Sudão do Sul completa nove anos e seu povo continua buscando paz

Apesar dos temores de um futuro incerto, os cidadãos da nação mais jovem do mundo se apegam à esperança de um Sudão do Sul pacífico.

Salwa Athoo, 37, ajuda a promover os direitos das mulheres como líder comunitária no assentamento para deslocados internos em que vive em Juba, no Sudão do Sul © ACNUR/Elizabeth Marie Stuart

Tudo começou quando ela interrompeu uma discussão em uma estação de água no assentamento para pessoas deslocadas de Dom Bosco, na cidade de Juba, Sudão do Sul. Lá, as longas filas sob o sol quente costumam levar as pessoas a brigarem e empurrar uns aos outros.


Foi nesse momento que ela participou de uma ação de intervenção com um vizinho alcoólatra e ajudou uma mulher a ter acesso a cuidados médicos após sofrer violência sexual.

Agora, Salwa Atoo, 37, mãe de sete filhos, de olhos brilhantes e uma atitude única, é a mediadora de conflitos do seu bairro. Desde disputas sobre utensílios de cozinha emprestados à violência doméstica: se houver um problema em Dom Bosco, Salwa fica sabendo e trabalha em uma solução.

“Não sei por que as pessoas me procuram em busca de ajuda”, diz ela.

Salwa é trabalha com costura e não completou educação formal.  Ela viveu toda a sua vida em uma pequena vila rural onde aprendeu que “uma mulher não tem o direito de falar diante dos homens”. Em 2014, ela se estabeleceu em Dom Bosco, depois de perder o marido e o lar para a guerra. Hoje, Salwa se orgulha de poder cuidar da sua comunidade.

Nove anos após a independência do Sudão do Sul, sete anos depois do início de uma guerra civil sangrenta e dois anos após as partes no conflito assinarem um acordo de paz, ainda há muito a ser feito no país mais jovem do mundo para garantir um futuro seguro e estável para seu povo.

Enquanto as partes do conflito formaram um novo governo unificado, o acordo de paz ainda está em processo de ser totalmente implementado e milhões de pessoas permanecem deslocadas – quase 1,7 milhão no Sudão do Sul e mais de 2,2 milhões como refugiados nos países vizinhos.

O conflito armado continua entre o governo e os que não assinaram o acordo de paz em algumas áreas. Em outras, a violência entre comunidades, impulsionada pela competição por recursos, fácil acesso às armas e desrespeito aos direitos fundamentais, está em ascensão.

“Todos têm seu próprio papel a desempenhar na construção da nação”

O impacto da violência se tornou ainda mais grave pela atual pandemia de COVID-19. As restrições de movimento devido às medidas de isolamento dificultaram a capacidade das organizações humanitárias de fornecer ajuda.

Em meio a toda incerteza, sul-sudaneses, como Salwa, continuaram a apoiar-se, como fizeram durante décadas de guerra e deslocamento, antes e depois da fundação do país. O caso de Salwa é apenas um exemplo de como as pessoas do Sudão do Sul estão alimentando as esperanças um do outro enquanto,  por meio de pequenas ações cotidianas, o país percorre um longo caminho rumo a uma paz duradoura.

“Todos têm seu próprio papel a desempenhar na construção da nação”, diz a refugiada retornada Angelina Nyajima. Ela fundou uma organização sem fins lucrativos chamada Esperança de Restauração para o Sudão do Sul (em tradução livre), com o objetivo de implementar projetos de construção da paz e de empoderamento feminino.

O projeto foi idealizado depois que ela passou 15 anos em campos de refugiados na Etiópia e no Quênia. A ONG aumentou a segurança de mulheres e meninas em Leer, reformando três estradas cobertas de vegetação, que se tornaram um esconderijo para criminosos. No momento, a ONG está construindo um tribunal aos moldes locais para apoiar os esforços de resolver conflitos familiares e comunitários pacificamente.

As contribuições de outras pessoas são mais discretas, mas não menos impactantes. Com resiliência e trabalho duro, Isaac Mabok, um deslocado interno que vive em um espaço da ONU para Proteção de Civis (POC) em Malakal, está ajudando a construir um futuro melhor para o Sudão do Sul e para seus sete filhos. Ele se recusou a desistir depois que perdeu a perna por um ferimento à bala e, consequentemente,  seu trabalho como agricultor. Em vez disso, Isaac encontrou um programa de treinamento profissional e adquiriu uma nova habilidade.

“Você precisa se esforçar para evitar ficar ocioso”, diz. “Levante-se por si mesmo, por sua família e sua comunidade, apesar de todos os desafios e dificuldades enfrentados. Com oração e fé em Deus, espero um amanhã melhor.”

“Quando os homens partem para a guerra, resta muito o que fazer para as mulheres”

Adesa Fiada é professora voluntária na Associação de Mulheres Anika em Yambio, Sudão do Sul. No local, mulheres e meninas se reúnem para compartilhar habilidades e recursos.

“Fazer um curso de costura enquanto eu era refugiada na República Democrática do Congo me deu propósito em momentos difíceis e me ajudou a cuidar da minha família”, lembra. “Quando os homens partem para a guerra, resta muito o que fazer para as mulheres.”

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Desde que Akendru Onesta saiu de Uganda, onde viveu em um campo de refugiados, e retornou para o seu país, Sudão do Sul, ela usa o dinheiro que ganha com seu trabalho como funcionária de campo do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, para pagar as mensalidades escolares para cinco sobrinhas e sobrinhos. Dessa forma, ela diz que espera “ajudá-los a um dia poder ajudar aos outros”.

“Não temos nada se não temos esperança”

As trajetórias de cada uma dessas pessoas, bem como a própria história do Sudão do Sul, foram repletas de desafios.

Cada um se questionou, assim como Angelina ao ver que os escritórios de sua ONG foram reduzidos a escombros durante a guerra civil, deslocando seus 15 funcionários: “O que estou fazendo? Às vezes parece que estamos nos esforçando muito para voltar ao ponto zero.”

Mas eles escolhem continuar comprometidos com as suas comunidades. “Não somos nada se não tivermos um ao outro”, diz Angelina. “Não temos nada se não temos esperança.”

Texto escrito com contribuições de Martim Gray Pereira, em JamJang e Serhii Chumakov, em Malakal.


Mesmo com recursos limitados, o ACNUR segue fazendo tudo que está ao alcance para oferecer ajuda e proteção para salvar vidas refugiados, pessoas deslocadas e comunidades que os acolhem no Sudão do Sul.

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