grupo sobre comunicação, liderança e trabalho em equipe.

As oficinas de capacitação estão preparando jovens venezuelanos para o mundo do trabalho como forma de promover a autossuficiência desta população no país. ©ACNUR / Allana Ferreira

Com o conhecimento adquirido nas oficinas, os jovens venezuelanos têm agora melhor capacidade para preparar seus currículos, destacando suas qualidades e pontos fortes. Também sabem como se portar nas entrevistas e quais os tipos mais comuns de perguntas que podem ser feitas – e como responde-las. Esse conhecimento permitirá aos participantes se sentir mais seguros quando procurarem por oportunidades de trabalho na região onde estão residindo.

Estas foram as primeiras turmas das Oficinas a se graduarem na região Norte do país, que tem recebido a grande maioria de refugiados e migrantes venezuelanos que buscam o Brasil em busca de proteção e assistência. Mas a parceria entre CIEE e ACNUR já acontece desde 2018, e outras três turmas já se formaram em Brasília – totalizando 27 jovens alunos.

Alunos venezuelanos, professores e apoiadores após a entrega dos certificados aos alunos das oficinas em Manaus. ©CIEE

O curso visa capacitar jovens na idade escolar e universitária (entre 14 e 22 anos) e prepara-los para entrar no mercado de trabalho brasileiro. Dicas de como procurar oportunidades de trabalho na região e aulas de português voltadas para a linguagem utilizada no mercado de trabalho também foram destaque no curso.

As oficinas ofereceram as ferramentas necessárias para os alunos terem autonomia na busca por oportunidades de trabalho. Além disso, o CIEE é um canal direto com várias empresas que têm interesse de acolher jovens aprendizes em programas de estágio.

“O que eu mais gostei foi a integração entre os alunos. Mesmo com a dificuldade do idioma, a gente tentava se ajudar, e quem sabia mais português ajudava quem chegou aqui há menos tempo e ainda está aprendendo”, diz Misael Jose, 17 anos, que mora em Boa Vista há mais de um ano com sua família.

Misael explica que vir para o Brasil fez diferença na sua forma de ver a vida. “Saímos da Venezuela antes da situação chegar ao nível que está hoje. Mas vejo muita diferença da forma que penso aqui e a dos meus amigos que ficaram lá. O país não oferece esse tipo de treinamento, e agora mal tem aula nas escolas e universidades. Então vários amigos meus têm que começar a trabalhar já depois do ensino médio e sem muitas perspectivas”.

A integração também é fruto da relação entre professores brasileiros com o estudantes venezuelanos, o que promove uma troca de aprendizado para ambas as partes. A instrutora de aprendizagem, Cinthia Nayara de Faria, se surpreendeu com a dedicação da turma durante as oficinas.

“O que mais me impressionou durante todo o curso foi ver a força de vontade de cada aluno. Mesmo com a barreira da língua, os desafios de chegar até o local, debaixo de sol ou de chuva eles sempre estavam aqui pontualmente”.

Carol Correa, 17 anos, recebendo seu certificado da Assistente Senior de Soluções Duradouras do ACNUR, Marília Cintra Correa. ©ACNUR/Allana Ferreira.

A jovem Carol Correa, 17 anos, afirma que o conhecimento adquirido durante o curso ultrapassou a sala de aula. Com o que aprendeu, ela vem ajudando os seus pais a procurarem oportunidades de trabalho em Boa Vista de forma mais adequada. “A aula que mais gostei foi a que nos ensinou a preparar um currículo. A minha mãe era gerente de empresa na Venezuela, é muito qualificada, mas não sabia como explicar isso aqui no Brasil. Com o que aprendi aqui, posso ajudar a minha mãe a se apresentar adequadamente como profissional”.

As cerimônias de formaturas em Boa Vista, Manaus e Brasília integraram o calendário de atividades de celebração do Dia Mundial do Refugiado (20 de junho) no Brasil. Entre elas, o lançamento do relatório Tendências Globais, que revelou uma população de 70,8 milhões de pessoas em situação de deslocamento forçado no mundo.

De acordo com o relatório, a situação da Venezuela é o mais recente e principal fator de deslocamento forçado, sendo que mais 4 milhões de venezuelanos já saíram do seu país desde 2015. A grande maioria necessita de proteção internacional para refugiados. No Brasil, são mais de 99 mil pedidos de refúgio e outros 68 mil pedidos de residência temporária apresentadas por cidadãos venezuelanos.

Neste contexto de alto fluxo de deslocamento, principalmente para os países vizinhos e mais afetados, parcerias entre governos, instituições civis, empresas e agências da ONU e organizações da sociedade civil são essenciais para a integração das pessoas que foram forçadas a sair de seus países.

“O ACNUR acredita que é importante investir na comunidade jovem refugiada, pois eles são o futuro de toda uma geração forçada a deixar seu país de origem”, ressalta Marília Cintra Correa, Assistente Sênior de Soluções Duradouras do ACNUR em Roraima. “O trabalho é fundamental para que as pessoas possam reconstruir suas vidas com autonomia, e essas parcerias permitem que oportunidades de capacitação alcancem a jovens e adultos”, complementa.

Formatura da primeira turma das Oficinas de Orientação para o Mundo do Trabalho, em Boa Vista. Iniciativa do CIEE, ACNUR e SJMR apoiada pela União Europeia facilita a integração econômica e social de jovens venezuelanos no Brasil. ©ACNUR / Allana Ferreira

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