“Como forma de retribuir, eu colaboro com entusiasmo e alegria”

Quase 500 venezuelanos abrigados em Roraima se voluntariam em comitês de participação comunitária para ajudar a manter refugiados e migrantes seguros da COVID-19

O artista Ramos mostra com alegria um dos murais que pintou no abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista ©ACNUR/Allana Ferreira

Dar vida e cor ao abrigo em que mora é o que traz mais alegria ao venezuelano Juan Batista Ramos, de 69 anos. Assim como ele, outros cerca de 480 venezuelanos abrigados em Roraima encontraram no trabalho comunitário uma forma de contribuir para os locais que eles chamam, mesmo que temporariamente, de casa.


“Toda vez que o abrigo precisa de mim, fico feliz em poder ajudar”, diz Ramos, que chegou sozinho ao Brasil em outubro de 2019, vindo da Venezuela.

Enquanto a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), parceiros da sociedade civil e a Força-Tarefa Logística da Operação Acolhida gerenciam os 13 abrigos temporários de Roraima, os membros dos Comitês Temáticos de Participação Comunitária são os protagonistas na distribuição de alimentos, manutenção, limpeza e promoção de ações de saúde, educação e segurança  para os mais de 5,8 mil refugiados e migrantes que vivem em Roraima.

Artista e músico, a contribuição de Ramos é por meio do Comitê de Infraestrutura do abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista, onde ele desde janeiro de 2020, quando foi abrigado pelo ACNUR. No local, há 15 painéis pintados por ele.

Além da pintura, Ramos também alegra os outros 286 moradores com sua música. “Agora, em todo lugar que você olha aqui no abrigo tem uma paisagem para nos lembrar que há beleza no mundo.”

Seu trabalho mais recente foi pintar a nova pia construída especialmente para pessoas com deficiência – uma iniciativa do ACNUR para ampliar o acesso a água como medida de prevenção da COVID-19. Atualmente, cerca de cem pessoas no abrigo Tancredo Neves têm mais de 50 anos. É também é um dos locais com o maior número de pessoas com deficiência – são 14 usuários de cadeira de rodas.

As torneiras adaptadas para pessoas com deficiência fisica no abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista

As torneiras adaptadas para pessoas com deficiência fisica no abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista ©ACNUR/Allana Ferreira

No total, são quase 500 voluntários venezuelanos abrigados que se dividem em 54 Comitês temáticos de Participação Comunitária. Com a chegada da pandemia, o grupo de líderes voluntários tornou-se ferramenta essencial para a prevenção do contágio do vírus entre a população.

“Os comitês são fundamentais para o funcionamento dos abrigos. Essa ação é uma das estratégias do ACNUR e seus parceiros para promover a participação da comunidade nas atividades do dia-a-dia e incentivar a responsabilidade compartilhada”, explica José Egas, Representante do ACNUR no Brasil.

Todas as atividades de gestão participativa dos abrigos foram adaptadas ao contexto de pandemia de COVID-19, transformando os abrigados em agentes voluntários de prevenção, que tiveram que repensar a forma de excercerem suas atividades rotineiras de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Imagine o desafio de servir três refeições diárias para mais de 1,2 mil pessoas sem gerar aglomerações e riscos de contágio. Esse é o dia-a-dia do Comitê de Alimentação, Limpeza e Serviços Gerais do Rondon 3, o mais populoso abrigo de Boa Vista. A venezuelana Jennimar Itriago, de 41 anos, é membro deste grupo.

“Só vai receber almoço quem estiver de mãos limpas e máscara”, avisa ela, que trabalha para conscientizar a população abrigada. Enquanto serve comida, orienta as pessoas a usarem máscaras, lavarem várias vezes as mãos e a respeitarem o distanciamento físico.

Jennimar durante distribuição de refeições no maior abrigo de Roraima, o Rondon 3

Jennimar durante distribuição de refeições no maior abrigo de Roraima, o Rondon 3 © ACNUR/Lucas Novaes

“Sinto-me agradecida por terem me aceitado no abrigo e por toda a assistência que o ACNUR, seus parceiros e os militares estão me dando. Como forma de retribuir, eu colaboro com entusiasmo e alegria”, conta Jennimar.

Ela e Ramos ilustram os dados revelados pelo Relatório de Registro e Abrigamento em Roraima do ACNUR, referente ao mês de abril de 2020. A publicação tem como objetivo monitorar o fluxo populacional dos abrigos para melhor planejar ações de gestão e prevenção de COVID-19 nesses locais, apresentando o perfil demográfico das populações abrigadas no estado e os diferentes comitês de participação comunitária atuantes.

Leia mais: Relatório de Registro e Abrigamento em Roraima

Participação comunitária nos abrigos indígenas

Entre os abrigos para refugiados e migrantes em Roraima, onze ficam em Boa Vista, na capital, e outros dois em Pacaraima, na fronteira. Um dos abrigos em Pacaraima é exclusivo para indígenas venezuelanos.

São 254 pessoas da etnia Warao compartilhando o abrigo Janokoida, que na língua de seus moradores significa “Grande Casa”. Antes da pandemia de COVID-19, a população era de 511. No entanto, com as medidas de prevenção, parte dos abrigados foram tranferidos para o Janoko Yakera, “Casa Bonita”.

Os líderes comunitários indígenas são conhecidos pelo nome de “aidamos”. Isidro Pacheco, de 43 anos, é um deles: enfermeiro warao e membro do Comitê de Saúde do local. Seu trabalho é orientar e monitorar a população abrigada.

“Checamos diariamente toda a comunidade, se as pessoas estão com algum sintoma. Orientamos sobre a limpeza do local e higiene para crianças e adultos”, explica ele.

Isidro trabalhou com por seis anos na Vezuela, em uma comunidade indígena Warao, como enfermeiro. Ele realizava atendimentos de prevenção e exames pré-natal, além de partos e aplicação de vacina em crianças.

O enfermeiro com ornamento tipicamente Warao

O enfermeiro com ornamento tipicamente Warao © ACNUR/Lis Viana de Abreu

Hoje, Isidro realiza sessões informativas para a comunidade abrigada, explicando as medidas de prevenção passo a passo. “Replicamos, para todos, as orientações de saúde que os gestores do abrigo nos dão”.

Os Warao também se organizam pela educação das crianças e jovens. A indígena Amarilis Jimenez, de 26 anos, é parte do comitê que promove atividades educativas e esportivas para os pequenos.

“Aqui, as crianças falam três línguas: espanhol, português e warao. É importante falarem espanhol e português para que possam seguir na escola no futuro. Mas também estamos fazendo todo o possível para que as crianças novamente se encontrem com sua cultura e sua língua”, defende Jimenez, que orienta os menores sobre o que é a COVID-19.

“O trabalho dos comitês é fundamental para a prevenção contra a COVID-19 nos abrigos. Eles estabelecem melhores canais de diálogo com a população abrigada e fortalecem a proteção dessas pessoas ao identificar necessidades e soluções dentro da própria comunidade”, explica José Egas, Representante do ACNUR no Brasil.

As atividades do ACNUR são apoiadas por doações da comunidade internacional, empresas e doadores individuais. Neste ano, a contribuição feita pelo governo do Japão voltada às ações de abrigamento na região norte do país foi fundamental para reforçar a resposta neste setor. O ACNUR agradece às importantes contribuições de todos os seus doares, que permitem o fortalecimento de mecanismos de proteção à população refugiada em situação de vulnerabilidade.

Acesse aqui a íntegra do Relatório de Registro e Abrigamento em Roraima (Abril 2020), do ACNUR.

O relatório foi realizado pelo ACNUR no marco da Plataforma R4V – Resposta a Venezuelanos, uma coordenação interagencial do sistema das Nações Unidas e da sociedade civil. A Plataforma R4V é composta por um conjunto de parceiros e tem como objetivo responder ao fluxo de venezuelanos na América Latina e Caribe. No Brasil, a Plataforma R4V é composta de 13 agências da ONU e 27 organizações da sociedade civil.