Separados por um conflito, primos centro-africanos anseiam por estudar juntos novamente

Gothier e Prince-Bonheur cresceram juntos, mas um conflito os separou; enquanto Gothier pôde retomar seus estudos, Prince permanece no exílio

Gothier, 23, e seu primo, Prince-Bonheur, 22, pescando no rio que separa a República Centro-Africana da República Democrática do Congo © ACNUR/Adrienne Surprenant

Prince-Bonheur Ngongou, naquela época com 17 anos, estava no meio de uma aula de francês quando ouviu tiros. O professor parou de falar enquanto o caos tomava conta da sala de aula.


“Nós demoramos alguns segundos para entender o motivo pelo qual as pessoas estavam gritando”, ele lembra.

Prince imediatamente correu para sua casa em Mougoumba, uma cidade ao sul da Região de Lobaye na República Centro-Africana. Ele chamou a mãe e os irmãos mais novos. Juntos, correram até o rio Ubangi para salvar suas vidas – o maior afluente do rio Congo – que tem em seu curso as fronteiras da República Centro-Africana, da República do Congo e da República Democrática do Congo.

Ao mesmo tempo, o primo de Prince e seu melhor amigo Gothier Semi, agora com 23 anos, estavam em sua casa, arrumando sua mochila para escola, quando ouviram os gritos. “Eu não sabia onde estava minha família, mas eu pude ver o medo nos olhos das pessoas correndo em direção à água. Naquele momento eu soube que tinha que correr também”, ele disse.

O destino os separou.

Gothier pulou dentro do bote mais próximo que encontrou. Sozinho e assustado, ele navegou rio abaixo por horas. Quando finalmente parou, se viu em Betou, na República do Congo.

Enquanto isso, em uma pequena canoa, Prince e sua família atravessaram as águas agitadas do rio até a margem oposta. Logo chegaram à RDC e seguiram para o campo de refugiados de Boyabu, onde o ACNUR, a Agência de Refugiados da ONU, lhes forneceu comida e abrigo.

Pela primeira vez em suas vidas, Gothier e Prince estavam longe um do outro, em diferentes campos de refugiados e em países diferentes.

Ambos enfrentaram uma nova realidade. Como a maioria das crianças em suas idades que fugiram de um conflito, a falta de escolas de segundo grau, professores e materiais para educação no campo significam que nenhum deles poderia continuar seus estudos e realizar suas ambições.

O destino interveio novamente. Em 2016, uma frágil paz começou a retornar à algumas partes da República Centro-Africana depois que o conflito deixou 600 mil pessoas fugindo para os países vizinhos, com outras 600 mil ainda deslocadas internas.

Gothier estava desesperado para voltar para casa e voltar à escola e no ano passado sua esperança se tornou realidade. Até o momento, o ACNUR ajudou o governo com o retorno voluntário de quase 4,5 mil centro-africanos do Congo à região de Lobaye – entre eles Gothier. Ele voltou para Mougoumba, matriculou-se no ensino médio e agora está fazendo o possível para recuperar tudo o que perdeu.

Bonheur (esquerda), 22 anos, e seu primo de 23 anos, Gothier, posam para um retrato em frente à escola em Moungoumba, República Centro-Africana (CAR) © ACNUR / Adrienne Surprenant

“Perder cinco anos de estudo me deixou muitos passos para trás”, ele disse. “Mas é a única forma de recomeçar minha vida. Educação é o caminho.”

Para Prince, entretanto, a história não terminou tão bem. “Desde que saí de casa há cinco anos, eu não pude ir à escola. Fico ocioso, sem poder estudar”, ele explicou.

Prince ainda é um refugiado. Eventualmente ele se atreve a fazer a perigosa jornada de volta ao rio para Mougoumba, onde, para ganhar algum dinheiro, às vezes vende créditos de telefone ou trabalha na farmácia de seu tio. Mas, como refugiado, suas visitas não são oficiais e ele não possui os documentos oficiais necessários para retornar permanentemente – e se matricular nas aulas ao lado de Gothier.

“Às vezes eu vou à minha antiga escola”, disse Prince. “Eu ainda sento do lado de fora da sala para ouvir a professora enquanto espero meu primo. Isso me deixa triste.”

“A vida sem escola não é vida.”

David Yakpounga, 55, diretor da escola, disse que gostaria que Prince e outras crianças em situações similares voltassem aos estudos, tendo ou não os documentos adequados. “Eu os encorajo a voltar às aulas, mas eles só ficam em Mougoumba por um ou dois dias,” ele disse. “Não dá para aprender nada assim.”

Prince prometeu não desistir. “Eu sei que preciso de educação. A escola é o meu futuro. A vida sem escola não é vida.”

Yakpounga concorda. À medida que mais centro-africanos retornam do exílio, o país precisará de dinheiro para construir e expandir escolas, treinar mais professores e fornecer materiais de aprendizado adicionais.

“Um país onde as crianças não estudam é um país morto”, afirmou o diretor. “Sem educação, não pode haver paz.”

Esta história é apresentada no relatório educacional de 2019 do ACNUR Stepping Up: Educação para Refugiados em Crise. O relatório mostra que, à medida que as crianças refugiadas ficam mais velhas, as barreiras que as impedem de acessar a educação se tornam mais difíceis de superar: apenas 63% das crianças refugiadas frequentam a escola primária, em comparação com 91% no mundo. Em todo o mundo, 84% dos adolescentes recebem educação secundária, enquanto apenas 24% dos refugiados têm essa oportunidade. Dos 7,1 milhões de crianças refugiadas em idade escolar, 3,7 milhões – mais da metade – não vão à escola.