Falta de recursos agrava crise humanitária e COVID-19 no Iêmen

O Iêmen vive a pior crise humanitária do mundo. Cortes financeiros e a chegada da COVID-19 colocam milhões de vidas em risco

Nesta foto de fevereiro de 2020, Ipteehal, 9, brinca com sua irmã do lado de fora do prédio inacabado, onde moram com outras famílias deslocadas em Al Mukalla, no Iêmen. © ACNUR / Marie-Joëlle Jean-Charles

Depois de ter sofrido mais de cinco anos de conflito e deslocamento no Iêmen, incluindo a morte de seu marido e a destruição de sua casa, Ahlam, de 29 anos, pensava que as coisas não poderiam piorar.


Em 2015, Ahlam foi forçada a fugir de sua cidade natal, Taizz. Ela ainda não tem um lugar fixo para morar, e está vivendo com sua mãe e irmãs em um local alugado na cidade de Ibb. Elas dependem da ajuda humanitária que recebem da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e de outras organizações.

Mas então veio a pandemia de COVID-19, que representa uma ameaça particularmente crítica para pessoas deslocadas como Ahlam, que não possuem recursos para se sustentar e se proteger contra o vírus. Com apenas metade das instalações de saúde do país funcionando atualmente, muitos daqueles que necessitam de atendimento médica não conseguem acessá-lo.

“Estamos com medo”

“Por causa desta doença, temos medo e ficamos em casa”, explicou Ahlam. “Assistimos a três funerais na semana passada de pessoas que morreram subitamente.”

Para piorar a situação, a assistência que Ahlam e milhões de outros iemenitas e refugiados contam para sua sobrevivência está ameaçada por um corte grave no financiamento de ajuda. A partir deste mês, o ACNUR será obrigado a reduzir seu programa de assistência financeira.

O Iêmen vive a pior crise humanitária do mundo. Cerca de 24 milhões de pessoas precisam de ajuda e mais de 3,6 milhões foram obrigadas a deixar suas casas. A maioria das pessoas deslocadas vive em condições insalubres e superlotadas, impossibilitando o distanciamento físico e a lavagem regular das mãos.

Apesar das necessidades extremas da população, do total de 211,9 milhões de dólares que o ACNUR calcula como ideal para atender essas pessoas em 2020, apenas 63 milhões foram recebidos até agora. A quantia representa o equivalente a 30% do total.

Sem um aumento urgente de financiamento de pelo menos 89,4 milhões de dólares, o ACNUR não terá outra opção senão descotinuar o apoio vital que fornce a milhares de iemenitas, refugiados vulneráveis, ​​deslocados, o que inclui colchões, cobertores e abrigo de emergência. Ou seja, as pessoas serão forçadas a dormir ao ar livre.

“Abandonar o Iêmen agora não é uma opção”

Antes de uma Conferência sobre Promessas de Contribuições para o Iêmen, organizada pela ONU e pelo Reino da Arábia Saudita em 2 de junho, os chefes de 17 agências da ONU e de ONGs alertaram, na semana passada, que muitos iemenitas estão “ficando sem tempo. Eles pediram à comunidade internacional que fosse mais generosa com doações, e que apoiasse imediatamente as operações humanitárias.

“O ACNUR e seus parceiros estão comprometidos a dar suporte ao Iêmen, mas para isso acontecer, precisamos de fundos adicionais agora”, disse o representante do ACNUR no Iêmen, Jean-Nicolas Beuze.

“Por meio de nosso programa de assistência financeira, podemos fazer a diferença na vida de milhões de iemenitas nesse momento em que eles mais precisam de nós. Ninguém está seguro da COVID-19 sem que todos estejam protegidos. Abandonar o Iêmen agora não é uma opção”, acrescentou.

Veja também: ACNUR pede proteção à população civil do Iêmen

As consequências de uma redução na assistência a Ahlam e sua família seriam desastrosas, incluindo a ameaça real de perder o teto sobre suas cabeças, que elas só conseguiram garantir graças ao último apoio em dinheiro que receberam do ACNUR.

“Esse dinheiro nos salvou do despejo”, explicou Ahlam. “O proprietário queria nos tirar de casa, mas pagamos o aluguel de dois meses e usamos o restante do dinheiro para comprar comida porque não tínhamos nada em casa”.

Essa é uma história familiar para muitos iemenitas deslocados na cidade de Ibb e em todo o país, que está devastado pela guerra. Em Al Hudaydah, Omar fugiu com sua esposa e três filhos depois que sua casa foi atacada durante o conflito que também feriu vários de seus vizinhos.

“Nós dependemos da assistência humanitária porque não há empregos”

Depois de se estabelecer em Ibb, Omar e sua família agora dependem inteiramente da assistência que recebem para sobreviver. É quase impossível encontrar emprego em uma economia próxima ao colapso.

“Dependemos de assistência humanitária porque não há empregos”, disse Omar. “Sem o dinheiro que recebemos, como podemos viver? Nós deixamos nossas casas e nossas famílias, não temos ninguém aqui.”

Se o ACNUR e outras organizações forem forçadas a descontinuar seu apoio, Omar disse que seria obrigado a arriscar sua saúde durante a atual pandemia para tentar alimentar sua família ou enfrentar a possibilidade de fome.

“Nossa situação ficaria muito ruim. Eu teria que sair para encontrar algum emprego, mesmo que haja riscos de doenças. Não vou deixá-los passar fome.”


O ACNUR segue atuando no Brasil e no mundo para proteger refugiados, pessoas deslocadas e comunidades que os acolhem do novo coronavírus.

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