Funcionária do ACNUR conta o que viu em nove anos de Guerra na Síria

Karen trabalha no ACNUR Iraque e desde 2012 vê de perto os impactos da Guerra da Síria © ACNUR/Abed Arslan

“Olá, meu nome é Karen Whiting e sou Representante Assistente de Proteção na operação do ACNUR no Iraque. Trabalho com refugiados sírios desde 2012, quando fui enviada em uma missão de emergência para ajudar a operação na Jordânia a receber e planejar a entrada de refugiados sírios recém-chegados no país. Isso quer dizer que estou trabalhando na crise da Síria há quase nove anos.

Sou canadense e cresci em um ambiente muito seguro. Acho que pessoas que vêm de países seguros e estáveis ​​como eu, onde as crianças frequentam a escola e não são separadas de suas famílias e comunidades por causa de conflitos e violência, não necessariamente reconhecem os desafios que as pessoas enfrentam quando são forçadas a abandonar suas casas.

Todos os dias em que trabalho no ACNUR fico impressionada com o fato de que, por ser canadense, tive uma sorte incrível de me beneficiar de uma situação estável e segura enquanto crescia. Minha família e eu tivemos a oportunidade de prosperar. Este deveria ser o direito de todos, em qualquer lugar.

Nesses quase nove anos de trabalho no ACNUR e na resposta humanitária à crise na Síria, acho importante continuarmos atentos para o fato de que muita gente ainda precisa de ajuda. Apesar de toda a generosidade da comunidade internacional, dos países da região e de doadores individuais, vemos que  necessidades críticas continuam existindo.

Recentemente, no Iraque, recebemos um fluxo de cerca de 18.000 refugiados sírios como resultado do aumento da violência no nordeste do país. E mais uma vez vemos a situação em Idlib, onde quase um milhão de pessoas estão deslocadas internamente. A situação é muito grave, principalmente para crianças, devido às condições de inverno na região.

Diariamente, meu trabalho envolve ajudar nossos escritórios aqui no Iraque a garantir que somos capazes de apoiar os 1,4 milhão de iraquianos deslocados internamente e os mais de 288.000 refugiados e solicitantes de refúgio que vivem aqui.

Algumas das prioridades que temos envolvem garantir que todos os refugiados sírios sejam registrados pelo ACNUR – uma ferramenta essencial de proteção – e recebam documentação para comprovar sua permanência legal aqui no Iraque. As informações de registro também ajudam o ACNUR a desenvolver programas voltados para a proteção e assistência de refugiados. O objetivo é garantir que eles tenham acesso a moradias seguras, sejam capazes de sustentar a si mesmos e suas famílias, e que possamos atender a quaisquer necessidades específicas que crianças, pessoas com deficiência ou idosos possam ter.

Quando penso sobre tudo o que estamos fazendo aqui, sinto-me muito inspirada pela generosidade do governo do Iraque, da região do Curdistão e de outros países da região que fizeram um grande trabalho para incluir refugiados sírios em sistemas e serviços como educação e saúde. Também admiro os esforços dos assistentes sociais que trabalham com crianças e mulheres afetadas pela violência.

Aa situação das crianças e dos jovens me emociona muito. No fundo, todos nós sabemos que as crianças são o futuro. Para mim, o mais preocupante é o fato de que muitas crianças continuam crescendo em campos de refugiados. Acho que todos concordamos que, apesar de tudo o que o ACNUR, governos e parceiros fazem para melhorar a situação das crianças que vivem em campos, este na verdade não é um local ideal para crianças e jovens crescerem, estudarem e aprenderem a desenvolver pessoas e comunidades resilientes.

Daqui para frente, acho que precisamos investir mais em soluções fora do campo para que crianças e jovens refugiados sejam cada vez mais integrados às comunidades que os acolhem. Embora a educação formal seja uma área essencial para investimentos, as crianças e jovens refugiados precisam saber que existem oportunidades disponíveis para eles após o término de seus estudos.

É por isso que uma ampla gama de investimentos em esportes, liderança, treinamento vocacional e habilidades para a vida é uma parte importante do apoio que os doadores devem fornecer para que crianças e jovens refugiados possam desenvolver e atingir todo seu potencial. Assim, teremos pessoas produtivas e resilientes aqui no Iraque e também na Síria, quando finalmente conseguirem voltar para casa.

No meu trabalho no Iraque e na Jordânia, conheci várias crianças desacompanhadas que me emocionaram muito. Refugiados recém-chegados expressaram suas preocupações com a proteção de suas famílias diante do recente aumento da violência no nordeste da Síria. Existem preocupações particulares para mulheres e meninas, mas também para crianças em geral.

As histórias de separação familiar, principalmente para crianças que fugiram sem os pais, são particularmente perturbadoras. Mas também há histórias felizes, principalmente quando conseguimos reunir membros da família ou quando vemos refugiados montando pequenas empresas, recomeçando suas vidas em segurança.

Os refugiados sírios são como você e eu. Eles têm famílias e tinham empregos e vidas normais, que lhes foram tiradas à força devido à situação na Síria. Tudo isso me lembra de como tive sorte de crescer em uma sociedade segura e estável e de como tenho sorte de poder trabalhar no ACNUR, onde posso ajudar a fornecer proteção e assistência aos refugiados.

Acho que o ACNUR e todas as pessoas que trabalham na crise na Síria acreditam que este tema precisa permanecer na agenda internacional. O ACNUR e os países que acolhem refugiados sírios precisam de apoio para que continuar ajudando a fornecer proteção a todos os sírios que foram forçados a deixar tudo para trás.”

Há nove anos o ACNUR atua na emergência da Síria para assegurar que famílias de refugiados tenham oportunidades de recomeçar suas vidas. Não conseguiríamos fazer isso sem a ajuda de pessoas como você. Doe agora e ajude a transformar vidas de refugiados hoje mesmo.