Copa de los Refugios movimenta comunidades em Boa Vista
Copa de los Refugios movimenta comunidades em Boa Vista
Times femininos e masculinos dos abrigos da Operação Acolhida participaram da segunda edição do torneio que desta vez estava em clima de Copa do Mundo
As cordas vocais de Yudilla estavam em dia. E foram muito bem usadas nos jogos da Copa de los Refugios, em Boa Vista. Ela era, sem sombra de dúvidas, a torcedora mais apaixonada e entusiasmada da arquibancada no primeiro dia do torneio.
Enquanto torcia (e sofria) pelo seu time, Yudilla também transmitia ao vivo pelo celular
De volta ao ginásio no sábado, dessa vez Yudilla tinha ainda mais motivos para torcer. Sua filha, Yuliannyz Maria era uma das atletas que jogava pelo time do abrigo Tuaranoko.
“Foi espetacular! Maravilhoso! Minha filha estava jogando, ela adora jogar futebol e fez três gols”, vibra.
Mãe e filha estavam animadas com a vitória no fim do campeonato
Futebol mobiliza pessoas, mexe com emoções e reúne diversas culturas. Não foi diferente na Copa de los Refugios, realizada na capital de Roraima nos dias 18 e 20 de junho de 2026, no marco do Dia Mundial do Refugiado. A ação foi organizada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Força Tarefa Logística Humanitária da Operação Acolhida, AVSI Brasil e Klabu.
Seis times formados por pessoas refugiadas que estão vivendo temporariamente em abrigos da Operação Acolhida disputaram o troféu no ginásio da Praça Treze de Setembro. Na primeira tarde, jogaram os times masculinos dos abrigos Jardim Floresta, Rondon 1, Rondon 5 e Tuaranoko. No sábado foi a vez dos times femininos dos abrigos Tuaranoko e Rondon 1 e a final masculina entre os classificados Tuaranoko e Jardim Floresta.
As equipes que levantarem os troféus da vitória foram do abrigo Tuaranoko, tanto masculino quanto feminino. Todos os atletas receberam medalhas de participação. Julio Cesar, indígena da etnia Warao, jogou na equipe masculina vencedora e contou como foi a trajetória na copa.
“Primeiro vencemos uma luta entre oito times dos abrigos, depois chegamos à semifinal e agora à final. Tínhamos um objetivo conjunto e somos unidos. Viva o Tuaranoko!”, comemora.
Julio Cesar segura o troféu do Tuaranoko junto aos companheiros de time
A Copa de los Refugios não mobilizou apenas os atletas e a torcedora Yudilla. As arquibancadas estavam cheias de familiares e amigos. Dava para ver também pessoas curiosas que passavam pela praça e ficavam para assistir. O esporte é uma ferramenta valiosa de inclusão e convivência pacífica entre comunidades refugiadas e de acolhida, neste caso, venezuelanos e brasileiros.
“Estamos vivenciando aqui algo muito além do esporte ou do futebol. Estamos celebrando a inclusão social. Este torneio evidencia a integração, o recomeço das pessoas que tiveram que sair de seus países e estão hoje no Brasil contribuindo para nossa sociedade e reconstruindo suas histórias” destaca o chefe de escritório do ACNUR em Boa Vista, Rafael Levy.
O casal Melania e Lolis jogaram junto no mesmo time. Melania conta que trouxe a família para assistir. “Eu gosto muito de jogar futebol desde pequena e foi muito bom jogar junto com a Lolis. Tudo foi muito bom!”, celebra.
Melania e Lolis seguram juntas o troféu de primeiro lugar da Copa de Los Refugios segundos antes da comemoração com o time completo
Além das quatro linhas
Quando o assunto é inclusão de pessoas refugiadas, o Brasil tem uma legislação de vanguarda que permite que as pessoas refugiadas sejam documentadas ao chegar no território nacional e possam acessar sistemas de saúde, educação, abrir contas em bancos e buscar oportunidades no mercado de trabalho. A Operação Acolhida, resposta humanitária do Governo Federal para o fluxo migratório de venezuelanos na fronteira entre os dois países, é também um exemplo de iniciativa bem-sucedida.
“Somos uma referência internacional em acolhimento e inclusão de pessoas refugiadas. É também no esporte que a Operação Acolhida promove ações de integração por meio de várias modalidades, do xadrez ao basquete para cadeirantes. Ao lado do ACNUR, estamos fortalecendo estratégias de sucesso para que pessoas refugiadas possam se conectar em comunidade, gerando pertencimento e dando o primeiro passo de integração com a sociedade brasileira” ressalta o Tenente-Coronel Magno Lopes, chefe da Assessoria de Comunicação da Operação Acolhida.
Golaço coletivo
A ideia de realizar a Copa de los Refugios foi abraçada por várias pessoas e organizações. As partidas finais do torneio contaram com a arbitragem do venezuelano Johan Marcano Rojas, árbitro da Federação Roraimense de Futebol de Salão. Fizeram parte da equipe de arbitragem também Damosiel Lacerda de Alencar Júnior, Hernane Silva Ferreira e Michael Barros Costa.
Marcano é o único árbitro venezuelano da Federação Roraimense de Futebol de Salão
As narrações dos jogos foram feitas pelos indígenas Warao Yumelis Lopez e Hermes Mariano, que faz parte do comitê de esportes dos abrigos, é voluntário da Klabu e já foi locutor de rádio.
Yumelis estuda Gestão Territorial Indígena na Universidade Federal de Roraima e se diz uma radialista aprendiz.
“Estamos no segundo ano consecutivo apoiando esta atividade aqui em Boa Vista e é muito importante para nós que refugiados e migrantes possam estar ocupando os espaços da cidade como forma de integração”, comenta Marvin Edwards, oficial do projeto Klabu Club House na AVSI Brasil.