Como refugiados estão colocando em prática os objetivos de desenvolvimento sustentável

Em todo o mundo, pessoas deslocadas e apátridas estão agindo para deter as mudanças climáticas, alcançar a igualdade de gênero e resolver outros problemas complexos e alcançar os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável

Sahera colhe vegetais frescos no assentamento de refugiados de Kutupalong. © ACNUR/Kamrul Hasan

Em 2015, as Nações Unidas adotaram um conjunto de metas para acabar com a pobreza, erradicar a desigualdade e deter ou reverter os graves efeitos das mudanças climáticas até 2030.


Essas 17 metas – conhecidas coletivamente como Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ou ODS – comprometem os líderes mundiais a agir agora e não deixar ninguém para trás. O Secretário-Geral da ONU incita todos os setores da sociedade a contribuírem – incluindo empresas, organizações sem fins lucrativos e indivíduos – e recentemente declarou esta uma Década de Ação.

No ACNUR, a Agência da ONU para os Refugiados, sabemos que aqueles que são mais adversamente afetados pelos desafios do mundo geralmente estão em melhor posição para descobrir e implementar soluções. Pessoas forçadas a fugir de conflitos ou perseguições, assim como aqueles que são apátridas, frequentemente não têm acesso a educação de qualidade, saúde e meios de subsistência – e a pandemia de coronavírus exacerbou a desigualdade. Mas muitos descobriram maneiras de cultivar de forma sustentável, criaram negócios prósperos e, mais recentemente, desenvolveram soluções para ajudar a prevenir a disseminação da COVID-19.

O ano de 2020 marca o 75º aniversário da fundação das Nações Unidas. É um momento oportuno para refletir sobre o que todos devemos fazer para alcançar um futuro melhor e mais sustentável para todos. Veja como os refugiados estão liderando o caminho:

 

A maioria dos refugiados do mundo, cerca de 85%, vive em países em desenvolvimento, com quase um terço hospedado nos países menos desenvolvidos do mundo. Apesar dos enormes obstáculos, entre eles há muitos empresários e donos de negócios que estão reconstruindo suas vidas, sustentando a si mesmos e suas famílias e contribuindo para as comunidades que os acolhem.

Deilys, uma venezuelana de 36 anos e mãe de dois filhos, abriu seu próprio negócio de planejamento de eventos depois de fugir para o Equador e pedir asilo. Ela comprou um forno, uma geladeira e uma batedeira com o dinheiro inicial do Modelo de Graduação do ACNUR, uma iniciativa que oferece treinamento vocacional, apoio emocional e orientação, bem como apoio financeiro e empresarial. Ela agora vende sobremesas veganas em feiras de rua e outros eventos e espera abrir sua própria loja em breve.

“Não temos tudo, mas vivemos bem. Não temos dívidas e nunca estamos atrasados no aluguel. E quando chegam os aniversários, temos o suficiente para comprar presentes para nossos filhos”, afirma Deilys.

Deilys faz sobremesas veganas em casa e as vende em feiras e eventos no Equador. © ACNUR/Jaime Giménez Sánchez de la Blanca

 

Conflitos e desastres, falta de financiamento, desafios logísticos, aumento dos preços dos alimentos e perda de renda devido à COVID-19 ameaçam deixar muitos refugiados sem comida suficiente. Para combater a insegurança alimentar, as pessoas deslocadas à força estão encontrando maneiras inovadoras de cultivar e fornecer frutas e vegetais frescos para suas comunidades.

Sahera, uma refugiada rohingya no sul de Bangladesh, plantou sua própria horta para fornecer alimentos frescos para seus filhos, dividir com os vizinhos e vender para lojas locais. Ela cultiva espinafre, cabaças e abóboras – um dos pratos favoritos de sua filha mais nova, Fatema. O projeto agrícola é uma iniciativa do ACNUR e de sua ONG parceira BRAC, uma organização internacional de desenvolvimento com sede em Bangladesh.

“Meus filhos ficam ansiosos para ver os legumes. Isso nos lembra de nossa fazenda em casa. Esses vegetais têm um gosto muito bom, então não tenho que comprar nenhum no mercado. Não só temos vegetais para nós, mas muitas vezes os compartilhamos com nossos vizinhos. Se tivermos sobras de produtos, nós os vendemos para lojas próximas”, diz Sahera.

Sahera colhe vegetais frescos no assentamento de refugiados de Kutupalong. © ACNUR/Kamrul Hasan

 

Pessoas forçadas a fugir de conflitos ou perseguições geralmente não têm acesso a cuidados de saúde mental. Desde o início da pandemia de COVID-19, o ACNUR recebeu relatos alarmantes de um aumento nos problemas de saúde mental no Oriente Médio e na África. Os refugiados estão encontrando maneiras de fornecer serviços de saúde mental.

Falak Selo (à direita) oferece suporte de saúde mental no campo de Al-Qalaa, no norte do Iraque. © ACNUR/Seivan M. Salim

Falak Selo, refugiada síria que vive no Iraque, trabalha na unidade de saúde mental e apoio psicossocial da Agência da ONU para Refugiados. Ela e seus colegas realizam sessões de bem-estar improvisadas com os vizinhos e fornecem aconselhamento individual. Todos eles fizeram cursos de “primeiros socorros” psicológicos, o que os ajuda a identificar e, em alguns casos, a tratar condições psicológicas como estresse, ansiedade ou depressão. Em casos mais graves, esses trabalhadores comunitários encaminham as pessoas para psiquiatras e psicólogos, mas seus serviços têm permitido que mais pessoas recebam cuidados intensivos.

“Fico satisfeita quando vejo que as pessoas estão confiando em mim e voltando para buscar apoio. Estou acompanhando os casos que precisam de mais cuidados, pois todos somos vizinhos aqui. Faço isso durante o horário de trabalho e após o expediente, quando os vizinhos nos visitam e conversamos durante o chá”, afirma Falak.

 

Mais da metade de todos os refugiados tem menos de 18 anos, embora a educação de qualidade esteja frequentemente fora de alcance. Mais de 1,8 milhão de crianças, ou 48% de todas as crianças refugiadas em idade escolar, estão fora da escola. Apenas 3% dos refugiados do mundo têm acesso ao ensino superior. Alguns que chegaram à universidade esperam inspirar a próxima geração por meio do ensino.

Kobra Yusufy, 27, sonhava em estudar computação depois de ver seu irmão trabalhando em um laptop emprestado. Ela agora estuda engenharia de software na Universidade de Cabul graças a uma bolsa de estudos da Albert Einstein German Academic Refugee Initiative (DAFI). A bolsa DAFI, administrada em conjunto pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e o ACNUR, cobre mensalidades para refugiados, bem como despesas relacionadas com alimentação, transporte e materiais de estudo.

Kobra, ex-refugiada que voltou com sua família para seu país natal, o Afeganistão, foi uma das primeiras bolsistas DAFI de seu país. Ela sonha em um dia ensinar jovens a usar computadores e ajudar crianças refugiadas a obter uma educação de qualidade.

“Será uma forma de apoiar as comunidades. Eu sei o que é sofrer com uma educação ruim. Junto com meus outros colegas de classe, quero organizar cursos gratuitos de três a quatro meses e gostaria especialmente de ensiná-los na minha antiga escola”, afirma a jovem.

Kobra Yusufy estuda ciência da computação na Universidade de Cabul, no Afeganistão © ACNUR/Farzana Wahidy

 

79,5 milhões de pessoas permaneciam deslocadas à força até o final de 2019 – mais da metade delas mulheres e meninas. Aquelas que fugiram sozinhas, incluindo mães grávidas ou solteiras, deficientes ou idosos, são especialmente vulneráveis. Mulheres refugiadas estão traçando seus próprios caminhos e apoiando outras mulheres.

Safaa, ex-designer de joias que fugiu da Síria depois que sua casa foi destruída, se inscreveu para o que ela pensava ser uma oficina de fundição de ouro. Quando ela e suas amigas chegaram ao centro de treinamento, perceberam que haviam se matriculado em um curso de encanamento. Erro dela: a palavra árabe usada na Síria para “fundição de metal” (sabaka) referia-se a “encanamento” na Jordânia.

Ela e suas amigas, assim como a instrutora, eram as únicas mulheres no curso e ela decidiu ficar e completar o treinamento. Hoje, Safaa possui seu próprio negócio em todo o país, fornecendo trabalho para 36 encanadores freelancers, mais da metade dos quais são refugiados sírios. Ela também dirige o único centro de treinamento da região para encanadoras, ensinando centenas de mulheres.

“Uma mulher é o carpinteiro, o ferreiro e o canalizador da sua própria casa – é normal. Mas se ela vai e faz esse trabalho na casa de outra pessoa, torna-se incomum. Parte da minha persistência em fazer este trabalho é desafiar estereótipos e quebrar tabus, por isso estou muito orgulhosa de mim mesma e das mulheres que trabalham comigo. Tento ajudar as mulheres a se empoderarem”, afirma Safaa.

Safaa (centro) ensina encanamento para refugiadas sírias em seu centro de treinamento em Irbid, Jordânia © ACNUR/Jose Cendon

 

Quando as pessoas fogem de conflitos ou perseguições, muitas vezes lutam para ter acesso fácil e seguro à água, saneamento e instalações de higiene, quer vivam em campos, cidades ou vilas rurais. Nos campos de refugiados, o ACNUR visa fornecer um mínimo de 20 litros de água por dia para cada pessoa. Ainda assim, alcançamos essa marca crítica em apenas 43% dos campos. Os refugiados estão ajudando a preencher essa lacuna.

Ferida, uma refugiada do Sudão do Sul, criou sua própria estação de lavagem de mãos em frente a sua casa no assentamento de Bele, na República Democrática do Congo (RDC). Essas torneiras, feitas de galhos e materiais reciclados, como velhas latas de plástico, ajudam a promover a boa higiene e a combater a disseminação da COVID-19. Um pedal libera a água para que as pessoas não tenham que tocar em nenhuma parte da torneira com as mãos. Centenas de refugiados aprenderam a fazer os dispositivos.

“Assim meus filhos podem lavar as mãos a qualquer hora. E isso mostra um exemplo para meus vizinhos, que eles deveriam lavar as mãos também”, diz Ferida.

Ferida demonstra como usar o dispositivo para lavar as mãos que ela fez © ACNUR/Jean-Jacques Soha

 

Pelo menos quatro em cada cinco deslocados à força dependem da lenha para cozinhar e se aquecer, o que pode levar ao desmatamento e aumentar os riscos para mulheres e meninas que muitas vezes precisam fazer longas viagens para coletá-la. Mais de 90% dos refugiados que vivem em campos têm acesso limitado ou nenhum acesso à eletricidade, o que torna difícil cozinhar, manter-se aquecido, estudar ou trabalhar. Os refugiados estão encontrando maneiras de fornecer energia limpa e acessível para eles e seus vizinhos.

Uma cooperativa de 70 refugiados somalis e mulheres etíopes locais no sudeste da Etiópia estão fabricando e vendendo briquetes feitos de prosopis juliflora – uma árvore pontiaguda que destrói a vegetação ao seu redor – como uma fonte de energia mais limpa e mais barata do que a madeira. Eles fazem parte de um programa maior de cooperativas – algumas das quais colhem e vendem a planta – apoiadas pela Fundação IKEA e pelo ACNUR.

Aden Abdullahi Ahmed, membro da cooperativa Dollo Ado, diz que espera que seu trabalho beneficie as futuras gerações de comunidades anfitriãs e refugiados. Grupos como este criam empregos, reduzem a competição por recursos escassos e tornam a vida mais segura para mulheres e meninas – que geralmente são obrigadas a viajar para longe de casa para conseguir lenha.

“Cortar o prosopis é útil para a energia. Ao mesmo tempo, você o está erradicando e limpando o mato, para que os agricultores possam se beneficiar com as terras vazias”, lembra Aden.

Aden trabalha com outros membros da cooperativa Dollo Ado cortando árvores prosopis © ACNUR/Eduardo Soteras Jalil

 

70% dos refugiados vivem em países que restringem seu direito ao trabalho. Capacitar os refugiados para ganhar a vida e participar nas economias locais é fundamental para que eles reconstruam suas vidas. Muitos refugiados, quando têm direito ao trabalho, abrem seus próprios negócios, apoiando suas famílias e impulsionando as economias locais.

Salma Al Armarchi, 53, veio para a Alemanha como refugiada da Síria. Em sua cidade natal, Damasco, ela cozinhava para se divertir ou com amigos, muitas vezes doando comida para pessoas necessitadas. Quando chegou a Berlim com o filho, Salma se esforçou para aprender alemão e encontrar um trabalho estável. Depois que uma amiga pediu que ela preparasse alguns de seus pratos favoritos da Síria para um piquenique da escola, ela recebeu uma enxurrada de pedidos. Salma logo fundou a Jasmin Catering, assim chamada por causa das flores brancas que florescem na primavera de Damasco. Hoje, sua empresa de catering serve comida síria para clientes de alta tecnologia, como Facebook e Cisco.

“Estamos felizes em trazer novos sabores para as pessoas. Agora, mais pessoas estão quebrando a barreira, experimentando nossa comida e gostando dela”, comemora Salma.

Salma (centro) cozinha com seu filho Fadi Zaim (direita) e dois outros funcionários em Berlim © ACNUR/Gordon Welters

 

A falta de conectividade com a Internet para muitos refugiados em campos e ambientes urbanos, bem como dispositivos caros e oportunidades de treinamento limitadas, impede que muitos deslocados à força aproveitem as vantagens das novas tecnologias. Mas, quando têm a chance, muitos refugiados usam tecnologia de ponta para resolver problemas.

Marwan, um refugiado sírio que estuda robótica no Laboratório de Inovação no campo de refugiados de Za’atari, na Jordânia, projetou e construiu um robô com seus colegas que dispensa desinfetante para as mãos automaticamente para que as pessoas não tenham que tocar em uma garrafa. Ele espera que esta invenção possa ajudar a proteger as comunidades locais e de refugiados no campo e além. O robô é feito de tijolos de LEGO. A equipe de Marwan decidiu disponibilizar seu projeto gratuitamente e compartilhá-lo fora do acampamento para que mais robôs pudessem ser feitos.

“Fizemos este robô para contribuir como refugiados. Queremos fazer parte da luta contra o coronavírus”, afirma Marwan.

 

A COVID-19 exacerbou as desigualdades nos cuidados de saúde, habitação e emprego. Mesmo antes da pandemia, muitas pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e intersexuais (LGBTI) refugiadas enfrentavam ameaças contínuas depois de fugirem da perseguição e da violência em casa. Muitos estão quebrando barreiras e defendendo a igualdade em seus novos lares.

Depois que seu irmão foi assassinado em 2016, Valentinna Rangel, uma mulher transgênero, fugiu da instabilidade e da perseguição na Venezuela e encontrou refúgio no Chile. Em seu novo país, ela recebeu os tratamentos hormonais que lhe permitiram completar a transição de gênero, obteve um visto profissional, conseguiu um emprego em uma prestigiosa empresa de publicidade e iniciou um programa de mestrado. Valentinna defende os refugiados LGBTI e é membro de uma rede nacional de refugiados e migrantes LGTBI, coordenada pelo ACNUR, que aumenta a conscientização e apoia organizações de direitos humanos no fornecimento de assistência e orientação à comunidade LGBTI.

“Tinha medo de sair de casa ou procurar emprego. Eu tinha medo de sofrer discriminação por ser transgênero. Pela primeira vez, me sinto valorizada por quem sou. Sinto que meus colegas ouvem minhas ideias e prestam atenção à minha inteligência, não à minha identidade de gênero”, afirma Valentinna.

Valentinna é publicitária, estudante e defensora dos direitos dos refugiados LGBTI © ACNUR/Hugo Fuentes

 

A maioria dos 26 milhões de refugiados do mundo vive em áreas urbanas. Os refugiados estão ajudando a construir cidades inclusivas e mais sustentáveis.

Originário de Idlib, Síria, Ehab e sua família buscaram refúgio em Amã, Jordânia. Sua família economizou para que ele pudesse ir para a universidade, onde estudou ciência da computação. Depois de se formar, Ehab foi voluntário em um laboratório de inovação em Amã e ensinou programação para outros refugiados sírios e locais.

Ehab conduz um workshop sobre inovação digital na Universidade Yarmouk, na Jordânia © ACNUR/Jose Cendon

Ehab e sua parceira de negócios jordaniano, Amani, no Zain Innovation Campus em Amã, Jordânia © ACNUR/Jose Cendon

Observando que muitos alunos tiveram dificuldade para aprender programação, Ehab desenvolveu um kit que incluía instruções passo a passo em vídeo para ajudá-los a aprender em casa. Junto com um de seus alunos mais ávidos, uma jordaniana chamada Amani, ele fundou a Drag IOT (internet das coisas), que vende kits de programação de alta tecnologia. Ele também conduz workshops sobre inovação digital para refugiados na Universidade Yarmouk em Irbid, Jordânia.

“Quando eu era criança, desmontava meus jogos eletrônicos apenas para explorar o que havia dentro deles”, lembra Ehab. “Como sírio e jordaniana, nossa parceria representa uma história de sucesso com a qual outros podem aprender. Tenho orgulho de que alguém como Ehab esteja conseguindo tudo isso e ajudando a mim e a outros jordanianos, sem se considerar um refugiado vulnerável. Se todos pensassem assim, imagine como isso seria ótimo”, completa Amani.

 

As pessoas mais vulneráveis do mundo, incluindo muitas que foram forçadas a fugir de suas casas, muitas vezes sofrem os piores efeitos das mudanças climáticas e da destruição ambiental. Os refugiados estão se juntando à luta para promover o consumo e a produção responsáveis em campos, vilas e cidades, às vezes restaurando as florestas uma árvore de cada vez.

Geal Deng Nyakong, refugiada do Sudão do Sul, trabalha em um viveiro de árvores no Sudão, onde planta e cuida de mudas ao lado de seus vizinhos sudaneses. Eles pretendem plantar um milhão de árvores em uma grande campanha de reflorestamento no estado do Nilo Branco, no Sudão. Além de restaurar florestas, o projeto vai aproximar a produção de lenha da população. Geal viu em primeira mão como o desmatamento afetou o meio ambiente que ela chama de lar desde que fugiu da violência no Sudão do Sul em 2014, e está animada com as perspectivas do viveiro de árvores.

“Entrei no projeto para ganhar um pouco de dinheiro para comprar comida e algumas roupas e para aprender novas habilidades sobre o plantio de árvores”, afirma Geal.

Geal (à direita) ao lado de mulheres sudanesas com quem ela trabalha no viveiro de árvores © ACNUR/Vanessa Zola

 

Desastres mais frequentes, intensos e repentinos relacionados ao clima forçam uma média de 21,8 milhões de pessoas por ano a abandonar suas casas, de acordo com o Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno. O aumento das temperaturas leva a recursos naturais limitados, como água potável, plantações e gado, exacerbando conflitos, criando insegurança alimentar e destruindo meios de subsistência. Os refugiados estão na vanguarda da luta pela ação climática, e os jovens refugiados, em particular, estão exigindo que sejam incluídos na tomada de decisões para mitigar os impactos adversos das mudanças climáticas.

Foni e Barth participam da Marcha Climática 2019 em Nova York © ACNUR/Dana Sleiman

Foni e Barth encontram-se com a Alta Comissária Adjunta da ONU para Refugiados, Kelly Clements, para discutir a importância da liderança dos jovens refugiados no desenvolvimento sustentável e na ação climática © ACNUR/Aidan Nguyen

Foni Vuni e Barth Mwanza viajaram para a ONU em 2019 para falar a favor da ação climática. Ambos são membros do Conselho Consultivo Global para Jovens do ACNUR (Global Youth Advisory Council), que é formado por jovens refugiados, deslocados internos e apátridas. Eles se reuniram com líderes da ONU, participaram da Marcha do Clima em Nova York (onde Greta Thunberg falou) e defenderam a inclusão de jovens refugiados no planejamento de desenvolvimento sustentável.

Barth mora no campo de refugiados de Tongogara, no Zimbábue, onde os residentes estão se recuperando dos efeitos devastadores do ciclone Idai, que ocorreu em março de 2019. Jovens refugiados de sua comunidade se mobilizaram para ajudar nas atividades de recuperação, reabilitação e reconstrução. Hoje, ele continua a convocar eventos de limpeza e liderar campanhas de conscientização com outros refugiados sobre a necessidade de ação climática e sustentabilidade alimentar.

Foni, cuja família fugiu do Sudão do Sul e agora vive no Quênia, falou em muitas reuniões da ONU, incluindo a Cúpula do Clima da Juventude da ONU (UN Youth Climate Summit). Ela se reuniu com tomadores de decisão como a Alta Comissária Adjunta da ONU para Refugiados e o Enviado do Secretário-Geral para a Juventude.

“Foi importante para mim enfatizar que os jovens têm energia, motivação e conhecimento para se engajar na ação climática. Dizem que o futuro pertence aos jovens, mas o presente também pertence a nós” diz Barth. “Eu acho que é importante que os refugiados participem das mudanças na sociedade. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável não foram desenvolvidos para um grupo específico de pessoas. Eles foram desenvolvidos para todos, incluindo refugiados”, conclui Foni.

 

A poluição ameaça oceanos, rios e outras fontes d’água das quais as comunidades dependem para beber e se alimentar. Voluntários e ativistas refugiados estão trabalhando para proteger os ecossistemas marinhos e costeiros.

Voluntários no Cairo limpam destroços nas margens do Rio Nilo no Dia Mundial da Água em 2019 © ACNUR/Pedro Costa Gomes

Omar, refugiado do Sudão e voluntário © ACNUR/Pedro Costa Gomes

Omar criou um grupo de jovens no Egito para ajudar refugiados sudaneses como ele a se integrarem à comunidade local. No verão passado, ele foi um dos 50 refugiados que trabalharam ao lado de 800 egípcios locais para limpar as margens dos rios ao longo do Nilo, que supre 90% das necessidades de água doce do Egito.

A equipe de refugiados e egípcios transportou plástico de ilhas flutuantes de lixo que se acumularam nas margens do Nilo, no centro do Cairo. Em um dia, os voluntários removeram 11,5 toneladas de lixo. “Os voluntários voltarão para casa e dirão aos pais que refugiados de diferentes comunidades os ajudaram a limpar o Nilo, e isso mudará sua compreensão de nós para melhor”, afirma Omar.

 

É necessário gerir de forma sustentável os recursos naturais e os ecossistemas em ou perto de locais de acolhimento de refugiados em áreas rurais e urbanas e minimizar os impactos ambientais. Alguns refugiados estão abrindo caminho na proteção de espécies ameaçadas de extinção e educando outras pessoas sobre a importância da conservação.

O assentamento de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh, acolhe centenas de milhares de refugiados rohingya. Ele também faz parte de uma rota migratória entre Mianmar e Bangladesh para elefantes asiáticos ameaçados de extinção. Os elefantes que vagam pelo campo pisotearam abrigos e ocasionalmente mataram refugiados.

Uma placa no assentamento de refugiados Kutupalong em Bangladesh aumenta a conscientização sobre os elefantes © USAforUNHCR/Nicholas Feeney

Bashir, um refugiado rohingya, é voluntário da Equipe de Resposta a Elefantes de Kutupalong, ajudando a direcionar os elefantes com segurança para longe do campo © USAforUNHCR/Nicholas Feeney

Reconhecendo a necessidade de garantir a conservação dos elefantes e ao mesmo tempo proteger os refugiados, uma “força de presas” foi criada e treinada pelo ACNUR e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Os voluntários refugiados das equipes de resposta a elefantes (ERTs) ficam em torres de observação e soam um alarme se elefantes entrarem no local. Os voluntários também ensinam os residentes a como reagir se os elefantes entrarem no acampamento. Além disso, aumentam a conscientização e a compreensão sobre a necessidade de proteger esta espécie ameaçada de extinção. A palavra para elefante na língua rohingya significa “tio”. Existe um sentido de responsabilidade sincero pelos elefantes.

“Quando vemos um elefante no campo, tocamos a sirene para avisar a todos. Em seguida, fazemos uma corrente humana em forma de U para mover o elefante para longe do acampamento”, conta Bashir.

 

A nacionalidade é negada a milhões de pessoas em todo o mundo devido à discriminação com base na raça, etnia, religião, idioma ou gênero, ou devido a lacunas nas leis de nacionalidade. Muitas vezes, elas não têm permissão para ir à escola, consultar um médico, conseguir um emprego, abrir uma conta no banco, comprar uma casa ou até mesmo se casar. As pessoas apátridas estão liderando o caminho ao exigir mudanças.

Nascida em 1988 no Líbano e filha de pais sírios, Maha Mamo não teve identidade nacional até os 30 anos devido às leis restritivas e injustas dos países com os quais tinha ligações. Os desafios de frequentar a escola, ir ao médico, passar pelos controles de segurança ou até mesmo conseguir um cartão de celular tornavam sua vida uma luta diária. Em 2016, ela fugiu para o Brasil e, em 2018, o Brasil lhe concedeu a cidadania.

Hoje, Maha defende milhões de pessoas que ainda não têm uma nacionalidade. Ela fala contra leis de cidadania injustas, especialmente aquelas que discriminam com base no gênero. “Tudo o que as pessoas acham normal, eu tive que lutar para conseguir. Educação, trabalho, saúde e viagens. Minha vida estava em perigo, eu poderia ir para a cadeia… Eu nunca imaginei que esse dia chegaria. Este é o sonho da minha vida se tornando realidade”.

A ativista apátrida Maha Mamo recebe cidadania brasileira em um evento sobre apatridia que ocorreu paralelo à reunião do ACNUR 2018 da Excom © ACNUR/Susan Hopper

 

A Agenda 2030 enfatiza a importância da conexão dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e das parcerias para abordá-los. Parcerias inclusivas são a base para alcançar os ODS, e o ACNUR trabalha com comunidades e parceiros deslocados à força para alcançá-los.