Refugiada ganha bolsa de estudos e realiza sonho de estudar odontologia

Depois de fugir da Síria em 2013, o sonho de Sidra se tornou realidade graças à sua própria determinação e ao apoio que recebeu para continuar os estudos

Retrato da refugiada síria Sidra Taleb, 21 anos, em sua casa em Istambul, Turquia © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

Desde que chegou à Turquia há seis anos, a refugiada síria Sidra dominou um novo idioma, trabalhou em uma fábrica para sustentar sua família e se formou com as melhores notas da turma no ensino médio.


O clímax veio quando ela ganhou uma bolsa de estudos universitária. A jovem está cursando o segundo ano de odontologia e realizando o sonho de uma vida.

“Sou muito apaixonada por estudar”, disse a jovem de 21 anos, que fugiu de Alepo, devastada pela guerra, com sua família em 2013. “Meu sonho era ir para a universidade e estudei muito para realizá-lo.”

Sua conquista reflete uma determinação obstinada em continuar os estudos, mesmo quando parecia que ela talvez não tivesse chance. Ela perdeu o último ano do ensino médio em Alepo, quando os combates forçaram o fechamento de escolas locais. Quando chegou à Turquia, não possuía a documentação necessária para se matricular.

“O dia em que voltei à escola foi lindo.”

Incapaz de estudar, ela conseguiu um emprego de empacotadora em tempo integral em uma fábrica de suprimentos médicos, enquanto aprendia turco em seu tempo livre por meio de livros e vídeos do YouTube. Um ano depois, quando ela conseguiu a documentação necessária para retomar seus estudos e prometeu aproveitar a chance ao máximo.

“O dia em que voltei à escola foi lindo”, disse. “O pior da guerra é que ela destrói o futuro das crianças”, continuou. “Se as crianças não continuarem seus estudos, não poderão retribuir à sociedade”.

Depois de terminar o ensino médio como uma das melhores alunas da turma e com uma nota total de 98%, Sidra foi ainda melhor, e conseguiu tirar 99% em seus exames de admissão na universidade. Os resultados a ajudaram a conseguir uma bolsa da Presidency for Turks Abroad and Related Communities (YTB).

Embora os estudantes sírios sejam isentos das taxas de matrícula nas universidades estaduais turcas, a bolsa fornece a Sidra suporte mensal, permitindo que ela se concentre em seus estudos. Sem esse apoio, ela diz que não teria sido capaz de estudar sua matéria preferida – odontologia – devido ao custo extra de comprar equipamentos como dentes cosméticos para praticar suas habilidades.

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Em casa, Sidra pratica suas habilidades em odontologia enquanto sua irmã mais nova, Isra, a observa © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

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Sidra participa de uma aula prática na Universidade de Istambul, onde estuda odontologia © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

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Sidra em sua casa em Canda Sok, nos arredores de Istambul © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

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Sidra passa um tempo com uma amiga na histórica Ponte Galata, em Istambul © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

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Uma vez por semana, Sidra ensina árabe clássico a Malak, uma menina turca de 8 anos, em sua casa em Istambul © ACNUR / Diego Ibarra Sánchez

 

“Sem a bolsa de estudos, eu teria que escolher um curso diferente da odontologia e trabalhar para cobrir minhas despesas na universidade”, explicou.

Sidra é uma dos cerca de 33.000 estudantes refugiados sírios que atualmente frequentam uma universidade na Turquia. O país abriga 3,68 milhões de refugiados sírios registrados, o que o torna o  país que mais recebe refugiados no mundo.

Desde o início da crise na Síria, a YTB concedeu 5.341 bolsas de estudo a estudantes universitários sírios, enquanto outros 2.284 receberam bolsas de estudos de parceiros humanitários. Isso inclui mais de 820 bolsas de estudo fornecidas pelo ACNUR, Agência da ONU para Refugiados.

O acesso à educação é crucial para a autoconfiança dos refugiados. É também central para o desenvolvimento das comunidades que os acolheram e para a prosperidade de seus próprios países, uma vez que as condições estejam em vigor para permitir que eles voltem para casa.

Atualmente, as taxas de acesso de refugiados ao ensino ficam muito atrás da média global e a diferença aumenta com a idade. Atualmente, apenas 24% das crianças refugiadas estão matriculadas no ensino médio, em comparação com 84% das crianças em todo o mundo. O número cai para apenas 3% no ensino superior, em comparação com uma média mundial de 37%.

Na Turquia, essa média aumentou para quase 6%, graças à prioridade atribuída à educação, incluindo o ensino superior para refugiados.

Esforços para aumentar o acesso e o financiamento de refugiados em educação de qualidade foram tópicos discutidos no Fórum Global sobre Refugiados, evento realizado em Genebra nos dias 17 e 18 de dezembro.

A Turquia foi co-organizadora do evento, que reuniu governos, organizações internacionais, autoridades locais, sociedade civil, setor privado, membros da comunidade anfitriã e refugiados. O evento procurou maneiras de aliviar a sobrecarga das comunidades locais que acolhem refugiados, aumentar a autonomia e a confiança dos refugiados e também as oportunidades de reassentamento.

“Pessoas de sucesso podem contribuir com o país onde vivem.”

Sidra está convencida de que a educação é a chave do seu próprio sucesso futuro e está determinada a fazer jus ao apelido que ganhou entre os colegas.

“As pessoas me chamam de ‘çalışkan kız’, que significa: ‘a garota que estuda muito'”, explicou. “Com a educação, podemos combater a guerra, o desemprego e o analfabetismo. Com a educação, podemos alcançar todos os nossos objetivos de vida.”

“Pessoas de sucesso podem contribuir com o país onde vivem”, continuou. “A Turquia me deu muitas oportunidades e me deixa honrada saber que um dia eu poderei retribuir e ser um membro ativo [da sociedade], para trabalhar e praticar a odontologia. Eu me orgulho disso.”