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Programa inovador ajuda a tirar refugiados venezuelanos da pobreza

Treinamentos, mentoria em empreendedorismo e investimentos ajudam venezuelanos que perderam tudo a recomeçar suas vidas no Equador

Os venezuelanos Osmar e Valeria no dia de sua formatura, no Equador © ACNUR/Ilaria Rapido Ragozzino

Por Ilaria Rapido e Jaime Giménez de Quito, Equador  |  10 Jan 2020

No dia da formatura, como todos os pais, Osmar* e Valeria* sorriam de orgulho. Mas o evento não significa o reconhecimento das realizações apenas dos dois filhos do casal em idade escolar. A formatura também celebra as realizações de toda a família e marca a conclusão de um programa cujo objetivo é a ajudar a tirar refugiados da extrema pobreza e fornecer a eles as ferramentas necessárias para reconstruir suas vidas.


“Aprendemos sobre empreendedorismo e também tivemos uma aula sobre como gerenciar nossas finanças”, disse Valeria, ex-cabeleireira de 32 anos que abriu seu próprio negócio de planejamento de eventos após ser forçada a abandonar seu lar na Venezuela e ir para o Equador. “As coisas não foram fáceis, mas o programa ajudou a cobrir muitas de nossas necessidades”.

A luta da família começou na Venezuela, sua terra natal, quando o país afundou em uma crise que levou à escassez generalizada de alimentos e medicamentos e a uma inflação desenfreada.

“As coisas não têm sido fáceis, mas o programa nos ajudou em muitas de nossas necessidades”.

Certo dia, em novembro de 2017, Osmar, Valéria e seus filhos passaram a noite na casa de um parente. Mais tarde, descobriram que pessoas haviam aproveitado a oportunidade para invadir sua casa. Eles tentaram recuperar a casa, mas seus esforços foram em vão e eles não tiveram outra opção a não ser fugir do país.

Eles conseguiram juntar dinheiro suficiente para comprar passagens de ônibus para o Equador, país que acolhe por volta de 385.000 dos cerca de 4,8 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos que vivem atualmente fora de seu país.

A viagem consumiu todas as economias do casal e fez com que ficassem na estação de ônibus de Quito por uma semana. Depois de receber assistência e acomodação do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados e de seus parceiros no Equador, a família foi selecionada para participar de um programa de integração de refugiados e prevenção da pobreza, conhecido como Modelo de Graduação.

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Os venezuelanos Osmar e Valeria na cerimônia que marcou o fim de sua participação em um programa de treinamento, cujo objetivo é transmitir as habilidades necessárias para que refugiados possam se sustentar em sua nova casa no Equador © ACNUR / Ilaria Rapido Ragozzino

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Deilys, que foi forçada a fugir da Venezuela, começou um negócio de sobremesas veganas em sua nova casa, o Equador © ACNUR / Jaime Giménez Sánchez de la Blanca

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A venezuelana Deilys finalmente encontrou uma vida em segurança no Equador e agora sustenta sua família com a renda gerada pelo negócio de sobremesas veganas que comanda de casa © ACNUR / Jaime Giménez Sánchez de la Blanca

 

O objetivo do programa é apoiar os refugiados mais vulneráveis ​​- incluindo mães solteiras, famílias numerosas e aqueles que não têm uma rede de apoio em seu país anfitrião. Como a renda estável é um dos elementos cruciais do sucesso dos refugiados nos países que os acolhem, o programa tem a intenção de fornecer aos participantes as ferramentas necessárias para que alcancem a própria autonomia.

Os beneficiários selecionados aprendem sobre empreendedorismo e recebem treinamento vocacional, além de capital inicial e orientação para ajudá-los a aprender novas habilidades e começar pequenos negócios, bem como apoio psicológico para acompanhá-los nesse processo. Desde 2015, mais de 3.150 famílias de refugiados passaram pelo programa no Equador, que administrado por um parceiro do ACNUR, o HIAS.

Com as orientações que recebeu, Valéria, que possuía seu próprio salão de beleza na Venezuela, encontrou uma nova profissão e tornou-se planejadora e decoradora de eventos. Seu marido, Osmar, 38 anos, também mudou de carreira. Ele trocou o antigo emprego como mecânico de automóveis e agora trabalha como DJ. Graças a um financiamento que recebeu, ele se matriculou em um curso e comprou equipamentos.

O programa também ajudou a criar novas oportunidades para Deilys*, 36 anos, mãe de dois filhos e solicitante de refúgio da Venezuela. Ela chegou no Equador em dezembro de 2017 depois que funcionários do governo ameaçaram ela e seu marido em retaliação por expressar suas opiniões políticas.

Na Venezuela, Deilys trabalhava para uma empresa de aluguel de carros na área de logística. Graças à orientação e às aulas de empreendedorismo que fez pelo programa Modelo de Graduação, Deilys está traçando um novo caminho no emergente setor de alimentos saudáveis ​​do Equador.

Com o dinheiro que recebeu do programa, ela comprou itens como forno, geladeira e batedeira, o que permitiu que ela começasse a fazer as sobremesas veganas que agora vende em feiras de rua e outros eventos. Ela espera abrir sua própria loja em breve.

“Esse processo nos deu as ferramentas necessárias para sobreviver e avançar”, disse Deilys, acrescentando que o programa permitiu que ela e sua família assumissem uma postura de “nós podemos fazer isso”.

“Não temos tudo, mas estamos vivendo bem”, completou. “Não temos dívidas e nunca atrasamos o aluguel. Quando os aniversários chegam, temos o suficiente para comprar presentes para nossos filhos”.

“Esse processo nos deu as ferramentas necessárias para sobreviver e avançar.”

As famílias só concluem o programa inovador quando: sua renda excede a linha da pobreza, são capazes de ter ao menos três refeições nutritivas por dia, conseguem economizar pelo menos cinco por cento de sua renda mensal e constroem uma rede de suporte local.

Osmar e Valeria se formaram após 18 meses no programa. Eles passaram por tempos bons e difíceis. A promessa de um emprego em planejamento de eventos em outra cidade era na verdade um golpe que quase destruiu a família financeiramente.

Mas eles finalmente conseguiram voltar para Quito e retomaram o negócio de onde pararam. Enquanto isso, suas aspirações cresceram exponencialmente. A família tem como objetivo abrir seu próprio espaço de eventos, onde Valeria organizaria festas e casamentos. Osmar ficaria responsável pela música.

“É o meu maior sonho”, disse Osmar.

A inclusão econômica de refugiados foi um dos tópicos discutidos no Fórum Global sobre Refugiados, reunião realizada em Genebra no ano passado. O evento reuniu governos, organizações internacionais, autoridades locais, sociedade civil, setor privado, membros da comunidade anfitriã e também os próprios refugiados.

O Fórum, o primeiro do gênero, incluiu anúncios de ações com o objetivo de dar aos refugiados a chance de usar e desenvolver suas habilidades e contribuir economicamente com as comunidades que os acolhem.

* Nomes alterados por motivos de proteção.

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