Amo, choro, canto, sonho

Coral infantil Canarinhos da Amazônia, formado por brasileiros e refugiados venezuelanos, saiu de Roraima para se apresentar em evento oficial do Governo Federal em Brasília

Canarinhos na Praça da Antena de TV, em Brasília © ACNUR/Alan Azevedo

“Queremos cantar. E queremos mostrar a todos nossas histórias e conquistas”. Uma pequenina criança venezuelana refugiada olhava para o alto, se dirigindo ao presidente da República em seu gabinete presidencial, local que poucas pessoas um dia irão conhecer. “Obrigado ao Brasil por nos receber, nos deixar ficar, nos abrigar e nos permitir estudar. Muito obrigado”.

Em uma oportunidade única, o coral infantil Canarinhos da Amazônia, que conta com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), foi convidado pelo Governo Federal para se apresentar em evento realizado dia 16 de janeiro no Palácio do Planalto, em Brasília, ao lado do mais alto escalão do executivo brasileiro.

“Queremos cantar. E queremos mostrar a todos nossas histórias e conquistas”

Convite aceito, vinte das 150 crianças brasileiras e venezuelanas que formam o coral voaram mais de trinta horas, contando as escalas. Saíram de Pacaraima, cidade roraimense na fronteira com a Venezuela, para desembarcar na capital federal. O evento para o qual foram requisitados marcou a troca de comando da Operação Acolhida, a resposta humanitária do governo brasileiro ao fluxo de venezuelanos.

É justamente por meio dos esforços conjuntos do Governo Federal, agências das Nações Unidas e sociedade civil, que compõem a Operação Acolhida, que muitos refugiados e migrantes têm hoje a oportunidade de reconstruir suas vidas no Brasil – inclusive as crianças coralistas e suas famílias. “Cantar aqui esta noite é o orgulho da minha vida”, conta Sara*. Junto de sua família, ela é solicitante da condição de refugiado no Brasil. “É uma grande oportunidade poder estar aqui representando o povo da Venezuela”.

Após um encontro privado com o presidente Jair Bolsonaro em seu gabinete, as crianças se posicionaram no Salão Nobre do Palácio do Planalto para a grande apresentação. Os Canarinhos da Amazônia então cantaram o Hino Nacional, com regência da maestrina Míriam Blos, brasileira, e do maestro Rafael Rojas, venezuelano.

Foi a primeira vez que os Canarinhos da Amazônia se apresentaram no Palácio do Planalto

Foi a primeira vez que os Canarinhos da Amazônia se apresentaram no Palácio do Planalto © ACNUR/Alan Azevedo

Foram aplaudidos de pé. Ao longo do evento, apresentaram mais três músicas, entre elas o clássico joropo venezuelano: Alma Llanera. “Amo, choro, canto, sonho”, diz a música. “É o nosso sentimento, passamos por tanta coisa. Sonhei muito em me apresentar em um lugar como esse”, comentou o coralista Daniel.

Ao fim da cerimônia, o público se dirigiu espontaneamente para os Canarinhos da Amazônia a fim de parabenizá-los. Foram rodeados e tietados. Responderam cantando, com o mesmo empenho que aprenderam a dedicar às suas vidas. As cadeiras eram recolhidas do salão, mas as vozes dos canarinhos continuavam a dançar em eco pela acústica desenhada por Niemayer.

Com o ACNUR por Brasília

Evento concluído, um dia inteiro de atividades foi planejado para as crianças pela Agência da ONU para Refugiados. Em uma visita ao escritório do ACNUR em Brasília, os Canarinhos da Amazônia conheceram os rostos daqueles que estão sempre trabalhando ao lado deles e por eles.

“Como ACNUR, não podiamos deixar que sua visita a Brasilia não incluisse uma oportunidade de conhecer a equipe que trabalha incansavelmente para construir junto com vocês nossa parceria”, disse Jose Egas, Representante do ACNUR no Brasil, ao receber os Canarinhos da Amazônia no escritorio nacional.

“É até difícil contar o número de vezes que vocês se apresentaram a autoridades, visitas e doadores. Vocês são uma das razões pelas quais estamos aqui, e recebê-los é uma honra para toda a equipe. O trabalho no coral e seus esforços no âmbito das dificuldades do refugio são um exemplo para nós do ACNUR”, concluiu.

Jose Egas, Representante do ACNUR no Brasil, atuando como guia turístico para os Canarinhos da Amazônia

Jose Egas, Representante do ACNUR no Brasil, atuando como guia turístico para os Canarinhos da Amazônia © ACNUR/Alan Azevedo

Desta maneira, foi aberto o encontro de várias horas no qual a equipe do ACNUR se apresentou para a delegação Canarinha. As crianças tiveram a oportunidade de explicar o tempo no Brasil e suas experiências como integrantes dos Canarinhos antes de fazerem uma apresentação emotiva no escritório. Juntos, almoçaram nas diferentes salas do escritorio. Ao final do almoço, todos estavam emocionados, com sorrisos gigantes ao se despedir do coral.

Saindo do escritorio, as crianças embarcaram em um tour por Brasília a convite do Representante do ACNUR. Os olhos corriam atentos pelas janelas do ônibus, tentando decifrar os desenhos e formas da capital. “Onde está o avião?”, perguntavam elas, procurando à esquerda e à direita, em referência ao formato do Plano Piloto, que descrevia Jose Egas, agora em posição de guia de turismo oficial.

Jovem observa o Monumento JK, no Eixo Monumental de Brasília

Jovem observa o Monumento JK, no Eixo Monumental de Brasília © ACNUR/Alan Azevedo

Conheceram os pontos turíticos clássicos, como a Praça dos Três Poderes, a Ponte Juscelino Kubitschek e a Torre de TV. Durante visita à Catedral de Brasília, as crianças e maestros notaram a acústica única do local, projetada justamente com o objetivo de fazer a voz de quem fala ser ouvida por toda a obra. Não deu outra: entraram em foramação e começaram a cantar.

As vozes se espalharam angelicalmente pela abóbada da catedral, atraindo a atenção de todos os turistas no local. Em pouco tempo, pessoas se juntaram para assistir, gravar e aplaudir a apresentação.

Os coralistas descobrem a acústica da Catedral de Brasília

Os coralistas descobrem a acústica da Catedral de Brasília © ACNUR/Alan Azevedo

Mas durou pouco: havia sessão de cinema marcada para os jovens. O filme, uma animação musical de sucesso, inspirou crianças que vivem pelo sonho de cantar. No ônibus, na volta, crianças cansadas de um dia cheio de atividades cantarolavam baixinho a melodia do filme.

“Se a gente conseguiu deixar o passado para trás e ir em frente, eles podem conseguir também”

Perguntada o que ia contar aos seus amigos quando voltasse a Pacaraima, a brasileira coralista Laís afirmou: “vou dizer que eles também podem conseguir, assim como nós lutamos e ensaiamos muito, a gente conseguiu chegar até aqui. Se a gente conseguiu deixar o passado para trás e ir em frente, eles podem conseguir também”.

Pássaros migratórios

A Associação Canarinhos da Amazônia atravessa gerações de crianças, uma vez que o projeto tem mais de 30 anos. Sua fundadora e maestrina Míriam Blos trabalhou com crianças brasileiras em vulnerabilidade, povos indígenas, jovens de outras nacionalidades e agora foca a iniciativa no acolhimento de refugiados e migrantes da Venezuela. A sede da associação foi transferida de Boa Vista para Pacaraima, cidade fronteiriça por onde passam mais de 500 venezuelanos por dia.

“Estamos falamos de uma geração de Canarinhos que atravessa uma fronteira sem nenhuma perspectiva, de crianças que não fazem parte de absolutamente nada, que estão saindo do seu país, deixando tudo para trás”, conta Blos. “Eu chamo essa nova geração de Canarinhos de pássaros migratórios. Como ensinar pássaros migratórios, que estão voando o tempo todo? Você tenta encapsular toda sua experiência para dar o seu melhor, porque eles podem partir a qualquer momento”.

A maestrina Miriam Blos também é linguísta e teóloga

A maestrina Míriam Blos também é linguísta e teóloga © ACNUR/Alan Azevedo

Míriam acaba de retornar do Fórum Global sobre Refugiados, que aconteceu em Genebra em dezembro do ano passado. Ela foi representar os Canarinhos da Amazônia, iniciativa selecionada como símbolo do acolhimento brasileiro no evento. Além de treinamento musical, a associação oferece oficinas de costura, artesanato e culinária para mulheres. Também facilita o aprendizado de português para todos, acelerando a inserção cultural e econômica de refugiados e migrantes venezuelanos na sociedade brasileira.

“Não é apenas música, é muito mais”, defende o maestro venezuelano Rafael González, que veio ao Brasil em 2017 para integrar o projeto. “Eles aprendem também a vocação de ajudar ao outro. Quando são resgatados, o coração deles se transforma. Muitas crianças estavam na rua, andando por aí, sem ter o que fazer, comendo muito pouco. Hoje, essas crianças podem voar muito alto”.

Perguntadas sobre seus sonhos, as crianças se olham, em dúvida. Há pouco tempo praticamente não havia perspectivas de futuro para muitas delas. Mas, hoje, podem sonhar. “Quero ser engenheiro civil, construir teto para as pessoas morarem”, diz um. “Meu sonho é estudar muito, ser uma pessoa com título universitário”, imagina a outra. Uma terceira criança acrescenta: “Meu sonho mesmo é cantar, e quero dar uma casa para meus pais”.

Com as crianças recolhidas em seus quartos, descansando para o longo voo de volta no dia seguinte, maestro González é categórico ao afirmar que “o que elas têm para ensinar e mostrar não é qualquer coisa: a condição da qual elas vieram e onde elas estão hoje, viajando, cantando. Eles podem ensinar a muitas outras crianças que é possível”.

Crianças cantam durante apresentação no Palácio do Planalto

Crianças cantam durante apresentação no Palácio do Planalto © ACNUR/Alan Azevedo

A Associação Canarinhos da Amazônia conta com o apoio financeiro da União Europeia, que investe no fortalecimento da resposta aos venezuelanos na região norte do Brasil, com projetos que promovem a proteção de populações em maior situação de vulnerabilidade e sua integração no país de acolhida.

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Subir no letreiro de Brasília foi um momento de diversão para a garotada © ACNUR/Alan Azevedo

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Momento em que o coral cantou, de maneira espontânea, na Catedral de Brasília © ACNUR/Alan Azevedo

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O passeio no shopping foi uma novidade para crianças que nunca tinham entrado em um centro comercial antes © ACNUR/Alan Azevedo

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Fila e ansiedade para entrar no cinema © ACNUR/Alan Azevedo

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Gargalhadas não faltaram na sessão de cinema © ACNUR/Alan Azevedo