Refugiados indígenas recebem barcos do ACNUR no Pará

Os Warao, etnia indígena venezuelana que vive nas margens do Rio Maguari, na região metropolitana de Belém, resgatam suas raízes de “povo da água” com ajuda do ACNUR

Sete homens do grupo indígena Warao que vive no Curuçambá, no município de Ananindeua (PA), remam um dos dois barcos doados pelo ACNUR no início de dezembro © ACNUR/Victoria Hugueney

Belém, 4 de janeiro de 2021 – Como parte do apoio à resposta humanitária emergencial ao fluxo de venezuelanos no estado do Pará, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) entregou dois barcos e itens de pesca à comunidade indígena Warao em situação de refúgio que vive no Curuçambá, às margens do Rio Maguari no município de Ananindeua, na região metropolitana de Belém.

Na manhã do dia 9 de dezembro, oito voluntários da comunidade foram com a equipe do ACNUR e do CRAS de Ananindeua buscar uma encomenda que faria, a partir de então, toda a diferença na vida da comunidade de aproximadamente 100 pessoas – muitas das quais crianças e idosos.

“Ficamos muito felizes de receber tudo isso que será entregue hoje, os barcos e os motores, os materiais de pesca, tudo isso… me sinto muito feliz, todos estamos felizes aqui”, afirma o Aidamo (líder comunitário) Luis Jose Arzolay, que vive no Brasil há dois anos e meio.

Violência e fome foram os motivos que fizeram com que ele e seus familiares não encontrassem nenhuma solução a não ser sair do seu país de origem em busca de proteção no Brasil. “Na Venezuela não é assim, lá você consegue tudo isso, mas é muito caro, e daí não se pode comer todos os dias”, afirma.

O ACNUR estima que 3.200 dos 5 mil indígenas venezuelanos vivem atualmente no Brasil são solicitantes da condição de refugiado. Deste total, 65% são indígenas da etnia Warao.

“Os Warao, cujo significado se refere a “povo da água”, têm a pesca como elemento muito forte da sua cultura e de identidade com suas terras originárias. Eles estão tendo essa oportunidade, a partir desses materiais que entregamos, de restaurar uma maneira tradicional de viver nesse novo espaço”, afirma a assistente sênior de campo do ACNUR em Belém, Julia Capdeville.

Os dois barcos foram produzidos por pescadores brasileiros locais a partir de uma demanda da própria comunidade indígena ribeirinha, como parte de sua estratégia comunitária de segurança alimentar e geração de renda.

“Com a chegada dos botes estaremos melhores, quando sairmos para pescar e voltarmos com o pescado, teremos o suficiente para vender para comprar pão, e disso viveremos aqui”, comenta o Aidamo.

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Já voltando para a comunidade, o grupo dá sua primeira volta no novo barco de pesca © ACNUR/Victoria Hugueney

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Parte das crianças que vive na comunidade foi conferir as entregas dos materiais de pesca fornecidos pelo ACNUR © ACNUR/Victoria Hugueney

 

Apesar de terem sido forçados a deixar suas terras originárias, a região amazônica onde vivem traz para o povo Warao muitos dos recursos que dispunham no Delta do Orinoco, no leste da Venezuela.

Nesta região, encontram sua árvore sagrada, o Buriti, do qual obtém matéria-prima para produção de moradia, alimentos e medicamentos. Da palha do Buriti, artesãs mulheres da comunidade fazem artesanatos, como já expostos no Casa Museu do Objeto Brasileiro, em São Paulo. Além disso, o Povo da Água (significado de “Warao”) pode desfrutar do rio Maguari como se fosse o rio Orinoco.

A ação contou com o apoio do Município de Ananindeua, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social, que acompanha a comunidade ribeirinha brasileira e venezuelana da região e atua por meio de agentes comunitários na promoção de direitos humanos e acesso a serviços básicos.

“Essa é uma conquista muito gratificante para nós, é uma luta que teve começo, meio e fim”, disse Lucinene Moraes da Silva, auxiliar administrativa da equipe volante do CRAS Curuçambá. “Como moradora da ilha, conheço a realidade e as dificuldades de quem vive aqui”, acrescenta. “Por isso viemos facilitar esse processo da contratação dos barcos. Essa é a função do CRAS, estar sempre de portas abertas para trazer melhores condições àqueles que mais necessitam.”

O Pará atualmente acolhe cerca de 900 indígenas venezuelanos que buscam a condição de refugiado no Brasil. O ACNUR acompanha a atua em prol desta e de outras comunidades indígenas venezuelanas no Pará desde 2018, com a abertura do escritório em Belém.

As ações do ACNUR incluem a promoção do acesso à documentação, aos serviços público e garantia de direitos, além do apoio técnico no abrigamento, fortalecimento das capacidades da rede local e do engajamento de base comunitária, fornecendo itens de higiene e limpeza no combate à pandemia da Covid-19.