Refugiados LGBTI da Venezuela recomeçam a vida em países de acolhida

Refugiados LGBTI frequentemente enfrentam uma longa jornada até a segurança. Mas para um gay e uma mulher transgênero da Venezuela, a construção de novas vidas em seus países anfitriões representou um “renascimento”

"Eu acho que teria sido impossível fazer a transição na Venezuela", afirma Valentinna Rangel, que fez a transição no Chile, país que a acolhe desde 2016 © ACNUR/Hugo Fuentes

Para Valentinna Rangel, encontrar segurança no Chile permitiu que ela se tornasse do lado de fora o que sempre sentira por dentro: uma mulher. Depois de décadas sentindo-se uma mulher no corpo de um homem, a jovem de 27 anos completou o processo de transição, que começou quando ela fugiu da crise econômica e política em sua terra natal, a Venezuela, passando de homem para mulher.


“Eu acho que teria sido impossível fazer a transição na Venezuela”, disse ela, acrescentando que na Venezuela as pessoas transgênero podem enfrentar insultos, violência e outras coisas piores das pessoas – até de seus próprios familiares.

Fugir de casa para escapar de perseguições, conflitos ou guerras é uma tarefa árdua para a maioria dos refugiados e solicitantes de refúgio, e a comunidade LGBTI enfrenta riscos adicionais.

Relações entre pessoas do mesmo sexo são criminalizadas em mais de 70 países, com punição de morte em alguns deles. E mesmo em países onde as relações entre pessoas do mesmo sexo não são criminalizadas, as pessoas LGBTI podem ser perseguidas por sua orientação sexual, identidade de gênero ou outras características sexuais e serem forçadas a fugir. Esse tipo de perseguição pode permitir que as vítimas se qualifiquem para o status de refugiado, mas a triste verdade é que as pessoas LGBTI às vezes enfrentam ameaças semelhantes em seu país onde buscam refúgio. Isso torna a jornada para a segurança particularmente arriscada para gays, lésbicas e transexuais e solicitantes de refúgio.

Para pessoas LGBTI como Valentinna, encontrar um local de relativa segurança pode representar um renascimento.

Valentinna disse que nunca se identificou como homem. Quando ainda adolescente soube da possibilidade de fazer a transição, Valentinna, que cresceu na capital petrolífera do noroeste da Venezuela, Maracaibo, teve certeza de que era isso que ela queria fazer. Ela leu tudo o que pôde encontrar sobre o procedimento, mas “tudo foi negativo, como o fato de a expectativa de vida das pessoas trans ser de 35 anos ou a comunidade ainda estar associada à prostituição e à marginalidade”, disse ela.

“Eu não queria esse tipo de rótulo”, disse ela. Para se manter segura, ela optou por manter o sexo de nascimento enquanto seguia uma carreira em publicidade.

A situação na Venezuela deteriorou-se constantemente. A inflação aumentou, os alimentos e os medicamentos tornaram-se escassos, os apagões proliferaram e a violência aumentou. Em 2014, o irmão de Valentinna foi assassinado. Logo depois, sua melhor amiga sucumbiu ao câncer depois que ela não conseguiu acessar o tratamento. Em 2016, Valentinna fez as malas e comprou uma passagem de ida para o Chile, juntando-se agora aos mais de 5 milhões de venezuelanos que vivem fora do país em meio à crise.

Em sua nova casa na capital chilena, Santiago, Valentinna finalmente conseguiu fazer a transição com a qual sonhava há tanto tempo. Após tratamentos hormonais, ela foi contratada – como mulher – em uma prestigiada empresa de publicidade, onde recebeu apoio de seu supervisor e de outros colegas.

“Pela primeira vez, me sinto valorizada por quem sou”, disse ela. “Sinto que meus colegas ouvem minhas ideias e prestam atenção à minha inteligência, não à minha identidade de gênero”.

Na América Latina, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em cerca de meia dúzia de países. Ainda assim, a região permanece entre os lugares mais letais do mundo para as pessoas LGBTI, sendo os assassinatos homofóbicos e transfóbicos uma realidade trágica na maior parte da região.

"Não tenho vergonha de dizer às pessoas que eu morava nas ruas e procurei comida no lixo", afirma Juan Pablo. "Não vou desistir porque tive uma segunda chance na vida"

“Não tenho vergonha de dizer às pessoas que eu morava nas ruas e procurei comida no lixo”, afirma Elvis Daniel. “Não vou desistir porque tive uma segunda chance na vida” © ACNUR/Victoria Hugueney

Na Venezuela, o medo era uma parte inevitável da vida cotidiana de Elvis Daniel, um gay de 25 anos da região norte de Anzoátegui. O simples fato de colocar os pés fora da casa da família era assustador.

“Eu tinha medo de ser espancado”, disse ele, acrescentando que sua mãe e irmãos, que sempre aceitaram sua orientação sexual, também estavam com medo por ele. Elvis Daniel até cultivou uma “aparência hétero”, escondendo sua verdadeira orientação sexual de todos, exceto de seu círculo íntimo de confiança na família e nos amigos.

Elvis Daniel não suportava ver sua família mergulhar em fome e desespero enquanto os preços dos alimentos na Venezuela dispararam e a inflação desenfreada devorou ​​seu poder de compra. Determinado a ajudá-los, ele partiu para o Brasil em 2018.

Inicialmente, ele lutou para se sustentar em Boa Vista, capital de Roraima, que é o principal núcleo urbano que recebe venezuelanos que fogem para o país. Sem emprego, ele não conseguiu encontrar um lugar para morar e não teve escolha a não ser dormir nas ruas. Lá, ele foi abusado sexualmente.

“Eu estava pronto para terminar minha própria vida”, lembrou.

Um dia, Elvis Daniel estava vasculhando o lixo, procurando algo para comer, quando uma funcionária da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), veio em sua assistência, garantindo-lhe uma vaga em um abrigo especializado que atende refugiados e migrantes LGBTI. Na época, Elvis Daniel pesava apenas 35 quilos.

“Talvez se não fosse por ela, eu não estaria aqui hoje”, disse Elvis Daniel. “Ela me olhou nos olhos e me disse para não desistir. Ela me disse que eu poderia fazer grandes coisas na minha vida se acreditasse que as coisas iriam melhorar. E foi isso que eu fiz.”

O ACNUR está empenhado em proteger os direitos dos refugiados e solicitantes de refúgio LGBTI, bem como em apoiar redes e coalizões que ajudam os que foram arrancados de suas casas. No Chile, a agência e uma organização parceira estão entrando em contato com a comunidade LGBTI para garantir que refugiados gays, lésbicas e trans e requerentes de asilo possam acessar cuidados médicos e outros serviços vitais. Trabalhando com seus parceiros no Brasil, o ACNUR ajuda a garantir que as pessoas LGBTI que foram deslocadas à força tenham acesso a serviços de saúde, treinamento profissional e colocação e a garantir que não enfrentem discriminação.

O encontro de Elvis Daniel com a equipe do ACNUR marcou o início de um novo capítulo em sua vida. Depois de se recuperar no abrigo em Boa Vista, ele foi transferido para a capital, Brasília, como parte do chamado programa de “interiorização” do governo brasileiro, que transfere os venezuelanos de Roraima para estados onde eles podem se integrar melhor à comunidade local e encontrar trabalho mais facilmente.

Agora, Elvis Daniel trabalha em uma clínica de diagnóstico médico e foi admitido na prestigiada Universidade de Brasília.

“Não tenho vergonha de dizer às pessoas que eu morava nas ruas e procurei comida no lixo”, disse ele. “Não vou desistir porque tive uma segunda chance na vida”.