O desafio de ajudar crianças refugiadas na Líbia a superar traumas

Apesar da situação extremamente delicada, o ACNUR está fazendo o que pode para ajudar crianças refugiadas e migrantes na Líbia que precisam de apoio psicológico

Crianças jogam futebol durante uma sessão de apoio psicológico em Trípoli, Líbia © ACNUR/Mohamed Alalem

Tentativas de suicídio, comportamento agressivo, distúrbios do sono e fazer xixi na cama. Esses são apenas alguns dos sintomas apresentados por muitos jovens solicitantes de refúgio e refugiados na Líbia que passaram por momentos de grande violência e sofrimento em sua terra natal, bem como durante suas jornadas difíceis e perigosas em busca de segurança.


Crianças e suas famílias também vivenciaram ou viram níveis chocantes de violência desde que chegaram à Líbia, país que sofre conflitos e instabilidade generalizados desde o levante de 2011 para derrubar o ex-líder Muammar Kadafi. Muitos testemunharam coisas que nenhuma criança deveria ver, o que as deixou altamente estressadas e ansiosas.

O ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, apoia atividades para ajudar refugiados e solicitantes de refúgio a lidar com sua angústia mental. Na capital Trípoli um programa foi projetado especificamente para crianças no Centro de Reuniões e Partidas (CRP), que foi estabelecido como um centro de trânsito para refugiados e solicitantes de refúgio que aguardam voos para deixar o país.

Em uma sessão recente, na qual os jovens foram convidados a desenhar a si mesmos e seus sonhos para o futuro, uma menina imitou os socos de um boxeador enquanto brincava. “Esta criança, uma menina fofinha, nos disse que quer ser lutadora”, afirmou a psicoterapeuta Nadia Tabet, que trabalha com a LibAid, organização parceira do ACNUR em Trípoli.

“Ela tem muitas lembranças ruins”

“Nós ficamos surpresos. Quando perguntei a ela o porquê, ela disse: ‘Quero bater em todo mundo que nos machucou’. Isso reflete as injustiças que ela sofreu.”

Depois de fugir da Eritreia, a jovem e sua mãe passaram mais de um ano em Zintan, um dos 16 centros de detenção oficiais ativos na Líbia, administrados pela Direção de Combate à Migração Ilegal (DCMI), parte do Ministério do Interior. O ACNUR conseguiu garantir a liberação das duas, levando-as ao CRP em Trípoli, para aguardarem evacuação.

“Ela costumava acordar à noite chorando. A mãe dela a trouxe até aqui”, explicou Tabet. “À noite, a menina costumava testemunhar pessoas brigando no centro de detenção. Ela havia internalizado essa violência. Ela tem muitas lembranças ruins. Estamos tentando tratar os traumas psicológicos que elas enfrentaram e modificar seu comportamento violento.”

Em 2019, o ACNUR, juntamente com a LibAid, iniciou um programa psicossocial no CRP para tentar fornecer alguma normalidade e esperança para muitos jovens que estavam detidos. Outros programas de apoio estão disponíveis para adultos nas instalações, bem como no Centro Comunitário do ACNUR localizado em outra parte da cidade.

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As crianças são incentivadas a compartilhar suas experiências através de desenhos © ACNUR/Mohamed Alalem

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A psicoterapeuta Nadia Tabet interage com as crianças © ACNUR/Mohamed Alalem

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Funcionários e crianças posam para uma fotografia nos terrenos das instalações da CRP © ACNUR/Mohamed Alalem

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As crianças exibem seus desenhos no final de uma das sessões © ACNUR/Mohamed Alalem

 

A Líbia não é signatária da Convenção da ONU sobre Refugiados. No país, refugiados e solicitantes de refúgio são considerados migrantes ilegais. Eles podem estar sujeitos a prisão e detenção, especialmente aqueles que foram interceptados no mar pela Guarda Costeira da Líbia enquanto tentavam atravessar o Mediterrâneo. Eles costumam ficar detidos por meses ou até anos. Não há processo de revisão judicial e os detidos frequentemente enfrentam abuso, tortura e violência sexual.

Além disso, existe a possibilidade de muitas crianças terem chegado à Líbia por rotas controladas por gangues de tráfico de pessoas, onde violência, exploração e abuso não são incomuns.

O programa de apoio a crianças, financiado pelo ACNUR, tinha como público-alvo crianças de cinco a 12 anos. Ele proporcionava um espaço seguro onde os jovens eram incentivados a se expressar, a participar de atividades lúdicas que afastavam suas mentes da violência que testemunharam e interagiam socialmente com os colegas. Livros e brinquedos foram fornecidos para as atividades.

“A violência é um problema generalizado entre as crianças aqui”, explicou Jamal Bashir, da LibAid, chefe de programas de apoio psicossocial da CRP. “No programa, trabalhamos para melhorar o comportamento.”

“Tentamos criar rotinas para trazer um senso de normalidade para as crianças, uma vez que elas não tiveram a chance de viver uma vida normal.”

“Todo mundo morreu”

A maioria dos jovens também está atrasada na escola, pois interromperam os estudos quando saíram de casa ou, em muitos casos, nunca frequentaram a escola. Saber que perderam oportunidades de um futuro melhor também pode ser um dos problemas que lhes causa um alto grau de estresse.

As crianças gostavam de frequentar as sessões e de compartilhar suas experiências familiares em um ambiente seguro. Mohammed*, um garoto de nove anos, disse ao psicoterapeuta que ele não gostava de guerra e explicou que sua mãe e seu irmão foram assassinados.

“Queremos ir para a Europa… porque todos morreram”, disse. “Agora somos apenas eu e meu pai.”

Os pais das crianças viram resultados positivos do programa e relataram que os filhos estão mais calmos e mais motivados. Yusuf*, pai solteiro após a morte de sua esposa, disse que viu melhorias no filho desde que ele começou a frequentar as atividades.

“Estamos muito felizes com o programa”, disse. “Antes, meu filho tinha um comportamento mais agressivo, mas agora ele se comporta normalmente e respeita todo mundo.”

“Existe uma tristeza em todas as crianças que estão aqui”

Bashir, da LibAid, disse que quando começaram o novo programa, as crianças estavam tão interessadas que chegavam uma hora mais cedo para as aulas. “Vemos que as crianças são muito interessadas; é algo novo para elas.”

“As más condições em que cresceram, o trauma da jornada… tudo as afeta”, acrescentou. “As crianças são apenas observadoras daquilo que acontece. Você percebe que há uma tristeza em todas as crianças que estão aqui. Elas não conseguem se expressar e se libertar disso. Por isso, criamos essas atividades.  Para ajudar.”

Devido ao agravamento da segurança em Trípoli, o programa psicossocial para crianças está suspenso no momento. O ACNUR espera encontrar novas alternativas para continuar esse importante trabalho.

* Nomes alterados por motivos de proteção.