“É fundamental mostrar que eles podem começar uma nova vida aqui”

Tainanda Oliveira é Assistente de Registro do ACNUR em Pacaraima, Roraima. A solidariedade foi o começo de tudo.

Tainanda Oliveira, assistente de Registro no ACNUR, em Pacaraima, no norte do Brasil. © ACNUR/Allana Ferreira

Tainanda Oliveira, 26, trabalha há dois anos no norte com os venezuelanos que chegam em Boa Vista e Pacaraima. Ela sentiu necessidade de ajudar os refugiados e migrantes ao ver tantas pessoas chegando ao país em busca de ajuda.


Por que você se tornou uma trabalhadora humanitária?

Tudo começou em agosto de 2017, quando passei na frente da sede da Polícia Federal de Boa Vista e vi que ali chegavam muitos estrangeiros que iriam se regularizar no Brasil e, por algumas dificuldades de comunicação, precisavam de ajuda. Então senti necessidade de ajudar, pois quis, de uma certa forma, agradecer a eles pelo carinho que tanto me deram quando vivi na Venezuela.

Passei sete meses como voluntária, onde pude ver de perto a situação e conhecer muitas histórias. Foi também como conheci o ACNUR, que me fez descobrir a incrível missão humanitária. Então, comecei a estudar, saber mais sobre a causa do refúgio e sobre como o ACNUR ajuda essas pessoas. Digo que me tornei uma agente humanitária por acaso, foi por necessidade, fui encorajada pela situação a ajudar os migrantes e refugiados e hoje nunca mais quero deixar de atuar.

E como é o seu dia a dia? E qual é a parte mais gratificante do seu trabalho?

Há pouco mais de um ano estou trabalhando na fronteira de Pacaraima com a Venezuela. Uma das minhas principais funções é assistente de registro: faço relatórios, também auxilio no preenchimento de formulário, passo informações e tiro dúvidas que as pessoas que estão chegando têm sobre o refúgio, então tenho contato direto com os venezuelanos.

As crianças são as que mais me tocam e me fazem refletir, entender que não estou atuando em uma ação humanitária simplesmente por vaidade. Precisei ter muita dedicação, compreensão, responsabilidade para poder recebê-los e para que eles sintam o acolhimento que tanto precisam ao chegar em um novo país. É muito gratificante ver como essas pessoas ficam felizes, com um sorrisão no rosto, agradecidas por terem conseguido se regularizar no país e poder recomeçar.

Você pode nos contar um pouco sobre o impacto que a crise na Venezuela tem na vida de milhões de pessoas e como você presencia isso diariamente?

Durante todo esse tempo na fronteira o impacto maior em relação a eles tem sido ver como chegam com fome, doentes, cansados, tristes e desiludidos com a situação de seu país. Isso porque o básico lhe foi negado: saúde, acesso a alimentação e medicamentos. Eles chegam sem conhecer o básico de seus direitos, mas com muitos sonhos, objetivos, expectativas e desafios a seguir. Com um enorme desejo de começar uma nova vida no Brasil.

É fundamental mostrar que eles podem começar uma nova vida aqui. E que todos têm direito a regularização migratória, podem obter documentos, como Refúgio, CPF, Carteira de trabalho e Cartão do SUS. Que eles podem contar com a gente para ajudar, tirar suas dúvidas, ter um espaço seguro. Estamos aqui para garantir o acesso básico a saúde, educação, alimentação e, para aqueles que são de extrema vulnerabilidade, abrigos para estarem em segurança.

Qual foi seu dia mais difícil no trabalho?

Foi em 18 de agosto de 2018, quando houve a manifestação da população de Pacaraima. Nesse dia eu pude ver de perto o medo e o desespero das crianças, adultos e idosos, as cenas foram muito fortes, pois nesse momento de aflição tiveram que deixar muitos pertences, alguns passaram mal. Eles tiveram que deixar tudo para voltarem forçados ao território venezuelano. Foi um dia que chorei muito porque eles foram expulsos de um lugar na qual na verdade deveriam ser acolhidos. Me senti incapaz e foi um dia que lamento saber que existiu.

Conta pra gente uma situação que tenha te emocionado.

Conheci uma jovem surda venezuelana e seu filho de um ano, que tinha microcefalia. Durante sua gestação, ela foi contaminada pelo vírus Zika. Lembro-me que a conheci quando ela chegou para tirar o permisso – primeiro documento obrigatório para a regularização no Brasil. Os agentes da Polícia Federal me apresentaram ela porque estavam com dificuldades para entende-la, e eu consigo falar o básico de língua de sinas venezuelana.

Quando conversamos pude entender que ela estava chegando ao Brasil porque já não conseguia ficar na Venezuela com o seu filho nessas condições e seu meu marido já estava no Brasil. Então a ajudei a preencher os formulários de refúgio, e em seguida fomos contatar o marido dela.

Foi o momento mais emocionante da minha vida. Para a minha surpresa, ele também era surdo, então a nossa ligação foi por chamada de vídeo. Ele ficou surpreso quando lhe informei que a família já estava no Brasil, ficou muito entusiasmado e os dois começaram a falar em sinais muito rápido. E o bebe, que tinha uma parte do corpo paralisado, ao ver o pai começou a sorrir muito e fazer um esforço para se movimentar.

Foi um dia inesquecível porque depois ela foi alojada em um abrigo temporário e em poucos dias viajou para Boa Vista, onde encontraria o marido para irem a Manaus, local onde ele já estava e onde já existe um local de atenção especifica a criança. Foi uma história muito diferente porque vi de perto o que uma mulher, mãe e ainda com deficiência passou para poder chegar na fronteira. Foram muitos desafios, mas ela não desistiu. Sem dúvidas é uma história inesquecível e que gostaria que todos conhecessem para saber que o trabalho aqui na fronteira é muito intenso, mas também é muito gratificante!

Seja um doador do ACNUR e nos ajude a proteger ainda mais famílias vulneráveis!