Deslocamento forçado quebra recorde em 2019

Relatório do ACNUR revela que mais pessoas estão fugindo da guerra, de conflitos e de perseguições no mundo inteiro. Para muitos, reconstruir suas vidas permanece fora de alcance

Venezuelanos atravessam o rio Tachira para chegar à Colômbia em abril de 2019 © ACNUR / Vincent Tremeau

Um por cento da população mundial foi forçada a deixar suas casas por causa da guerra, de conflitos e de perseguições para buscar segurança dentro de seu próprio país ou em outra nação, de acordo com o relatório “Tendências Globais 2019”, publicado hoje (18) pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados.


À medida que mais pessoas foram deslocadas no mundo do que em qualquer outro momento desde que o ACNUR lançou seu primeiro estudo global, cada vez menos delas puderam voltar para suas casas – ou mesmo construir vidas de maneira sustentável e satisfatório num outro país.

“Presenciamos uma realidade diferente à medida em que o deslocamento forçado, hoje em dia, não apenas está muito mais generalizado, como simplesmente não é mais um fenômeno temporário e de curto prazo”, afirmou o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Filippo Grandi.

No final de 2019, um total de 79,5 milhões de pessoas haviam sido deslocadas à força, de acordo com o relatório anual, em comparação com 70,8 milhões no ano anterior.

Esse aumento ocorreu em parte devido a situações preocupantes de novos deslocamentos em locais como a República Democrática do Congo, a região africana do Sahel, Iêmen e Síria. Por outro lado, também reflete a inclusão, pela primeira vez, dos 3.6 milhões de venezuelanos que foram deslocados de seu país, mas não haviam solicitado refúgio.

Até o final de 2019, um total de 4.5 milhões de pessoas deixaram a Venezuela, a região com o maior êxodo recente da história e uma das maiores crises de deslocamento do mundo. A maior parte deles buscou refúgio na América Latina e no Caribe.

Veja também: 1% da humanidade está deslocada: Relatório do ACNUR sobre Tendências Globais

Ano passado, Yosanni Martínez, 28, juntou-se às milhões de pessoas forçadas a fugirem da instabilidade econômica e política do país. Ela e seu irmão pegaram um ônibus para a fronteira com o Brasil e depois andaram durante 6 dias até a cidade de Boa Vista, no norte do país. Todas as noites, seu filho dormia no carrinho de bebê, enquanto ela e o irmão dormiam no chão.

“Eu deixei a Venezuela porque tenho um filho com deficiência. Ele tem paralisia cerebral. Não havia acesso à saúde, ou comida, ou qualquer medicamento que precisávamos”, disse Yosanni, que começou a trabalhar em uma pousada para juntar dinheiro e trazer seu marido e outros familiares para o Brasil. “Às vezes me sinto derrotada, mas tenho certeza que as coisas vão mudar para melhor”

Os dados até o final de 2019 apontam que existem 29,6 milhões de refugiados ou outras pessoas deslocadas de seus países, e 45,7 milhões de pessoas que tiveram que buscar refúgio dentro de seus próprios países. Além disso, quase 4,2 milhões pessoas estão aguardando o resultado de suas solicitações de refúgio.

Mais de dois terços da população de refugiados ou outros deslocados de seus países vieram de apenas cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Myanmar. E os países mais pobres do mundo continuam recebendo a maior parte dos refugiados.

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Uma mulher solicitante de refúgio do Afeganistão carrega seu filho mais novo no colo, para dentro da área de registro do centro Moira de Recepção e Identificação na ilha grega de Lesbos © ACNUR/Achilleas Zavallis

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Vumuli, 35, senta do lado de fora de uma igreja que está sendo usada como abrigo temporário para pessoas deslocadas internamente em Drodo, Província de Ituri, na República Democrática do Congo © ACNUR/John Wessels Vumuli

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Refugiados rohingya desembarcam de um ônibus no centro de registro e distribuição do ACNUR no assentamento Kutupalong, em Bangladesh © ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo

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Refugiados do Mali no campo Goudoubo, em Burkina Faso © ACNUR/Sylvain Cherkaoui

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O refugiado sírio Ahmad Hussain (terceiro da direita) e sua família em seu abrigo no campo de refugiados Azraq, na Jordânia © ACNUR/Lilly Carlisle

 

À medida que os conflitos se arrastavam e muitos países endureciam suas fronteiras, encontrar soluções de longo prazo para os refugiados – quer isso signifique ajudá-los a voltar para casa com segurança e voluntariamente, integrar-se à cultura local em um país anfitrião, ou o reassentamento em um terceiro país – revelou-se cada vez mais difícil.

Durante a última década, apenas quatro milhões de refugiados conseguiram retornar para seus países de origem, em comparação com os 10 milhões da década anterior. À cerca de 0,5% dos refugiados no mundo foi oferecida a possibilidade de reassentamento em 2019.

A questão do deslocamento não mostra sinais de abrandamento, pois as mudanças climáticas, a fome e os conflitos contribuem para crises cada vez mais complexas. Ao mesmo tempo em que o mundo se depara com a devastação econômica e social da pandemia da COVID-19,a crescente xenofobia e os países continuando a restringir a entrada de pessoas, o desafio de encontrar soluções que sejam duradouras para os refugiados está se tornando mais urgente.

“Nós necessitamos de uma atitude fundamentalmente nova e mais acolhedora com todos os que precisam fugir, aliada à iniciativa muito mais determinado para solucionar conflitos que se arrastam por anos e que estão na raiz de tanto sofrimento”, afirma Grandi. “Não se pode esperar que as pessoas vivam em estado de convulsão durante anos a fio, sem chance de voltar para casa, nem esperança de construir um futuro onde quer que elas estejam.”

“Se fosse seguro, eu voltaria sem pensar duas vezes”

Com o conflito na Síria em curso, o país continuou sendo a origem do maior número de refugiados, solicitantes de refúgio e deslocados internos: 13,2 milhões no total, cerca de um sexto dos deslocados à força do mundo. Os refugiados sírios que fugiram para os países vizinhos lutam com o trauma do deslocamento prolongado.

Ahmad, 43, e Fahemyh Hussain ,42, deixaram Alepo, na Síria, em 2016 quando os bombardeios se tornaram tão intensos que a única escolha era entre fugir ou morrer. Eles encontraram segurança em Amã, na Jordânia. Ahmad ainda lembra o alívio que sentiu quando seu filho de sete anos adormeceu em paz durante a primeira noite no campo de refugiado Azraq. Mas quatro anos depois, a tensão de viver no acampamento, especialmente durante o confinamento por causa da COVID-19, provou ser quase insuportável, disse ele.

“Eu quero prover para a minha família, ser um pai. Às vezes eu desejo que pudéssemos viver em um apartamento normal de novo, fora do campo de refugiados, e que eu tivesse um emprego para ir todo dia de manhã” ele diz. “Pelo menos aqui nós temos abrigo e as crianças podem ir à escola. Claro, se houvesse a possibilidade de voltar para a Síria, se fosse seguro, nós voltaríamos sem pensar duas vezes”.

Sarah Schafer reportou de Nova York, Victoria Hugueney de Brasília e Lilly Carlisle de Amã, na Jordânia.